Não vos deixareis órfãos (Jo 14, 15-21)
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18.05.2026 | 4 minutos de leitura
Para celebrar

Todo filho, biológico ou não, só é filho, de fato, se for adotado. Para ser filho, não ser órfão, não basta nascer da carne e do sangue. Não é o sangue que indica a filiação apenas, mas é sobretudo que sejamos adotados pelo amor, escolhidos no cuidado, filiados no desejo do Outro. Logo, órfãos somos todos até que possamos ser adotados pelo amor de alguém. Nos textos de João, alguém poderá reclamar, não somos filhos adotivos, somos filhos “de natureza”. É Paulo quem dirá, com linguagem quase jurídica: fomos adotados por Deus, por intermédio de Jesus Cristo (cf. Ef 1, 5). Mas em João não: aí, não nascemos do sangue, nem da vontade da carne, mas de Deus (Cf. Jo 1,13). Diferença clara nos termos, mas até para Paulo a adoção é uma predestinação segundo a presciência de Deus. Isso significa que fomos eleitos e adotados em Jesus, antes que pudéssemos nascer da carne e do sangue. O que vem primeiro é esse amor que nos adotou, e do qual nascemos. Assim, as duas teologias, a paulina e a joanina, nesse caso, são só uma contradição formal, mas não uma oposição: na verdade, somos da natureza de Deus, porque adotados por ele, desde sempre. Ou, igualmente: somos adotados por ele, em Jesus Cristo, porque nascemos de seu amor, quando tudo era mistério e silêncio.
Esse amor não nos deixa órfãos. Ora, se o narrador pensa nos discípulos amedrontados e nas comunidades perseguidas, ao escrever isso; agora, os ouvintes, que somos nós também, temos o direito de continuar o texto pensando na orfandade como ela se apresenta: aí nesse lugar onde alguém tenta se localizar em referência ao desejo de um outro.
A partir de Cristo, experimentamo-nos nessa passagem: da orfandade para a filiação. E com a ida de Jesus para o Pai, não ficaremos órfãos de sua presença, de seu amor, porque ele nos concederá um outro Defensor, o Espírito da Verdade. Esse Espírito está ao nosso lado, e nos defende, auxilia-nos, mas também defende a presença de Cristo em nós, mantendo-a viva. Esse Espírito nos deixa em estado de abertura, sem nos definir, acompanhando-nos na fidelidade a Cristo. Não é demais lembrar que Verdade no hebraico tem a ver com aquilo que permanece, tem a ver com fidelidade. O Espírito, portanto, acompanha na fidelidade a Cristo, na resistência no caminho, sem suturar ou fechar nossa abertura profunda à vida, mas cavando-a. Passamos, portanto, dessa posição de órfãos de um sentido último, ou órfãos como pessoas a quem falta algo, para essa posição de sujeitos estruturados por uma abertura que nos movimenta. Sermos filhos, pelo Espírito, não fecha, mas rasga o coração.
Afinal, ao recebermos o Espírito da Verdade, antes de recebermos um saber, recebemos uma presença que nos impulsiona. E nos impulsiona para Cristo, e defende o que dessa relação entre nós e Cristo não se pode perder: que somos filhos do mistério da vida, que nascemos, na verdade, do amor. Aliás, esses são os mandamentos a cumprir: amar como ele nos amou e, isso, menos como uma lei vinda de fora, e muito mais como uma relação entre o Pai, o Filho e nós. Por causa do Espírito que nos será dado, deixamos de ser órfãos, também, porque deixamos de procurar na filiação a definição última e nos tornamos, no caminho Cristo, revelação continuada de Deus. Isso, porque algo de Deus estará por se dizer em nós, já que o Espírito conduz sempre a Jesus, mas não conduz à sua repetição, mas à sua manifestação em nós. O Espírito não nos transforma em repetidores de Jesus, mas em sua manifestação viva no mundo.
Por isso, hoje também damos graças por todas aquelas mulheres que, no amor, adotaram, acolheram e fizeram nascer filhos em seus corações. Toda maternidade assim, colabora, afinal, como o amor de Deus.
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