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Da dívida à dádiva, ou: reflexões quase-psicanalíticas sobre Mt 20, 1-16a

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21.09.2026 | 9 minutos de leitura
Pe. Eduardo César Rodrigues Calil
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Da dívida à dádiva, ou:  reflexões quase-psicanalíticas sobre Mt 20, 1-16a
Neste 25º Domingo do Tempo Comum, Jesus conta uma Parábola curiosa e incômoda. Em suma, trata-se de um patrão que contrata funcionários na primeira hora da manhã e combina com eles uma moeda de prata. Depois, seguindo as vigílias de três em três horas, sai novamente contratando outros funcionários e combina com eles o que for justo. Por fim, às cinco horas, apenas uma hora antes do fim da jornada de trabalho, contrata outros funcionários que ficaram o dia todo sem serviço. Na hora do acerto, paga a todos o mesmo valor, o que gera discussão, pois houve quem trabalhou mais e, por isso, supõe que merece receber mais. De fato, o patrão não feriu o combinado; não foi injusto, porque não feriu sua palavra: a moeda prometida foi paga. Que ele tenha sido justo com sua palavra, tudo bem, mas teria sido justo com os trabalhadores que se esforçaram diferentemente uns dos outros? Para ser bom com os últimos, não teria sido cruel com os primeiros? Ora, Deus não “retribui ao homem de acordo com o que ele faz e lhe dá o que sua conduta merece”? (Jó 34,11); “não retribui a cada um segundo o seu procedimento” (Rm 2,6)? Por que, então, os que menos trabalham ganham o mesmo que os que trabalham mais? 

Acontece que o Reino dos céus, esse reinado da esperança, subverte nossas compreensões.

1. Não existe meritocracia

O reino dos céus não é baseado na lógica da retribuição. Segundo essa lógica, Deus abençoa os santos e castiga os pecadores. Mas para Jesus, não existem os santos e os pecadores, mas os irmãos. Para o Pai de Jesus não importa a que horas os filhos cheguem, mas que cheguem. 

O Reino não é o lugar onde se deve contabilizar os méritos, pois não é a lógica do merecimento que conta, mas o desejo de fazer parte, de estar junto, de trabalhar junto para produzir o vinho da alegria. Não interessam as altas performances, as fadigas e o cansaço do hiperativismo, a romantização dos excessos, a fim de poder orgulhar-se de ser supostamente melhor e de merecer mais. O que importa é o desejo de contribuir, é poder contribuir com o que se tem e com o que se é, ainda que isso seja pouco. A dádiva do amor supera a dívida da culpa com que muitos se esmagam, quando se julgam pouco, quando têm de fato pouco. Enfim, o que realmente interessa é que caiam as contabilizações que dividem e que todo mundo possa experimentar o amor de Deus. 

2. A competição e a comparação 

Se a lógica que impera entre nós é a de viver em comparação e competição, a parábola desloca a atenção do eixo do trabalho que merece um pagamento justo, e que, portanto, abre uma dívida (numa lógica contabilista) para a dádiva do patrão bom (que paga segundo seu amor). 

As comparações sempre existirão entre nós. Nossa inteligência opera geometricamente, mas as comparações e a competição se fundamentam na fantasia de que para alguns não há falta. Essa é a raiz da inveja. A inveja parte deste ponto: ficar insistindo em comparações injustas; ela não deixa passar do desejo de competir ao desejo de contribuir. É isso que leva os funcionários à murmuração: eles não veem que os trabalhadores da última hora são faltantes como eles são, porque estão sob a lógica das contas, da comparação de tempos de serviço. Contudo, na verdade, todos eles estão sob a mesma jornada do falta-a-ser. Todos estão lidando com a falta, a trabalho com ela.

Ganhar o mesmo salário não iguala os funcionários a respeito do tempo do trabalho (está nessa comparação o erro do funcionário que murmura). O mesmo salário iguala a todos na ordem do desejo: somos todos faltantes, todos perdidos, sem saber o que fazer da vida, seja de manhãzinha, seja no fim da tarde. Sem um sentido pronto para dar para a existência, à espera do Outro, de salvação, de alguém que nos contrate e que pague uma medida de gozo para cada um de nós. 

O quê da parábola é que o patrão oferece trabalho, mas não sentido (esse é tarefa de cada um com sua própria moeda). Há que se poder fazer algo com a moeda que se recebeu que não seja ficar reclamando ou à espera de um Outro que dê mais: “pega sua moeda e vai! ”. Há que se poder gozar a condição de possibilidades da vida.

Se o amor de Deus é nossa dádiva na vida, não é para ficarmos endividados, mas para podermos fazer algo com aquilo que recebemos. Entretanto, seguimos comparando nossas cotas de gozo, ao invés de poder-desejar bancando que há falta. A moeda representa, ao mesmo tempo, esse poder-fazer-algo e a falta; o que temos é essa medida (uma mísera moeda) que julgamos ser insuficiente, mas que é de uma só vez, o pouco que temos, mas o incalculável do valor de viver. Essa é a dádiva.

3. Nossas matemáticas e contabilismos. 

A parábola também ajuda a pensar na contabilidade que fazemos de tudo: do amor, do perdão (tema do evangelho do domingo passado), da vida. Não sabemos nem contar nossos dias (aliás essa é uma sabedoria que o salmista pede- Sl 90,12), quanto mais fazer matemática do que é tão fundamental- e que se põe fora de qualquer possibilidade matemática.

Nesse sentido, não dá para medir quem ama mais, quem tem mais fé ou mais esperança. Em nós essas experiências se abrem e se fecham como uma mola. Esticam e contraem; ora estão mais intensas, ora estão mais apequenadas. Ora temos a energia para os trabalhos de um dia todo, ora estamos sentados à espera de algo que nos convoque. Somos ao mesmo passo, um pouco dispostos, um tanto indispostos; para algumas coisas cheios da energia das primeiras horas, para outras, como os trabalhadores que quase não empregaram suas forças. 

4. Nem uma religião obsessiva nem uma religião da “consciência”.

O evangelho ensina a deixar as contabilidades de uma religião obsessiva: a vida é mais que os murmúrios das condenações dos outros e mais do que nossas autocondenações. Estamos constantemente sob a pressão do tudo fazer, tudo ser, dar conta de tudo, da supereficácia, da ilusória onipotência.  Achamos que é no muito fazer que está a prova de nosso empenho com o reino com Deus, mas nosso muito fazer pode recobrir na verdade a falta que a recompensa-que-não-vem, e que é esperada, descobre. Quando o pagamento para toda a labuta não vem, ele vira queixa, porque no fundo a superexaustão é de uma lógica diferente da do Reino, ela apenas se infiltrou aí, a fim de que os trabalhadores tentem recobrir a falta-a-ser, à espera de ganhar a paga por todo sacrifício que empenham. O amor do “patrão”, contudo, é um abraço generoso e bondoso, largo, cujo olhar bom não está posto no sacrifício e na aflição (que ele não quer. Cf. Mt 9,13s; 11,28ss). O amor está reservado para aqueles que querem amar, ainda que sofram todas as ambivalências de serem gente, mesmo as ambivalências do amor.  

O que o evangelho nos mostra, além disso, é que gente muito orgulhosa de ser muito trabalhadora; ou de muito amar, de muito ter fé, pode descobrir-se não dona de uma precedência que julgava ter. Esses que se acham donos de alguma precedência se descobrirão os últimos. E aos que se acham muito últimos, descobrirão que são os primeiros. Mas no fim, todos recebem não segundo a própria consciência, mas segundo o amor de Deus. A religião de Jesus não é religião da consciência; essa aliás pode ser muito cruel, punitiva, contabilista, e se colocar atrás de ideias de autossacrifício infindáveis. O amor de Deus, contudo, precede nosso orgulho e seu juízo amoroso precede inclusive o juízo duro de nossa consciência (1Jo3,20-22). 

5. A religião dos obsessivos não é a “religião” de Jesus Cristo. 

Para os obsessivos a religião não é só o espaço de um ritualismo repetitivo, mas o lugar de uma dívida e de uma culpa. Assim vivem os obsessivos: sempre endividados. Querendo pagar uma dívida impagável, culpados de não conseguir pagá-la, jamais podendo fazer outra coisa com o próprio desejo do que negá-lo, para servir (pagando) a dívida com o Outro. 

Nessa parábola genial, Jesus mostra que a vida não nos deve nada, embora possa muitas vezes ser boa conosco. Há a dádiva incomparável de viver e poder ser convocado à vida várias vezes (seja cedo ou tarde, de madrugada ou às cinco horas, a vida sempre nos convoca). 

Mas, sob as queixas de querermos sempre mais, nos desculpamos de nunca fazermos nada com a moeda que julgamos pouco. E terminamos queixosos, mas nunca a experimentar a dádiva que recebemos. Endividados com o Outro, querendo pagá-lo de uma dívida que ele não nos cobra, para não fazermos nada com o “salário” que ele mesmo nos dá: nossa condição de possibilidade. Então nós nos pomos a reclamar da moeda que o outro recebeu, e a desprezar a que recebemos. 

Para além de dívidas e cobranças, o Reino de Deus é generoso e é o Reino da Generosidade. Ele faz cair o que divide; principalmente as pretensões de sermos melhores (ou piores) que os outros. Afinal, seus pensamentos não são os nossos pensamentos e seus caminhos não são os nossos caminhos. 

Cada um tem sua moeda; nunca igual, sempre uma apenas. Sempre diferente, mas de mesmo valor incalculável. Sempre para hoje, nunca para amanhã. A qualquer momento é possível descobrir seu valor incalculável (é quando se começa a “trabalhar” na vinha da alegria!). Nessa vinha, a vinha de nossa esperança, a justiça de Deus é seu amor. Ele não nos trata segundo nossas faltas, nem segundo nossos acertos, mas segundo sua bondade. Ainda bem… porque a vida é de valor incalculável (especialmente quando passa da dívida para a dádiva). E se a vida tem valor incalculável, quanto mais incalculável ainda é o amor infinito de Deus.

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