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Caminho, verdade e vida

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06.05.2026 | 5 minutos de leitura
Pe. Eduardo César Rodrigues Calil
Para celebrar
Caminho, verdade e vida
Ouvir de Jesus, essa frase: “Não se perturbe o vosso coração” é, no mínimo, desconcertante. Porque, se somos honestos, isso parece começar por um impossível. Não se perturbar?  Mas o coração humano se perturba o tempo todo. Ele é pequeno demais… e qualquer água turva que deságue nele já o turva inteiro.

Perturbamo-nos com a morte, com o amor, com o desamor, com o futuro, com aquilo que não controlamos, com aquilo que perdemos, com aquilo que nunca tivemos. A perturbação não é exceção. É muitas vezes, quase uma condição. Então talvez seja preciso começar respondendo a esse convite de Jesus, quase em forma de oração: “Senhor… não dá para não se perturbar.”

Mas Jesus não retira a palavra. Ele a sustenta. E imediatamente acrescenta: “Credes em Deus, crede também em mim.” Ou seja: não se tratava de convite a não sentir, mas de um convite a não se fundar na perturbação. A perturbação vem. Ela nos atravessa. Ela nos habita. Mas ela não precisa ser a última palavra.

Jesus diz isso na ceia. Diante de discípulos já tomados pelo medo. Eles pressentem a ruptura, pressentem a perda. Pressentem o vazio que se abre. E Jesus não moraliza o medo deles. Não os acusa, não os corrige com dureza. Ele os chama à fé. E fé, aqui, talvez seja simplesmente isso: dar um passo a mais. Um passo a mais… apesar de tudo. Apesar daquilo que não sabemos. Apesar do que não controlamos. Apesar do que nos escapa. Perseverar um pouco mais. Não permitir que a perturbação tenha a última palavra, mas fazer nascer, sobre ela, um depois.

E quem convida a dar o passo… oferece um caminho. Jesus diz: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida.” Mas não é um caminho pronto, porque não há caminho pronto. O caminho se faz com os caminhantes. E se faz no próprio caminhar. Ao dizer “eu sou o caminho,” Jesus se oferece não como um mapa ou como um sistema, mas como uma travessia viva. Ao dizer “eu sou a verdade” não se refere à verdade dos sistemas fechados ou à verdade das fórmulas, mas à verdade como fidelidade, como aquilo que permanece, quando tudo o mais se rompe. A verdade é o que fica depois que tudo se despedaçou. É a verdade produzida com a carne e com o sangue.  Ao dizer “eu sou a vida” ajuda a compreender que sua vida é uma vida que se deixa atravessar. Uma vida que não recua.

Uma vida que avança, mesmo sob o peso do real. Por isso, é na vida concreta dele que o caminho acontece, que a verdade se encarna, que a vida se abre. 

E todos nós sabemos que viver dá medo. Por isso os discípulos à mesa encarnam que o contrário da vida não é apenas morrer, mas recuar, fechar-se, enterrar a própria existência antes da hora. Mas para Jesus, o caminho de verdade para a vida, o único antídoto para o medo é arriscar viver.

Ir a Deus é possível de muitos modos, em muitas religiões, mas ir ao Pai, só é possível pelo Filho; experimentar o Pai, só é possível experimentando-se filho. E o fazemos porque há alguém que realizou em si o Caminho, a Verdade e a Vida. Sendo assim, não se trata de ir a qualquer Pai também; o modelo de pai do patriarcado pequeno-burguês não serve.  É ao Pai de Jesus que se deve aprender a ir. E foi pra isso que ele mesmo veio até nós, para que víssemos o Pai e realizássemos nesse caminho que ele realizou um encontro de amor com o seu Pai e nosso.

E então Ele diz algo ainda mais vertiginoso: “Quem me viu, viu o Pai.” Ninguém jamais viu Deus. O rosto de Deus sempre foi impossível de sustentar, sua face derrete as montanhas.  Mas, em Jesus, esse rosto se deixa ver. Deus se torna visível na transparência de uma vida humana.

Não como ideia. Não como conceito, mas como existência. Deus é aquilo que aparece no modo como Jesus vive, ama, atravessa, permanece. É, por isso, seguir Jesus não é imitar de fora. É permitir que a própria existência, pouco a pouco, também se torne travessia, também se torne fidelidade, verdade feita com a carne e com o sangue, e também se abra à vida.

No fundo, o Evangelho de hoje não nos pede um coração imperturbável. Não nos pede uma alma blindada. Pede isso sim, algo mais verdadeiro: um coração que continua. Que atravessa. Que ousa. Um coração que dá mais um passo. Porque, no fim, não é a ausência de perturbação que nos conduz ao Pai…, mas o caminho de perseverar com Cristo. O nome disso também, não é ressureição?

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