Evangelho DominicalVersículos Bíblicos
 
 
 
 
 

Homilia de Corpus Christi

Ler do Início
08.06.2026 | 7 minutos de leitura
Pe. Eduardo César Rodrigues Calil
Para celebrar
Homilia de Corpus Christi
Dentre as orações secretas que o padre ou o bispo fazem durante a oração eucarística encontramos uma delas, que é realizada diante das espécies do pão e do vinho já consagrados, feitos corpo e sangue de Cristo. Não suficientemente secreta para que alguém não a conheça, ela reza assim: “Senhor Jesus Cristo, o vosso Corpo e o vosso Sangue, que vou receber, não se tornem causa de juízo e condenação; mas, por vossa bondade, sejam proteção e remédio para minha vida”. 

Ao pedir que a eucaristia não se torne causa de juízo e condenação, perguntamos: de onde essa ideia vem? Ela procede justamente dos textos de Paulo, especificamente da carta aos Coríntios, quando o apóstolo adverte: “quem comer o pão ou beber o cálice do Senhor indignamente será réu do Corpo e do Sangue do Senhor” (1Cor 11,27), ou mais adiante: “quem come e bebe sem discernir o Corpo, come e bebe a própria condenação” (1 Cor 11, 29). Mas como o nosso uso das Sagradas Escrituras é viciado, muitas vezes manipulativo, convém saber que o contexto celebrativo dessas comunidades consistia numa refeição partilhada, comunitária, chamada ágape, que precedia a celebração eucarística. Contudo, os ricos comiam abundantemente, os pobres chegavam depois e passavam fome, havia humilhação dos mais necessitados e a comunidade estava, portanto, dividida. Assim, a celebração contradizia aquilo que a eucaristia significa na raiz: a comunhão, a comum-união no Corpo de Cristo. 

Para discernir o Corpo, Paulo ensina a reconhecer que o pão consagrado é verdadeiramente o Corpo do Senhor, para que ninguém se aproxime com desprezo e irreverência ou profanação. Mas não só: é relativamente fácil não profanar a eucaristia, mantendo reverência ao sacramento, mas difícil manter reverência ao sacramento do irmão. Mostra-se reverência ao sacramento, então, não quando se adota uma postura ou outra, quando se ajoelha ou não, quando se estende a mão ou a língua para receber o pão consagrado, mas quando há cuidado com todo aquele que se aproxima. Discernir o Corpo não é só adorar o Corpo sacramental, mas é não desprezar o irmão, não criar divisões, não humilhar os pobres, não romper a comunhão. Parece claro agora: quem por mais reverente que seja, se aproxima do corpo eucarístico com toda a piedade, mas ignora ou despreza o irmão, não comunga, senão indignamente. Comunga sem discernir o Corpo. É com santo Agostinho que sabemos não haver uma separação entre o Copo sacramental e o corpo real: comemos o corpo sacramental de Cristo para nos tornarmos o corpo real de Cristo, ou nas suas palavras: “Torna-te aquilo que comes”. Mais pragmática, porém, é a afirmação de Ambrósio que diz que comungar o Corpo de Cristo no altar exige reconhecer o Cristo nos pobres, pois ignorá-los seria uma contradição própria à comunhão que celebramos”. É isso que influenciará muito mais tarde a Igreja a dizer que a eucaristia é o sacramento da caridade, não só porque Deus é caridade, mas porque nos leva a sermos, pelo alimento salutar que comemos, mais caridosos. 

Entretanto, foi o concílio de Trento que torceu o sentido bíblico dizendo que comungar indignamente é comungar em pecado, sem buscar a reconciliação sacramental. Mas biblicamente, a Eucaristia não possui um poder destrutivo em si, nem condena por si mesma, mas torna-se condenação porque há aqueles que se aproximam dela contradizendo aquilo que ela é: comunhão com Cristo e os irmãos. Afinal, não amar os irmãos é ruptura profunda com o Cristo. 

Mas se é verdade que o modo que rezamos, estabelece o modo de crermos, não rezamos apenas que a comunhão não nos seja causa de juízo, mas também que ela seja proteção e remédio. Isso significa de saída que não se trata de um prêmio para os fortes. Afinal, se o próprio Cristo diz ter vindo para os doentes e que não são os que têm saúde os que precisam de médico... o mistério de seu corpo e seu sangue não poderiam também ser outra coisa que um remédio para os fracos. Se o papa Bento XVI dizia que o sacramento da eucaristia é sacramento da caridade, foi Francisco quem aprofundou mais o sentido: a comunhão não é prêmio para os fortes, mas remédio para os fracos. Um alimento para nos curar, portanto, das nossas divisões, da nossa indiferença, do desejo profundo que temos de devorar uns aos outros. 

Não comungamos, porque sejamos santos e irrepreensíveis, nem porque sejamos exemplares no amor caritativo, mas justamente para fortalecer a caridade e nos unirmos mais profundamente a Cristo, vivendo como ele viveu. Nesse sentido, a eucaristia cura progressivamente o coração, sendo um remédio para não morrer, como diria Santo Inácio de Antioquia. Para não morrer justamente da morte que é viver sem amar. Portanto, a eucaristia protege e remedia contra uma vida vivida longe da fraternidade, da caridade, longe da justiça, longe do amor; ou seja, longe de Cristo. Ela nos integra como membros de Jesus, para que como o alimento sustenta o corpo, Cristo sustente nossa vida toda ela. O alimento nutre, traz-nos as condições necessárias para viver; Cristo como alimento nutre a vida toda, e traz-nos as condições para viver e amar. Precisamos nos alimentar do sacramento do amor, para poder amar melhor. Por isso, fazem também sentido as palavras do papa Joao Paulo II, quando afirmava que não somos nós que trazemos Cristo para dentro de nós ao comungar, mas é ele quem nos leva para dentro de si; para vivermos dele, para nele nos movermos e para que tudo seja por Cristo, com Cristo e em Cristo. 

Mas talvez pudéssemos, arriscadamente, dizer que o modo de crer da Igreja deva ajudar nosso modo de rezar. Sim, a Eucaristia precisa ser um remédio também para a nossa devoção com a Eucaristia. A devoção, o Devocionismo – talvez seja melhor dizê-lo – muitas vezes transforma a eucaristia em prêmio, embaça seu sentido original de comunhão e faz dela motivo de divisões, vira uma espécie de alimento para os que se querem puros e juízes da vida alheia, além de esconder seu sentido último. A festa de hoje que também é remédio para a falta de fé na Eucaristia, nos ensina o que cremos: a eucaristia é memorial da paixão do Senhor, plenitude da graça e penhor da glória futura. Isso significa, entre outras palavras, que ela é cura no presente, fortaleza durante a caminhada e protege na esperança da vida eterna. 

Para terminar, lembremos que um dos principais ensinamentos da liturgia da palavra de hoje é a certeza que Deus alimenta e nutre as suas criaturas. Alimentou seu povo no deserto, tanto com a palavra quanto com o maná, que chovia do céu como pão para cada dia, como ensinava a primeira leitura. E Jesus, no evangelho, se mostra como alimento doado por Deus para a vida do mundo: sua vida, é isso que comemos! Sua entrega: é isso que bebemos! Para quê? Para viver como ele viveu, para nos darmos como ele se deu. Na segunda leitura, Paulo nos mostra que a eucaristia é vínculo de união com Jesus e entre os cristãos. Portanto, que esse alimento, o próprio Cristo, nos ajude sempre mais a assimilar a vida de Jesus, como quem a manduca; como quem a mastiga, como quem a engole, como quem a deglute, como quem a digere. Só assim, seremos aquilo que comemos, tomar-nos-emos aquilo mesmo que comungamos.
PUBLICIDADE
  •  
  •  
  •  
  •  
  •