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A era da opinião e o terço da madrugada

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04.05.2026 | 12 minutos de leitura
Pe. Eduardo César Rodrigues Calil
Diversos
A era da opinião e o terço da madrugada
Falta interpretação de texto e sobra arrogância no catolicismo brasileiro. Também o catolicismo é vítima da guerra de discursos que se agudizou com a política e sua batalha entre esquerda vs. ultradireita. A dificuldade de leitura da realidade e interpretação, é claro, é resultado de um grande sistema que está em voga há muito tempo: empobrecimento da educação, esvaziamento da crítica, superexposição a telas, superexposição à informação apressada, desconfiança generalizada com a pesquisa técnico-científica (de vários setores), esfacelamento do sentido de comunitário, cinismo como traço existencial e preguiça mental (afinal, somos a sociedade do cansaço!).

Passamos da era da superinformação facilitada pela multiconexão, à era da opinião. A opinião rápida é também imprecisa. E nem tudo pode ser convertido a torcida de futebol, em que se é a favor ou contra, mas vem sendo. A realidade, entretanto, é mais complexa que isso. E, na era da opinião, há um fechamento em grupos que, como diria o sociólogo Zygmunt Baumann podemos chamar de câmaras de eco: graças ao algoritmo, parecemos nos relacionar só com os que emitem a mesma opinião que nós. Curtimos e compartilhamos coisas e passamos a receber só o que corrobora ou combina com aquilo que concordamos e isso se torna um ciclo no uso das redes e na vida social. O neurocientista Sidarta Ribeiro já dizia que “a realidade é mais complexa do que certo e errado, e só pode ser compreendida por intervenção de paralaxes, criada por múltiplos pontos de vista não excludentes entre si”. Ou seja: a realidade não está resolvida pelo maniqueísmo onde há o bem e seu contrário, o mal, simplesmente.  As opiniões têm ficado nesse duelo: elas não levam a síntese alguma, porque elas não são postas verdadeiramente em dialética, elas são apenas exibidas, ferramentas para o combate e, mesmo que se provem inválidas, se cristalizam como crenças. 

E a realidade piorou. Depois que se entendeu equivocadamente que a opinião podia ser o canal do gozo violento, da externalização dos achismos mal ponderados, para exibir-se como dono da verdade, irrepreensível moralmente, a opinião foi usada para atacar, para ferir e diminuir o “oponente”. Além disso, depois que a opinião se “aprimorou” com a tecnologia das fakenews, da desinformação, ou da informação precisa diluída, fragmentada em senso comum, há muitos opinadores que exercem influência com um discurso aparentemente correto, mas cheio de inverdades. A era da opinião é a era das quimeras intelectuais; há doutores para tudo, especializados em nada, às vezes bem formados em uma área, mas sem formação nenhuma em outras, mas o suficientemente falaciosos e arrogantes para defender opiniões em epistemologias que não são as suas, sem sequer dominar o vocabulário desses outros campos de saber. A era da opinião é a era da batalha das certezas, a guerra dos delirantes. Por isso é a era do adoecimento, do isolamento, do fechamento e do medo do outro. 

Com a religião não ficou diferente. Estamos vivendo a mesma batalha de opiniões, sem síntese; a fé também foi instrumentalizada politicamente na guerra das certezas, e certezas que possuem a mesma desinformação da sociedade, mas dependurada agora no varal dos significantes religiosos. Que esperar? Que o discurso religioso seja o lugar do exercício do gozo, e não do exercício da perda de gozo. Explico: Sigmund Freud diria que a religião opera a favor do mal-estar na modernidade, porque ela exige perder gozo. Claro, a vida em civilização exige perda de gozo; não dá para fazer, ser, ter tudo o que se quer, e isso é refreado pela lei. A religião trabalharia a favor da repressão. Assim parece ser com o grande continente de agressividade que há no homem, com o desejo de submeter e assenhorar o outro: isso ficaria reprimido pela religião da não vingança e do amor ao próximo e do perdão sem medidas. E o que está reprimido volta. O que expulsamos pela porta, retorna pela janela: essa parece ser a formulação freudiana. Parece ainda ser verdade que a religião trabalhe em prol da contenção das pulsões humanas, da repressão, mas isso não favorece elaboração ou sublimação nenhuma desse grande potencial agressivo que há no humano. Ao contrário, a repressão produz repetição e adoecimento. Contudo, a religião também pode oferecer contorno, experiências positivas e salutares, mas na era da opinião isso fica ameaçado cada vez mais. 

Na pós-modernidade a religião opera para um mal-estar diferente: ela não é perda de gozo, mas trabalha a favor dele. Mudando a frase de Lacan, diríamos: não é a religião que triunfa é o gozo. A religião a favor da prosperidade, do ganho. A favor do êxtase, da emoção, das intensidades; quanto mais emotivo, catártico, mais verdadeiro parece ser o culto. A religião convertida em coach: na luta por aprimoramento pessoal, em progresso material. A religião convertida em tecnologia do bem-estar: é preciso que todas as esferas da vida estejam bem resolvidas, inclusive a religiosa. A religião convertida em ferramenta de sucesso: um Deus gênio da lâmpada atendendo milagres. A religião convertida em meio para o self-made man do neoliberalismo: a religião, portanto, do mérito, da contabilidade, da dívida, do trabalho sobre si mesmo, a partir do escrúpulo, do puritanismo. Isso vem sendo preparado há muito tempo, e tem restos de outras épocas, mas se agudiza na pós-modernidade. A religião na era da opinião é o exercício de práticas piedosas, de algum conhecimento entendido como A-verdade-toda, criando uma biosfera em que existem os de dentro e os de fora, e onde, não raramente, os de fora passam a ser percebidos como ameaça. 

Quando falo religião há uma imprecisão aqui: há várias religiões. Estou me referindo diretamente ao cristianismo em suas versões católica e protestante e pensando na realidade brasileira.  Evidentemente, não se trata da totalidade dessas tradições, mas de certos ambientes religiosos fortemente marcados pela mediação digital, pela lógica de influência e pela polarização cultural. A realidade brasileira me parece bastante envenenada pela cultura do ódio, pela outrofobia, pelo preconceito e pela batalha narrativa feita de imprecisões e mentiras. Mas esse modo de ser religioso na era da opinião aparece em outras religiões também. 

Em parcelas significativas da realidade religiosa brasileira, o fanatismo e o fundamentalismo se ergueram como bandeiras de um reflorescimento religioso. No catolicismo, isso se manifesta, entre outros modos, na idealização de figuras públicas: religiosos que são alçados a referências quase absolutas e se tornam influenciadores e que, muitas vezes, são postos no lugar de santos, porque perfazem todo um imaginário sobre o que é santidade. Daí, já não importa tanto o que a Igreja diz, mas o que esses influenciadores dizem: eles passam a funcionar, para muitos, como critérios práticos de discernimento e passam a ter uma voz irrevogável que chega a “estabelecer” as normas, os critérios da salvação sem conseguirem em seus discursos de massa darem conta do caso-a-caso que até a moral católica exige para que não se converta num novo farisaísmo. Suas interpretações, suas visões de mundo podem ganhar um peso de verdade quase indiscutível e funcionam como uma espécie de mestria para muitos que desejam bem mais que orientação. Não é estranho, afinal, encontrar quem tenha verdadeiro desejo por sujeição, pelo senhorio de outros; os influenciadores muitas vezes entram nesse lugar e exploram-no.

A teologia consegue perceber, por exemplo, que, nos Evangelhos, Jesus cita com imprecisão a Escritura, embora sem erro para a salvação, mas esses ministros são vistos como inerrantes:  mesmo quando destoam da exegese e de hermenêutica mais amplas deixam de ser postos em questão, pois são sinônimo de verdade absoluta, para muitos de seus seguidores. Ademais, o poder pastoral se apresenta como mestria não só no catolicismo; no protestantismo também, mas ali a influência parece ser menos simbólica, muitas vezes mais descarada, ameaçadora e punitiva.  

Um exemplo claro, no catolicismo, certamente é o do frei Gilson, o fenômeno católico das madrugadas. Aqui não se trata de julgar sua intenção ou o valor espiritual de sua atuação. O que se oferece à crítica certamente é como sua figura pode ser idealizada por alguns, sendo colocada num lugar de autoridade quase absoluta. Alguns o tratam como santo em vida e, claro, em detrimento de outros tantos. Ora, a questão da santidade faz parte da teologia cristã e, a despeito do que julgam muitos dos novos convertidos, ou muitos dos influenciados da mídia católica, a salvação pertence irrevogavelmente a Cristo, não a nós. Isso o catecismo mesmo diz, afinal, não há ninguém que mereça a salvação senão pela graça de Deus que nos veio por Cristo, que é Cristo. 

O risco da idealização é também o de incorrer contra aquilo mesmo que a Escritura instrui: “não chameis a ninguém de mestre, pois um só é vosso Mestre... nem queirais ser chamados guias, porque um só é o vosso Guia” (Mt 23, 9-11). Toda idealização é perigosa, para o idealizado, em primeiro lugar, que é como todo ser humano e que, como diz Paulo, se está de pé deve tomar cuidado para não cair (Cf. 1 Cor 10,12). E é perigosa para os que idealizam, pois eles correm o grave risco de perder a centralidade da fé e abandonar o senso crítico. No caso do frei, por exemplo, há leituras bíblicas e posicionamentos morais e políticos em sua pregação que, segundo uma boa teologia, soam problemáticas e reducionistas, perigosas até, mas que dentro de determinadas bolhas, dificilmente são questionadas. 

Basta discordar da modalidade de oração do frei Gilson, por exemplo, para ser atacado por muitos de seus seguidores. Ora, rezar de madrugada e rezar o terço viraram por acaso dogmas de fé? Viraram necessidades católicas para a salvação? Não falta quem venha confessar, porque não rezou o terço da madrugada, ou porque dormiu durante a reza; mas como pode isso ser pecado, mesmo não sendo uma exigência da Igreja (não é um de seus mandamentos, por exemplo. Ou seja: o terço é muitas vezes tratado, nesses casos, como se fosse uma exigência da piedade, uma obrigação). É possível rezar o terço em qualquer horário, mas com esse horário penitencial, parece haver uma certa compreensão de que Deus fica mais feliz quando há mais sacrifício (é uma ironia, para os desavisados). Mas Deus, por acaso, se compraz com a exaustão e com nosso cansaço, com noites mal dormidas e madrugadas insones? Não o Deus que não quer sacrifícios (Cf. Mt 9,13).  O horário da reza certamente deve levar em consideração que há gente que vai trabalhar depois, bem cedinho; pode ser uma falta de caridade enorme para muitos trabalhadores brasileiros condicioná-los a rezar de madrugada, como se essa piedade tivesse sentido, só se feita a essa hora. Já dizia Santo Inácio de Loyola, em outra ocasião, que, para rezar bem é preciso, pelo menos, ter dormido bem e comido bem. Para explicar bem: não está em questão a legitimidade espiritual do terço, nem o valor de quem encontra nessa prática um caminho autêntico de relação com Deus. A crítica aqui não recai sobre a prática devocional, mas sobre sua transformação em critério identitário, moral e até salvífico e, não raras vezes, numa superstição, um ato mágico que depserta os favores divinos, quando não o seu desagrado – se não realizado. 

Também que seja dito: o terço não é a única modalidade de oração cristã, mas é uma piedade entre tantas. E não é necessário para a salvação. Vamos ao catecismo que tantos católicos usam: “A justificação nos foi merecida pela Paixão de Cristo” (§1996 ) e isso deve redundar numa vida de caridade. Rezar o terço e não ter caridade, não adianta de nada. Portanto, não é o terço que salva. Além disso, o que dizer dos muitos outros modos de rezar: a leitura orante da Bíblia, o silêncio contemplativo, a meditação católica (de estilo hesicaste), a própria liturgia (maior oração da Igreja)? Elas não têm relevância? Só tem espiritualidade profunda quem reza o terço como frei Gilson?

Ora, a era da opinião incrementa uma modalidade de catolicismo adoentado, reduzido ao moralismo, ao pietismo, à oração como penitência e não como encontro com Deus. A oração pode ser reduzida a uma prática voltada ao ganho, quando vira um jeito de conseguir alguma graça, e somente isso. Vira um exercício disciplinar, uma atividade para o automelhoramento, para a salvação da própria alma; um mecanismo de produção de mérito espiritual. Ela deixa de ser a celebração de um encontro transformador que desemboca na caridade. O que surge, ao invés desse encontro, com esse tipo de oração, é um grupo fechado: reza-se e passa-se a pensar dentro de uma mesma lógica, geralmente compartilhada com o influenciador. Suas opiniões cristalizam e arregimentam as opiniões do grupo. Suas visões de mundo e sua compreensão de Deus são compartilhadas como absolutas. Muitos passam a viver sob a culpa e o medo (ou do inferno, ou da condenação), graças ao uso da lei religiosa em termos farisaicos: quando a lei posta acima da vida. Reza-se e se constitui com o terço da madrugada, não raramente, um grupo fechado, coeso, marcado por traços do fanatismo e do fundamentalismo. A oração pode muitas vezes ser o ambiente para o fechamento e o discurso de ódio, o que contradiz seus termos, na raiz. 

Contudo, nem a fé ou a espiritualidade; nem a esperança de salvação ou a santidade; nem a experiência religiosa ou a piedade podem ser reduzidas a um marcador devocional específico, como rezar o terço, e ainda de madrugada. Também não podem ser reduzidas a um ministro ordenado exclusivo, seja ele quem for, ou essa redução, e também aquela, poderá ser acusada, sem dúvida, de idolatria.

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