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Uma Quaresma honesta

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18.02.2026 | 5 minutos de leitura
Pe. Eduardo César Rodrigues Calil
Para celebrar
Uma Quaresma honesta
(Mt 6, 1-6.16-18)

A justiça sustentada pelos escribas e praticada escrupulosamente pelos fariseus se dava a partir de três práticas: a esmola, a oração e o jejum. Mas será que o que interessa a Jesus é se tornar um exemplo para os outros, ou fazer da vida serviço e dom? Porque parece que Jesus não está interessado em momento algum no teatrinho da religião. Nem na encenação dos que querem mostrar muitas virtudes para serem considerados superiores aos outros. Mesmo as qualidades de alguém não são para ser exibidas, mas vividas na dinâmica da doação. Então, nessa quaresma que hoje se inicia, quando muita gente lembra de ser piedosa, parece que convém um evangelho em que Jesus desmonte, completamente, o clichê do homem piedoso. 

E ele o faz com uma palavra sua: chamando de hipócrita todo aquele que quer, a todo custo, parecer-ser, ou aparecer como que sob o verniz da piedade, do ideal de bem. Por isso, Jesus escancara que, por debaixo da máscara, há nada mais do que a necessidade de admiração por parte das pessoas e um desejo faminto de superioridade e de autorreferencialidade.

A esmola, por exemplo, se serve para a vanglória de quem dá, sempre humilha quem recebe. É claro que as boas obras podem inspirar e, certamente, podem levar as pessoas a Deus; é Jesus mesmo quem o reconhece quando nos convida a ser luz do mundo. Mas bem outra coisa é quando a boa obra é usada para edificar a reputação do que dá esmola, aí ela não passa de cinismo; é explorar a carência alheia. Quem assim faz é como o comediante, que já ganhou seu aplauso. Basta ver que muitos dos que dão esmola não suportam quando se questiona as razões mais profundas da injustiça e da pobreza. Fizeram dos mais necessitados um meio para a própria glorificação e não suportam pensar nas causas profundas da miséria, da fome, da injustiça. Jesus, por exemplo, vai mais fundo: será preciso superar esse sistema de dependência, seja pela partilha dos bens, seja pela justiça. 

Discrição para doar, discrição também na oração, pois há os que querem ser reconhecidos pela devoção que têm. Para Jesus, mesmo o templo, casa de oração, era uma figueira sem frutos: bonita, de boa aparência, mas sem substância. Para ele, os lugares de culto muitas vezes são casas impenetráveis ao Espírito. E, por isso, aconselhava, a rezar na parte mais escondida da casa; a gruta que servia de despensa. O texto não diz: entra no teu quarto, mas lá na despensa. E, quanto maior a fé, menos a oração precisa de palavras. Tagarelar é fazer como os pagãos. Por isso, ele diz: “ao rezar, não tagarelem como os pagãos, que creem ser ouvidos multiplicando as palavras”. Não queremos, afinal, lembrar a Deus, muitas vezes, como é certo que ele aja, como ele deve fazer, como é ser misericordioso? Não queremos ensinar Deus a ser Deus? Mas o Pai, segundo Jesus, sabe do que temos necessidade antes mesmo que peçamos. Assim parece que a oração vira menos instrução pra Deus e se torna mais confiança nele. 

Sem teatro na oração, sem desfigurações no jejum, a fim de figurar algo. A prática do jejum é a prática mais contestada pelos profetas. E, em sintonia com eles, Jesus não pede que seus discípulos ou os filhos de seu Pai jejuem: pede pra dividir o pão com o faminto. A vida que o Pai comunica não pode se transformar em mortificação, por isso nem Jesus nem seus discípulos praticaram um jejum devocional. Assim, Jesus tira a visibilidade dessa prática, relegando-a à esfera interior do crente. 

Essas práticas piedosas, dizem então, são eficientes para nos abrir; ao outro – com a esmola, à Deus – com a oração, ao essencial – com o jejum, desde que sejam feitas com discrição, segundo Jesus. Mas isso não é suficiente para traduzir a correção que Jesus propõe dessas práticas, na esteira do profetismo. É, no fundo, como se ele perguntasse, como o profeta Isaías: “Que me importa a abundância de vossos sacrifícios? A minha alma detesta vossas solenidades, estas são um peso pra mim, estou cansado de suportá-las. Quando estendeis vossas mãos, eu fecho os olhos à vossa frente. Mesmo quando multiplicais as orações, eu não vos dou atenção”. Prática da justiça mesmo é, portanto, o coração honesto, autêntico, e a vida feita dom, não para com isso receber aplausos, como no teatro, mas por amor genuíno. 

Que a quaresma nos ajude, então, a lapidar em nós a honestidade do coração, que é cheio de ambiguidades, mas mesmo assim é convidado a perseverar no amor.

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