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odres

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02.06.2026 | 2 minutos de leitura
Pe. Eduardo César Rodrigues Calil
Poesia
odres
dá-me, senhor, um pouco do teu vinho, para arrebentar com ele os odres velhos. sei do valor inestimável do vinho bom, mas permita-me usar o suficiente para estourar, com seu vigor, a resistência desses sacos velhos, caducos de tempo e pele morta. vou entorná-lo, mas com a graça de ver rasgar o que insisto em repetir; conservadorismos e gozos. 
sei de tua ordem: não deitarás vinho novo em odres velhos. mas é que preciso romper antigas regras. quero deixar instituições já mortas, estruturas já carcomidas de demência e senilidade. é preciso desfazer antigos ciclos. de tanto repeti-los posso reelaborar, mas não mudo, enquanto se manter algum apreço aos odres antigos. mesmo o respeito pelo velho, eu abandono em minha prece: quero romper de dentro pra fora o que não presta. 
dá-me, enfim, um pouco mais do vinho novo. não o peço todo. só o bastante para que o odre novo se lembre do vazio, que também o preenche. vinho e vazio. o vinho da alegria mora no furo do odre. e mesmo assim o furo permanece... quero o aroma do vinho bom... o aroma que faz o passado ganhar novos contornos: ficção recriada e refeita pelo poder das palavras. 
peço-te, senhor, a graça do desperdício. há que se perder algo do vinho da alegria, para abandonar o que não pode proteger e guardar a novidade do vinho bom e a necessidade do vazio. 
amém. 

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