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Como as águas de um rio

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03.04.2026 | 5 minutos de leitura
Pe. Eduardo César Rodrigues Calil
Para celebrar
Como as águas de um rio
Como as águas bravias de uma cascata, águas violentas arrebentando contra as pedras, levantando as brumas fortes em sua queda, assim foi esta semana santa para nós, derradeira para Jesus. A traição, a negação do amigo, o abandono, o esmagamento… as águas da morte.

Os discípulos não viram os céus se abrirem e as legiões de anjos virem em defesa do Mestre. E sua autoridade que fez mudos falarem, surdos ouvirem, cegos verem, aleijados andarem, mortos ressuscitarem parecia ter falhado e ficado deficiente da ajuda do Pai, que sempre o escutara. Eram os sonhos caindo como embarcações cascata abaixo, arrebentando contra as pedras, deixando apenas as ruínas. Jesus frustrou as esperanças messiânicas que o quiseram rei, poderoso, triunfante. Ele fora esmagado pela roda da religião, que ele tentou girar. A mesma se voltou contra ele, triturando-o. Mas eles não sabiam a força de uma vida doada; e, porque doada, jamais tirada. É nesse amor que está toda sua glória. 

E agora, quando depois da queda d’água violenta a água adormece de novo em seu leito e se abranda como rio, Maria Madalena faz o curso até o túmulo, ela mesma sepultada, ela mesma morta. Afinal, o que morre quando alguém que tanto amamos morre? Que é que depositamos no túmulo? Madalena segue o leito até a pedra onde tudo parece ser a ruína de um sonho, um amor para sempre perdido. E se toda a vida, e se o coração inteiro fica trancado atrás da pedra do túmulo, o que resta de fora? Mas essa pedra não é tão forte para cortar o fluxo da fonte. Não dessa fonte. Ela não é tão forte contra a força do fluxo do amor. Foi esse mesmo amor que fez Maria caminhar até aqui e, por isso, ela é figura de toda a humanidade ferida, mas que ainda caminha à procura do Senhor, embora presa ainda à lógica do túmulo. No amanhecer do domingo, ainda esperando alguma manhã para sua própria noite, vai Madalena, esperando que amanhecesse alguma vida, dentro dela. E foi esse filete de esperança que viu um túmulo aberto. 

A pedra havia sido retirada. Por quem? — é a grave pergunta. 

Na ressurreição de Lázaro, Jesus tinha tido: “tirai a pedra”. Mas agora a pedra havia sido tirada. E todo o esforço do luto, da esperança, da ressurreição se revela: O que pusemos no túmulo? Será o amor com que amamos quem se foi? Serão as memórias que são sempre maiores que o desfecho de uma vida? Serão as palavras, essas fontes que minam água, que são como leito de rio alimentando a vida, para sempre? Os gestos, os sorrisos, os olhares, as lágrimas, a vida com tudo o que ela é ficou presa atrás da pedra, dentro dos túmulos? A pedra havia sido retirada por Deus, autor da ressureição. A pedra tinha sido retirada, e então a vida e o coração não estavam lá dentro do túmulo. A pedra da morte também é retirada por nós ou trancamos toda a beleza da vida atrás dela? Será preciso redescobrir onde o colocamos: O Senhor, onde foi que o colocamos? E refazer o percurso do rio… 

Pedro e o Discípulo Amado vão correndo ao túmulo, distraídos pelo medo de um último ultraje; apressados, mas sem nada compreender, afinal, os lugares em que experimentamos qualquer ruína parecem nos distrair longamente. Essas pedras com que costumamos fechar nossos sonhos mais lindos; acreditamos que elas têm força contra a fonte da vida e nos deixamos seduzir, para sempre, pelo limite que elas representam… Pedro e o Discípulo Amado correm, mas cada um tem seu tempo. Cada um terá que, à sua maneira, compreender que a morte jamais poderá ser uma barragem para a força da água que é Jesus. Jamais poderá ser um poço para a força do amor, que insiste em brotar como fonte de água viva. 

E, ao verem as faixas no chão e o pano que tinha estado sobre a cabeça de Jesus, um dia compreenderão que a vida do mestre é como um rio de vida, que uma vez o profeta Ezequiel prenunciou: “Estas águas correm para a região oriental, descem para o vale do Jordão, desembocam nas águas salgadas do mar, e elas se tornarão saudáveis. 9Aonde o rio chegar, todos os animais que ali se movem poderão viver. Haverá peixes em quantidade, pois ali desembocam as águas que trazem saúde; e haverá vida aonde chegar o rio. 12Nas margens junto ao rio, de ambos os lados, crescerá toda espécie de árvores frutíferas; suas folhas não murcharão e seus frutos jamais se acabarão: cada mês darão novos frutos, pois as águas que banham as árvores saem do santuário. Seus frutos servirão de alimento e suas folhas serão remédio (Ez 47,9.12)

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