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Extensio ou devolvei a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus

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22.10.2026 | 10 minutos de leitura
Pe. Eduardo César Rodrigues Calil
Diversos
Extensio ou devolvei a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus
1. O texto, mais uma vez.
Hoje, no 29º domingo do tempo comum, a Igreja leu a perícope de Mt 22, 15-21. O contexto desse texto é claro: Jesus enfrentou os ladrões do templo, que fizeram da casa de Deus um covil, expulsando os cambistas e vendedores (Mt 21,13). Um pouco antes, tinha também dito que as autoridades religiosas, convenientes e interesseiras, matam os profetas e farão o mesmo com o Filho (Mt 21, 33-46). Além de chamá-los de violentos, disse que as prostitutas tomariam seus lugares, entrando no Reino: são como filhos que dizem sim ao projeto de Deus, mas não vão trabalhar na vinha (Mt 21, 28-32). Agora, é a vez desses religiosos reagirem. Eles já querem matar Jesus e, para isso, os fariseus vão se aliar aos herodianos, seus inimigos políticos, para pegar Jesus numa armadilha: é lícito pagar o imposto a César?
Apesar de os fariseus serem contra o Império Romano, aguardando o Messias político que os salvará, eles pagam o imposto corretamente. Já os herodianos são completos amigos de Herodes, o governador fantoche do Império. Jesus desmascarará como esses dois partidos estão imiscuídos com o poder: eles portam a moeda (no lugar sagrado!), sabem de quem é a efígie e o que diz a inscrição do denário; ou seja, não são alheios à exploração de César, à idolatria que o poder romano impõe, nem ao quanto isso oprime o povo. Jesus tira a máscara deles (hipocrisia), destampa a maldade que trazem no coração e não cai na tentação diabólica em que os religiosos continuam a insistir em nome de Satanás (porque me preparais uma armadilha, hipócritas? A palavra armadilha é πειράζετε, que significa literalmente “tentar”).
Jesus responde habilmente: “Devolvei a César o que é de César”: as moedas — e, com elas, a sedição, a dominação, a submissão. É um convite a deixar o que é próprio dos Césares e o que deles ainda sedia nosso coração e domina nossas vidas. Devolvei! E os fariseus podiam entender isso bem: Jesus é um profeta que não se alia às dominações e tampouco à idolatria que elas exigem. E propõe que se devolva a Deus o que é de Deus; afinal, se a moeda romana traz a imagem falsa de um poderoso adorado como deus, o ser humano traz em si a imagem de Deus, segundo a qual foi criado. Devolver a Deus a vida e sua grandeza, com suas qualidades e competências; devolver a Deus a dignidade, a justiça e o direito, a beleza e a verdade; isto é, ter a Deus como nosso único Senhor. Para isso, será preciso deixar os césares que nos querem dominar.

2. Os césares que (se) querem inscrever
Os piores césares não são aqueles que dominam de forma ostensiva e cobram altos impostos, como sanguessugas, apesar de serem tiranos cruéis. Os piores Césares são aqueles que dominam também os afetos, colonizam o amor e o riso, cercam e armam tronos nos corações, imperando pelo medo, pelo ódio, pela ignorância e pela culpa.
A moeda de denário que apresentam a Jesus tem uma inscrição (ἐπιγραφή); mas o que pretendem os poderes é submeter, inscrevendo-se bem mais fundo… E isso faz a frase de um biblista como Carlos Mesters ganhar toda a substância: é fácil tirar o povo do Egito; difícil mesmo é tirar o Egito do povo. Há nos povos uma tendência à submissão, uma voluntariedade em se curvar diante dos que prometem livrá-los das ameaças da liberdade, da insegurança do não assegurado. Desde muito, não faltam aqueles que se valem disso e da promessa de que vão libertar o ser humano apenas para dominá-lo.
A. Não existem messianismos políticos efetivos.
O Reino de Deus que Jesus pregou não encontra estruturas humanas que se adequem a ele ou se identifiquem plenamente com ele. Jesus mesmo nunca comparou o Reino a uma estrutura humana; preferiu a natureza, a criação, para falar de um Reino que não está aqui nem ali, mas entre nós e dentro de nós, ora escondido, ora aparente, mas sempre atuante. O Reino de Deus é Deus reinando na vida, de modo que a vida ganhe outro estatuto.
As estruturas e instituições humanas são sempre falíveis. Por isso, mesmo as instituições religiosas devem estar sempre na dinâmica reformanda, isto é, revisitando os aspectos de si mesmas que precisam ser modificados para que possam se adequar melhor ao carisma originário e fundante que lhes deu origem.
Também os poderes políticos muitas vezes se apresentam como aguerridos defensores da vontade de um deus. Digo “de um deus” porque seus projetos ideológicos e partidários sustentam imagens de Deus, efígies que nem sempre correspondem ao Deus que nos fez à sua imagem. Nesse sentido, não são defensores de uma vida boa para todos: defendem projetos violentos, aliciados por seus próprios interesses ou pelos interesses dominantes que os beneficiam. Misturam a fé aos próprios interesses, querem impô-la como uma espécie de ditadura religiosa e estabelecer regras para todos, excetuando a si mesmos do cumprimento dessas mesmas regras. Aí está o princípio perverso: a lei e a moral que impõem são as primeiras que revogam em benefício próprio.
Messianismos políticos são de diversos tipos, vitoriosos ou não. Mas há características comuns que aparecem já na oferta ou quando eles se estabelecem: são virais e poderosos. O pior, porém, é quando se unem a ideologias extremistas. Nesse caso, maquiam a própria identidade para perpetuar-se; para isso, fazem uso da mentira e do cinismo. Criam inimigos comuns para reforçar a própria identidade e controlar os afetos pelo circuito raiva-medo. Inflamam a própria bolha contra os inimigos criados, incentivando discursos de ódio e oferecendo-se como remédio para a doença que criaram. Capturam o imaginário das pessoas não só envenenando os registros que nos fazem separar quem é igual de quem é rival — distinção, aliás, sempre ilusória —, mas também ensinando-nos a pensar o que desejam.
Os messianismos políticos que se estabelecem pela violência acabam entrando na lógica do ressentimento discutida por Nietzsche: os dominados desejam tornar-se dominadores. Os que prometem a salvação aqui na Terra prometem o que não podem cumprir. Os que tomam o poder, afinal, ou os que o mantêm, procuram sempre a mesma coisa: manter o poder.
O Reino de Deus é antipoder e, por isso, não há projeto político que seja idêntico ao Reino de Deus. O Reino é serviço, doação da vida, amor como gesto de dar vida, possibilitando que se viva e se viva em abundância. Por isso, o que se pode pedir dos líderes não é que convertam ninguém à fé cristã — ou a qualquer fé —, mas que garantam os direitos necessários para que haja vida. E o que Deus parece pedir é justamente que os líderes sejam honestos servidores do bem comum. Que o Reino encontre entre os humanos um “já”, ainda que provisório, mas efetivo e afetivo. Aliás, o Reino sempre será entre nós um “já” e um “ainda não”, o que inclusive nos motiva a continuar construindo-o.
Em cenários políticos, a guerra narrativa pode nos levar a pensar que há projetos que são de Deus, do Senhor Jesus, e que podem valer-se da fé para convencer e dobrar os outros. Não há. É preciso atentar aos fatos, não apenas aos discursos — tão tomados pelo imaginário, pela mentira e pela dominação —, para tomar decisões legítimas.
Devolver aos Césares, portanto, seu desejo de poder, sem deixar que dominem nossas consciências, é fazer escolhas de acordo com os fatos e com aquilo que a efígie de Deus em nós pede: vida, dignidade, justiça e direito.
B. O algoritmo
Também o algoritmo é um César de hoje. Por meio dele, somos continuamente vigiados quanto às nossas emoções, aos nossos gostos e aos nossos desejos. Como presta atenção ao que captura nossa atenção, o algoritmo pode continuar propondo aquilo que vem ao encontro das nossas expectativas, ideias e anseios de consumo. Isso cria uma espécie de embolhamento, uma câmara de eco em que acabamos recebendo apenas aquilo que emitimos.
O algoritmo nos controla e controla nosso foco, passando a nos oferecer aquilo que ele mesmo muitas vezes incutiu. Nesse sentido, as redes sociais são também ferramentas de controle e propaganda, vitrines em que os produtos não são apenas aqueles anunciados, mas os próprios usuários das redes. O ser humano é o produto que o algoritmo vende e revende às big techs e a quem as financia.
Devolver o que é de César, aqui, significa estar ciente desse projeto de controle e não ceder a ele, fazendo-lhe resistência. Ou significa deixar as redes e seus serviços manipulativos.
Também as inteligências artificiais vão tirando espaço do exercício da leitura, do pensamento e da reflexão. O mau uso delas relativiza a importância de certas profissões e acaba ameaçando aquilo que é propriamente humano. Embora sejam ferramentas, muitas vezes se dispensa a relação, o contato e o laço humano em favor da relação com as inteligências artificiais. Não se trata de diabolizar seu uso, mas de voltar ao humano, respeitando o tempo de cada coisa e podendo, inclusive, abraçar aquilo que nos faz gente: nossa fragilidade.
C. A economia
Quando a política, a religião e a moral — tudo — se baseiam no princípio econômico, a qualidade da vida humana fica ameaçada. Há os que detêm a economia e dominam os princípios e os efeitos de sua prática; há também aqueles a quem apenas sobram os restos.
Os grandes ricos são como césares do nosso tempo: os que manipulam a bolsa de valores, os que pensam apenas no próprio bolso; os que defendem uma economia exploratória, minando as qualidades do meio ambiente; ou os que defendem uma economia imperialista, que pretende estender seus braços para alcançar aquilo que lhes interessa. Essas práticas econômicas são verdadeiros Césares. São lógicas que pretendem inscrever-se em nosso modo de agir e viver por meio do consumismo, da competição acirrada e do neoliberalismo — que promete aos mais pobres um enriquecimento possível sem que seja necessária qualquer reforma ou justiça, a não ser o próprio empenho dos sujeitos.
Devolver a César o que é de César, nesse caso, implica escolher políticas mais abrangentes, que pensem nos mais pobres e no bem comum — ambos abandonados em nome do bem de poucos. Significa abandonar o consumismo e a lógica comercial que invadem até mesmo nossa relação com Deus.
Note bem: é difícil devolver a Deus o que é de Deus, mas absolutamente necessário. Além disso, outros inúmeros Césares podem ser identificados… o que o texto não permite, contudo, é uma saída conciliadora entre a cruz e a espada, entre a religião e a política, entre a Igreja e o Estado. A Cruz é sempre contra a espada; a religião sempre critica em relação à política e à Igreja, embora em diálogo com o Estado, jamais lhe deve sujeição, mas profecia.
Devolver a Deus o que é de Deus implica deixar todo e qualquer senhorio que pretenda, inclusive, usar Deus a seu bel prazer.
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