Para fora (Jo 10, 1-10)
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27.04.2026 | 4 minutos de leitura
Para celebrar

A voz de Deus se fez ouvir muitas vezes através de seus mediadores, sejam os patriarcas ou os profetas. A Moisés, por exemplo, Deus se dirigia dizendo: fala a meu povo ou fala a este povo. Com certa distância ou não, era Moisés o mediador, o intercessor, a voz de Deus no meio do povo. Com os profetas não é raro encontrar a expressão: oráculo do Senhor. Expressão que põe os profetas como boca de Deus, diante do povo. A voz de Deus foi ouvida, portanto, através de pastores, juízes ou líderes populares, profetas; e agora é ouvida através do Filho de Deus, a Palavra encarnada.
A voz dá suporte, possibilita a palavra como acontecimento. Cristo é a Palavra acontecimento, sua voz é a de um belo e bom pastor. Ele não apenas diz a Palavra — ele é a Palavra que acontece na relação com quem o escuta. E quem escuta a sua voz, o conhece, o segue, se faz discípulo. A voz do pastor é discernida, reconhecida e a resposta a ela é um seguimento confiante. Não há conhecimento da voz, sem proximidade entre o pastor e as ovelhas. E quando há intimidade, amor, é possível ouvir a voz de quem se ama, até os seus detalhes e texturas, inclusive.
Jesus é o pastor que passa pela porta do redil; sem buscar subterfúgios. Ele mesmo é a porta; o modelo de pastoreio, portanto, e é por ele que se deve passar para compreender o que é, de fato, ser pastor!
Enquanto maus pastores não cuidaram e o rebanho se perdeu, enquanto mercenários evitaram a porta do cuidado, Jesus é a porta e também o pastor que passa por essa porta; as duas coisas! Os maus pastores usam as ovelhas: marcam, tangem, ferram, engordam e matam… Cristo não. Esse pastor conhece suas ovelhas pelo nome. Não as trata como uma massa aforme, um povo sem rosto, ou sem singularidades. Ele as conhece, as conduz e caminha a sua frente. E as ovelhas não são discípulos estúpidos, como bichos, mas conhecem também o pastor, e o seguem porque sua voz despertou algo neles.
E o pastor não conduz as ovelhas para um redil, para um espaço fechado, para um lugar institucionalizado, cercado de dependências e medos; não, ele chama as ovelhas pelo nome e as conduz para fora. Como aquele cego de nascença que voltou a enxergar e foi expulso pela religião de seu tempo, porque creu em Jesus— ele foi conduzido para fora. Jesus é o pastor conduz para fora da cegueira, para fora das estruturas mortíferas, para fora da religião que mata, usurpa e não cuida, não pastoreia, mas rouba— como os mercenários.
Jesus conduz para o espaço aberto, onde a esperança esquece a cerca; onde a vida encontra de novo pastagens, onde é possível outra liberdade. Convida a sair de espaços e compreensões que roubam, matam e destroem por mais seguras que sejam, por mais sagradas que pareçam. Em Cristo, a porta, e, por ele, é possível entrar e sair e encontrar pastagem.
Os que vieram antes dele, ou seja; antes dessa lógica do cuidado que ele estabelece, mesmo que sejam muito atuais, são ladrões e assaltantes, porque roubam e destroem a vida, dominando consciências, ludibriando e enganando, aterrizando pessoas, aproveitando-se do medo, manipulando culpas, mantendo tutelas… quantas vezes o pastor é o lobo?!
Cristo e os pastores, segundo o seu coração, que no fundo somos todos nós que passamos por essa porta, somos convidados a uma vida em abundância. A vida em abundância é a vida que superou essa tríade infernal: roubar, matar e destruir. É quando ajudamos o outro a encontrar vida, caminhando pra fora, inclusive dos cercados que apreciamos. É quando nós mesmos descobrimos aquilo que alimenta nossa vida e nos possibilita relança-la, sempre, enquanto ela nos é dada. É quando a gente redescobre que há vales sombrios, dentro da gente, sim, mas também os prados verdejantes e as águas repousantes. Que mesmo à vista do inimigo, esse que nós somos para nós mesmos, tantas vezes, há também a mesa preparada, o óleo da alegria e o cálice transbordante. E mesmo quando tudo parece faltar, há este Deus a continuamente nos chamar para fora dos cercados da ruína.
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