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Pontos-cegos

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08.09.2026 | 14 minutos de leitura
Pe. Eduardo César Rodrigues Calil
Para celebrar
Pontos-cegos
Todo evangelho lido aos domingos é sempre um excerto que a liturgia e a teologia chamam de perícope. Um recorte, portanto. E um recorte, às vezes, malfeito, porque os textos lidos podem pertencer a uma unidade inseparável e maior, cujos sentidos não independem. No entanto, a tesoura litúrgica acaba desmembrando os textos por sei lá quais razões, embora muitas delas, já ouvidas, tenham a ver com os tamanhos, com a impossibilidade de explicá-los detidamente, com a organização e distribuição dos mesmos nos domingos etc.  Recordo, por exemplo, o texto em que Pedro responde acertadamente à pergunta de Jesus, sobre quem os discípulos dizem ele ser. A fé que Pedro professa é a pedra-fundamento da Igreja, enquanto ele é uma pedra-tijolo desse mesmo “edifício”. Mas esse evangelho está ligado exatamente ao que vem a seguir: Jesus pretende corrigir a reposta desse mesmo Pedro, quando esse diz que Ele é O messias, contando que seu messianismo comporta a cruz. Pedro, então, se torna pedra de tropeço, satanás; ou seja, um adversário àquilo que Jesus propõe, ao não aceitar a cruz, e precisará retomar o caminho do seguimento se colocando atrás do mestre. Esse evangelho tem uma trama, um clímax, um anticlímax e uma solução que o une, mas seus feixes foram separados pela liturgia e nós ouvimos parte num domingo e parte noutro. Talvez não dê pra ser de outro jeito. 

Por causa disso, toda homilia pode ter pontos cegos e contradições radicais: por se deter demais nalguns aspectos que serão mais tarde contraditos, matizados ou mesmo deslindados. É evidente que outras razões incluem pontos cegos às reflexões dominicais: tempo de fala, desconhecimento das unidades textuais, exegese e teologia enviezadas, enfoques. Mas há algo muito estrutural: há textos que não procuram responder a certos problemas que são nossos, e não é que os tais problemas não existissem, mas que não fazem parte do horizonte textual, da intenção do autor, de sua catequese destinada a um grupo de leitores, e a atualização desses textos depende muito de ter em mente esses critérios. Logo, ir a certos textos querendo retirar deles algumas respostas para questões prévias, pode nos levar a conclusões tendenciosas e inverídicas. 

O texto do 23º domingo do tempo comum do ano A, conhecido como evangelho da correção fraterna, compreende muito desses problemas interpretativos. O texto precisa estar incorporado ao seu contexto para ser compreendido (é assim com toda perícope). A trama do evangelho, desde a confissão-confusão de Pedro, parece apontar para uma tendência hierarquizante na própria comunidade, para quem o evangelho se destina. Isso aparece na trama do texto, na pergunta: “quem é o maior no reino dos céus?” (18,1); será Pedro? A isso Jesus responde, colocando uma criança no meio deles e ensinando a todos a se fazerem pequenos (18,3-4) no serviço e na doação. Mas os discípulos deram prova, na disputa entre eles, de que não estavam entendendo aquilo de que Jesus lhes falava, quando anunciava sua morte e ressurreição (17,22-23). Logo, tendências hierarquizantes, disputas, competição e ambição, dentro das primeiras comunidades deviam ser comuns, a ponto de levar o evangelista a se ocupar de uma catequese contra tais tendências. 

O cuidado com o pequenino, para que nenhum deles se perca, aparece, então, na parábola da ovelha perdida (Mt 18,1-10). O evangelista aponta para a missão da comunidade; incluir, não perder ninguém. A Igreja deve testemunhar esse cuidado do pastor, a partir do empenho pela comunhão e reconciliação. Daí, o evangelho que ouvimos nesse domingo seguir essa trama narrativa, funcionando quase como uma explicação da parábola. Como não perder nenhum desses pequeninos? A partir da reconciliação e da opção decisiva pela fraternidade. Logo, o evangelho que escutamos (18,15-20) não é exatamente um manual de procedimento para corrigir os outros; não é um itinerário instrutivo como conselhos morais, porque há uma diversidade de circunstâncias, uma variedade de acontecimentos, uma infinidade de arranjos que mudam muito as coisas de figura e que esse evangelho, com essa organização aparentemente fásica, que propõe etapas crescentes em empenho e organização, não dá conta de resolver. Sim: o evangelho se oferece como o que dá a pensar, não como um manual do que fazer, pois um modo de fazer não responde à infinitude de arranjos grupais e suas questões polivalentes. Logo, o que ele quer fazer pensar? 

Que a fraternidade é uma opção incontornável. A fraternidade é o que constitui propriamente a comunidade cristã, que reza ao Pai-nosso e que se entende como povo de irmãos. Não como uma massa amorfa, mas como singularidades e diferenças que se irmanam e que importam umas às outras. É um desafio, desde sempre: a arte de conviver, de fazer comunhão, sem assassinar individualidades, mas sem eliminar o bem comum. É um arranjo difícil: que sejamos uma igreja (ecclesia), uma assembleia, sem descuidar das ovelhas uma a uma, a ponto de uma só ter a tamanha importância de ser buscada… Daí, não perder o irmão. 

Mas como conviver é tarefa difícil desde antes de nós nos levantarmos sobre duas pernas, como fazer quando somos feridos, quando alguém nos faz morrer? Ultrapassando as tendências da vingança, o evangelho propõe a correção: não para vencer discussões, não para derrotar o outro ou humilhá-lo, mas para ganhá-lo. Ou seja: não o perder. O caminho é sanativo: propõe jamais deixar de ver o outro como irmão (“se teu irmão pecar contra ti…”), propõe sair da passividade e da vitimização (“vai corrigi-lo…”), conduz a não falhar com a justiça, pois afinal a correção não é humilhar ou envergonhar o outro em sua nudez, a nudez de seu erro (“mas em particular, a sós contigo”). E continua: “se ele te ouvir, tu ganhaste o teu irmão”. A condicional “se ele te ouvir” aponta para o diálogo, que não é feito entre um juiz e um réu, mas entre irmãos que falam e se escutam. E mostra, finamente, o objetivo: ganhar, mas o irmão! 

O texto parece perguntar: mas e se ele não ouvir?. O evangelho leva em conta a obstinação da não escuta, que ignora o desejo da fraternidade (“se ele não te ouvir… se ele não vos der ouvidos… se nem memo a Igreja ele ouvir…”), ao mesmo tempo que põe como “agere contra”, uma oferta de reconciliação permanente, ou perseverante: “toma contigo uma ou duas pessoas… testemunhas, dize-o à Igreja, seja tratado como publicano ou cobrador de impostos”. A oferta da reconciliação não parece recuar. O contexto é, mais uma vez, eclesial: a Igreja se esforça para não perder o irmão, já que cada um de seus membros são importantes para o corpo. Mesmo ao dizer: “seja tratado como publicano ou cobrador de impostos” – a tradução mais precisa em relação a tradução litúrgica – o texto faz pensar: como Jesus tratava esses pecadores? Comendo com eles, anunciando-lhes a boa nova, chamando-os. Ou seja: os obstinados na surdez são chamados a refazer o caminho, e a Igreja segue ofertando reconciliação. Isso muda a posição da comunidade que muitas vezes é tentada a amedrontar, chantagear e excomungar. A posição da Igreja é a de deixar que os outros decidam, apesar de sempre ofertar vida e se empenhar para que os irmãos não se percam em caminhos de morte. E mesmo quando eles parecem lhe virar as costas, ela segue aberta, como tenda acolhedora. 

É evidente que a reconciliação, portanto, depende de que o irmão escute, e escutar é a base da conversão, da mudança de vida. E é evidente que a correção não se dá a partir de moralismos, de compreensões de mundo fechadas; afinal, os moralistas e rigoristas, não raro, se aproveitam para fazerem de seus manuais particulares de moral, o critério fundamental de correção. A correção nasce do desejo de vida para o outro, de vida nova dada por Jesus, baseada no amor como lei, baseada em não ficar devendo nada ao outro a não ser o amor mútuo. Esse amor mútuo, é o amor ativo e efetivo de Jesus: ajudar o outro a liberar as forças da vida que há nele. Assim, não se  amarra o próprio perdão de Deus, e o próprio céu e a terra se aproximam. É isso que a Igreja celebra e reza: a comunhão. E é isso que ela torna visível: Cristo, um em todos. 

Esse evangelho tem uma unidade com o da próxima semana (24º domingo do tempo comum). Ouvindo sobre essa decisão pela reconciliação, Pedro parece subjetivar a questão, demonstrando escândalo pessoal com essa insistência na posição reconciliadora: “Senhor, quantas vezes devo perdoar, se meu irmão pecar contra mim? Até sete vezes?\". Pedro trouxe a pergunta para o âmbito subjetivo e parece entender, com a questão que faz, que o perdão é a saturação (per) do dom, o excesso. Mas Jesus vai mais além: “Não te digo até sete vezes, mas até setenta sete vezes”. Já sabemos que Jesus entende o perdão também como decisão, capaz de fazer a vida ser liberada, inclusive daquelas ocasiões em que ela fica agarrada, amarrada nas mágoas e ressentimentos, no ódio e na violência… Onde somos incapazes de perdoar, a vida se torna uma ciranda de cobranças, acusações, prisões, choro e ranger de dentes, como a parábola parecerá testemunhar na próxima perícope, no domingo seguinte (18,21-35). Sem reconciliação e perdão, a comunidade não poderá existir, mas também relação alguma sobreviverá. 

Apesar do esforço de atualização desses evangelhos, não é fácil perfazer com eles toda a vastidão de circunstâncias que a vida abre como acontecimentos, sofrimentos, rupturas, traumas. Podemos, por exemplo, a partir desses textos, olhar como o desafio comunitário se aguçou: os sentidos partilhados se perderam, as narrativas comuns definharam, o bem comum não é um projeto que faça sentido para muitos. O individualismo e o subjetivismo, ou a epidemia de solidão aguçadas pelas redes sociais e pelas IAs, a cultura do cancelamento, o endurecimento do narcisismo do pequeno eu; tudo isso parece apontar para a dificuldade de pensar que não somos independentes e autônomos, mas con-vivemos. 

Como tornar a convivência possível, sobretudo, se nos ferimos mutuamente, mesmo quando não queremos? Como construir vidas em comum se parecemos ter feito do lema do mercado: “cada um por si e Deus por todos”, o lema da vida pessoal? E se até Deus virou Deus de bolso, customizado à nossa maneira pessoal? Como viver juntos se alguns se preocupam só com o que entra pela boca e sai na latrina (lógica farisaica), mas não se ocupam de mais nada a não ser seus próprios interesses? Como ser irmãos, se o egoísmo se tornou o modelo da boa resolução, de esperteza, de amor próprio?

A propósito da dificuldade de conviver, recordo a história atribuída ao filósofo alemão Arthur Schopenhauer, sobre porcos espinhos que enfrentaram um duro inverno e precisavam se aproximar uns dos outros para se aquecerem mutuamente. Ao se aproximarem, acabavam se ferindo e precisavam se afastar. Mas ao se afastarem, acabavam morrendo de frio. Entre se espinharem ou morrerem de frio, tinham que fazer uma dura decisão, e achar –  quem sabe – uma justa proximidade. A história me encanta por uma razão inicial: não somos águias ou galinhas, raposas ou corvos, cigarras ou formigas; somos todos porcos-espinhos. Todos somos “naturalmente” gente que fere e se fere; e isso não é uma contingência, é algo que não cessa de acontecer, toda vez que con-vivemos. A hostilidade faz parte de toda e qualquer relação, como uma espécie de rebotalho, quando tentamos qualquer operação humana, tais como comunicação, afeto, cuidado etc. Isso faz da reconciliação e do perdão uma necessidade, algo que não cessa. Inclusive, porque se é verdade que ninguém nasceu para atender nossas expectativas, isso quer dizer que teremos que lidar com nossas frustrações, decepções, incompreensões… e o perdão entra aí. 

Essa reflexão, contudo, não deixa de ter pontos cegos. Venho avisando sobre isso. Não é possível com qualquer reflexão que seja, contornar toda a experiência humana. 

Foi, então, quando a esposa do diácono, após as duas celebrações que fiz, propôs uma questão, tão justa que desatou toda esse texto: “E as relações tóxicas? Tem que sofrer e aguentar?”. Terminada a homilia na missa de ontem, sobrava-me esse incômodo: se as portas da reconciliação devem estar para sempre abertas, isso significa que não podemos encerrar ciclos, fechar portas? A pergunta da diaconisa, veio ao encontro da minha. Parece bastante com o escândalo de Pedro: Mas quantas vezes devemos perdoar? 

Porque há quem cinicamente se aproveite da generosidade dos outros… Aliás, o melhor parceiro de um egoísta é sempre um generoso… Não falta também quem se aproveite das boas disposições religiosas para mentir e seguir escondendo a verdadeira disposição para a crueldade… Ou há aqueles que prometem mudanças, só para não mudarem nada. A reconciliação pressupõe mudança efetiva que garanta a vida da relação. E quando atestamos que a fraternidade deve ser uma decisão, isso não implica necessariamente que afetos não acabem ou mudem. A decisão pela fraternidade é uma decisão radical por tratar o outro como um irmão: alvo do bem que lhe podemos fazer, jamais do mal. Não significa gostar, ter carinho, intimidade, proximidade… Acho justo recolocar assim, porque todos nós sabemos que amizades e amores acabam ou mudam e, se não há mudança possível para permanecer, se os caminhos se separam, como acontece muitas vezes, é preciso manter as disposições de não fazer o mal. 

Dito de outro modo: Como se reconciliar com quem não deseja nada mais além de si mesmo e faz do mundo um degrau para seus interesses? A escuta está defasada. Do lado de quem escolhe Jesus, a firme decisão de não fazer o mal coincide com a decisão de amar, perdoar, reconciliar-se. E não coincide com ser amigo, ser amante, ser íntimo, necessariamente. Isso significa que algumas portas podem se fechar, mas a porta do amor, ou seja a firme decisão de fazer o bem, não. 

O perdão vai nesse mesmo sentido. Ele passa pela justiça, não é a autorização do erro ou a banalização do mal… Ele é a abertura da condição de possibilidade para que o outro possa fazer algo diferente da própria vida. Mas alguns seguem se esmerando na maldade. Pode pedir perdão por matar, quem continua matando? Evidente que não. Logo, o perdão nasce da conversão. 

Mas e quando alguém se esmera por mudar, ao mesmo tempo em que em nós algo se esgotou, como por exemplo, a confiança, a segurança? Afinal, as relações mudam de configuração o tempo todo. O perdão é a capacidade de liberar-se do erro do outro; de não erguer um monumento à dor que o outro nos causou. É a capacidade de refazer caminhos diferentes, deixando o outro ser diferente – e isso não significa que será ao nosso lado. 

E o que dizer das pessoas que sofreram violências terríveis, abusos, traições? Ora, perdoar, aí, não é algo que poderá acontecer de verdade, sem enorme gasto psíquico, sem a justiça, sem a reparação – quando ela é possível – e sem a elaboração custosa de novas maneiras de existir. Aí o perdão não pode ser uma exigência moralista, uma pressão religiosa, e necessita da graça como auxílio. Não deve ser visto como benefício ao agressor, mas como benefício ao agredido; como cura da memória, nas palavras de Paul Ricouer. O perdão é um dom de Deus, é o que cremos, e não podemos ofertá-lo se não o experimentamos; ou seja, sem Deus. 

É preciso dar um basta às violências que são justificadas religiosamente ou reforçadas por sentidos religiosos equivocados. A muitas vítimas, se acrescenta a revitimização de discursos moralistas, culpabilizantes ou que apagam a dificuldade da reconciliação e do perdão, como processos sérios. Esses processos não implicam sempre reatamento de laços, mas, às vezes, desenlaces necessários. O perdão e a reconciliação não significam aceitar violências, agressões, crueldades, de que tipo sejam, mas interrompê-las e curar seus efeitos nefastos, o quanto possível. Não podemos fazer do que Jesus ofereceu como ponto de basta, ou oferta de cura, um objeto de sofrimento.
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