Outro modo de presença
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15.05.2026 | 4 minutos de leitura
Para celebrar

A ascensão não é uma ida embora de Jesus, mas a consciência de mudança no seu modo de presença. Os discípulos começam a entender que ele deixa de estar fisicamente limitado a um local para estar presente a todos, a qualquer tempo, pelo Espírito. Disso, os Atos dos Apóstolos nos dão verdadeiro testemunho, justamente nos apresentando, como cena inicial, a ascensão de Jesus, cena que funciona como uma espécie de dobradiça, pois o evangelho de Lucas, que também é do mesmo autor de Atos, termina com a cena da ascensão. O texto atua como um elo que transfere a ação de Jesus em sua carne para a ação de Jesus ressuscitado através do Espírito Santo na Igreja.
Os anjos de branco, diz o livro de Atos, repreendem os discípulos por olharem para o céu, porque a fé cristã não se deve tornar uma seita de contemplativos, ou uma espera passiva pela volta do Senhor, mas deve ser um agir no mundo, esperançoso. Espera é diferente de esperança. Espera é quando cruzamos os braços, é quando nossa vida está inerte, e até mortificada, enquanto lamentamos a frustração de nunca vir ou de nunca recebermos aquilo que esperamos. Como no conto de Samuel Beckett, chamado Esperando Godot. Nesse conto, o autor põe em diálogo os personagens Vladimir e Estragon, que aguardam a chegada do misterioso Godot. Seria Godot, de algum modo, uma referência a God, que é Deus, em inglês? Não saberemos, mas as conversas transitam em torno do destino, e das misérias da vida que talvez merecessem a morte. Enquanto discutem, esperam passivamente, penosamente, Godot, que nunca chega.
A esperança é outra coisa. Nossa esperança na volta de Jesus, passa pela compreensão do que é de fato sua subida aos céus. Inicialmente não é uma subida física; levitação, flutuação, subida que o faz corpo astronômico subindo e subindo indistintamente para o espaço que é infinito. Trata-se de sua ida para junto de Deus, como constatação de que ele é da parte de Deus, que de lá ele veio e para lá retorna. E, com ele, carrega a nossa condição humana, glorificando-a e fazendo-a assentar-se ao lado direito do Pai. A ascensão de Jesus, afinal, é o desdobramento que o evangelista Lucas, faz da morte-ressurreição de Jesus, mostrando que sua ressurreição é sua glorificação, é a elevação do Filho que se rebaixou humildemente, sofrendo a morte de cruz. Isso põe-nos esperançosos, porque nos torna caminhantes, peregrinos em direção ao horizonte que é Cristo mesmo, como profecia e realização do que há de mais humano em nós. Não estamos à espera, olhando para cima, mas somos chamados a realizar a história encontrando, no caminho, os vestígios dessa presença que não partiu, mas mudou o jeito de permanecer. Trabalhando no mundo e na história, Jesus volta – pois nunca deixou de estar – nos nossos gestos de amor.
Aliás, a leitura de Atos dos Apóstolos, desse domingo, tem um coração quando traça o mapa da Igreja: de Jerusalém aos confins da terra, pela ação dos discípulos capacitados pelo Espírito para serem testemunhas do Ressuscitado. Ou seja: a ação dos que seguem Jesus é transformadora do mundo, a partir da fé naquele que venceu a morte. Isso significa que não podemos nos entregar a uma espera mortificante, passiva. Testemunhar aqui, significa descobrir que o que na vida é maior que a própria vida.
Mesmo Jesus não parece se interessar pela cronologia do fim; essa curiosidade apocalíptica é muitas vezes o jeito passivo de se desresponsabilizar pela vida e pelo que dá trabalho na vida, a fim de esperar o desfecho e o advento do fim como resolução. É como na nossa espera por um fim do mundo; muitos o esperam como solução, para não pensarem jamais no fim da exploração contumaz dos recursos da terra, para não pensar no fim do sistema econômico injusto que vivemos, para não pensar no cuidado da casa comum, tão necessário, enfim: para não pensar... É mais fácil esperar o fim do mundo, do que trabalhar o fim da injustiça. A primeira leitura desse domingo faz esse deslocamento fundamental: da cronologia do fim para a responsabilidade da missão no presente.
O evangelho, por sua vez, tirado de Mateus, ainda pode nos ajudar a completar essa ideia de que a ida de Jesus para junto do Pai não é abandono. Ele mesmo diz: “Eis que eu estarei convosco todos os dias até ao fim do mundo”. Portanto, ascensão não é ausência, mas a presença glorificada de Jesus, estendida, alargada, e aprofundada em nós.
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