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Espírito da vida

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22.05.2026 | 4 minutos de leitura
Pe. Eduardo César Rodrigues Calil
Para celebrar
Espírito da vida
Cinquenta dias após a Páscoa, quando celebramos hoje, a festa da Efusão do Espírito Santo, somos reapresentados ao mesmo evangelho da Páscoa. Aquelas portas fechadas, os discípulos paralisados pelo medo, e então Jesus se põe no meio deles. Essa posição central é a posição que o Cristo deve ocupar em nossas comunidades: o centro de nossa ação evangelizadora e de nossa vida cristã. O Espírito que nós recebemos não nos permite esquecer jamais essa centralidade e nos ajuda a reconhecer o quanto sua experiência é fundamental, não só porque original, mas também porque originante. 

Depois, ele nos confere a paz, esse dom prenhe. A paz do ressuscitado está prenhe de restauração; é retorno à integridade, é recriadora das inteirezas. A raiz da palavra remonta à restauração de danos, à reconciliação, à abundância. A paz é quando o essencial não está quebrado. Quando os profetas falam de shalom, por exemplo, referem-se ao pobre que não é esmagado, à verdade que não foi corrompida, à terra que pode descansar, ao coração que não vive no exílio...  Os discípulos, por sua vez, estavam fragmentados pelo medo, arruinados na esperança, exilados da intimidade com Cristo, porque desesperaram com sua morte. Por isso, aqui, a paz é mais que ausência de guerra; é aquilo que refaz. O Espírito que nós recebemos é Espírito da Paz, porque ele integra e reintegra, reconcilia, dá nova vida, recria e reorganiza o que está desagregado. 

Depois Cristo mostra as mãos e o lado. Ele é o mesmo que foi crucificado. Suas mãos acolhedoras, estendidas em favor de muitos; mãos curadoras, libertadoras, crucificadas, são as mesmas; agora, ressurretas. Seu lado, seu coração, amante, compassivo, misericordioso e transpassado; agora, ressurreto. Ora, suas marcas são uma identidade transformada, são um mapa de sua história. O Espírito que nós recebemos leva-nos a essa vida, a do Cristo. Faz-nos aprender de suas mãos e de seu lado, o amor que é entrega e serviço. O Espírito é a memória criativa do Cristo. Memória porque nos recorda e ensina tudo; criativa, porque a vida do Cristo não está presa no passado, mas é sempre atualizada nas circunstâncias presentes graças a ação do Espírito. 

Jesus, então, confere mais uma vez a paz. Ela reintegra os discípulos agora eufóricos, por reconhecerem finalmente o mestre. E, quando Jesus os envia, será o Espírito a abrir as portas e janelas para que lufadas novas de ar entrem no lugar fechado. E ele dará, finalmente, nova força para movimentá-los e impulsioná-los a serem anunciadores do crucificado-ressuscitado. O Espírito é Espírito da missão.

Esse Espírito é um sopro de renovo. É o sopro que recria o humano. É a força vital criadora, capaz de reanimar e ser o entusiasmo diante dos desafios. O Espírito é entusiasmo, porque é a presença de Deus não só ao nosso lado, mas dentro. Afinal, foi assim que o Senhor Jesus apresentou o Espírito, no seu discurso de despedida, na última ceia: como aquele defensor junto e dentro de nós. Dentro em nós, Deus armou uma tenda; a tenda do seu Espírito. 

O Espírito que nós recebemos é dom do Ressuscitado. O dom dos dons, o doador de todos os dons e o movimento para que haja em nosso meio reconciliação e perdão, a fim de superar divisões e contendas que amesquinham a vida. Aos que o recebem, cabe perdoar como quem decide não reter, mas soltar; não prender, mas liberar; não segurar, mas desatar. Afinal, só assim, o perdão é uma força recriadora: quando regenera, em primeiro lugar, as fontes turvadas daquele que perdoa. E libera o perdoado para poder se refazer.

Portanto, quando falamos de Espírito e sua descida entre nós, estamos falando não de outra coisa senão do amor derramado em nossos corações por meio de Jesus. Mas também estamos falando desse amor como fonte criadora e restauradora, como paz, memória, criatividade, vida. O Espírito, afinal, não é o que se opõe à diferença, mas a cria; não é o que se opõe à matéria, mas é Espírito da vida. Não é o que se opõe a Cristo, de modo nenhum, criando aluados alienados; não. É o Espírito que nos convida a recordar, a trazer de novo ao coração o Cristo, como centro de nossas vidas e comunidades, como horizonte para o caminho. 
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