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Deixai-o ir!

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23.03.2026 | 7 minutos de leitura
Pe. Eduardo César Rodrigues Calil
Para celebrar
Deixai-o ir!
Nossa caminhada quaresmal levou-nos ao deserto para, ali, junto com Jesus, o humano fiel, vencermos as tentações. Levou-nos ao alto da montanha para nos colocarmos, finalmente, quem sabe, à escuta do Filho amado de Deus. Levou-nos ao poço de Jacó para descobrirmos a fonte que brota de dentro de nós, o Espírito do amor. Depois, à piscina de Siloé, para abrirmos os olhos, mesmo quando muitos insistem nas cegueiras. Agora nossa caminhada nos leva a Betânia, para descobrirmos com o último sinal de Jesus, que ele é a Ressurreição e a Vida.

Da comunidade de Betânia uma notícia ruim viaja até os ouvidos de Jesus: “aquele que amas, está doente”. É Lázaro, seu amigo. O que se pode esperar de Jesus que curou tantos à distância? Que basta uma ordem, para que Lázaro fique curado! Ou que ele vá ao encontro de suas amigas Marta e Maria, para finalmente atender ao pedido desesperado das irmãs, já que elas têm plena confiança nele– o suficiente para mandar chamá-lo.

Mas Jesus não vai até Lázaro nem lhe cura à distância, e os discípulos, que não querem voltar a Judeia pois lá o mestre está jurado de ser apedrejado, sequer o questionam, a não ser quando ele finalmente diz, depois de dois dias no lugar onde estava: “Vamos!”. Por que tardou? Por que não está pressionado pelo pedido das amigas, pela situação do amigo que sofre? Apenas disse que a glória do Filho de Deus se manifestaria. O que é que ele sabe que ninguém mais sabe? Aparentemente, algo ambíguo: que Lázaro dorme e que ele vai acordá-lo. Mas Jesus está dizendo que Lázaro está realmente morto e há quatro dias está no túmulo. Dizer que alguém está no túmulo há quatro dias é afirmar que é tarde demais, que não há esperança, que o morto já está em decomposição, pois é o terceiro dia o tempo da ação de Deus.

Mesmo as irmãs de Lázaro sabem que é tarde demais. Marta é a primeira a dizer: “Senhor, se estivesses estado aqui, não teria morrido o irmão meu”. Mas também sabe que se Eliseu foi capaz, certa vez, de ressuscitar o filho da Sunamita, também Jesus pode fazer algo de extraordinário naquele momento. O que ela não sabe é que Jesus doa aos vivos uma vida que é capaz de superar a morte. Por isso ele não diz: ressuscitarei teu irmão, mas lhe diz: “ressuscitará o irmão teu”. E essa ressureição é efeito da persistência, no discípulo, da vida definitiva comunicada pelo Espírito. Mas Marta, desiludida, acha que Jesus está falando da ressurreição no último dia. 
Entretanto, Jesus é a Ressurreição e a Vida e, portanto, essa condição não é futura, mas presente. Sendo ele a vida, ele a veio comunicar e para aqueles que estão diante da destruição física de Lázaro, Jesus assegura que o discípulo vive, porque aderiu ao seu projeto, porque creu nele: “Quem crê em mim, ainda que morto, viverá!”. Ou seja: a todos que lhe dão adesão, Jesus comunica o seu Espírito, a sua vida mesma, que a morte não pode ameaçar ou encerrar: “todo aquele que vive e crê em mim, jamais morrerá”. Jesus não nos promete uma vida eterna, mas diz que quem o segue já experimenta uma vida que é e que será para sempre. Uma vida que desde já é marcada por esse Espírito atravessa a morte; e mesmo a morte perde seu aguilhão, é um sono apenas. Essa marca da Ressurreição, de que todos nós nos beneficiaremos por causa de Jesus, o evangelho já antecipa com Lázaro, dizendo-nos: mesmo a morte, que parece tão forte, é capítulo na narrativa da vida, não o episódio final. É passagem, não derradeiro instante. Quem em Cristo crê, mesmo que morra, vivo está.

Marta que dizia: “eu sei que haverá ressurreição no último dia”, agora já não sabe, mas crê. E crê em Jesus, o Messias, o filho de Deus, aquele que deve vir ao mundo.

Mas é a vez de Maria deixar para trás a tristeza: “Senhor, se tivesses estado aqui, meu irmão não teria morrido”. As palavras repetidas de Maria, as mesmas de sua irmã, mostram uma reprovação à aparente ausência de Jesus. Reprovação que repetimos quando também nós experimentamos o luto; nesses momentos tão dolorosos é difícil não crer que a morte venceu. E do mesmo modo como nossas palavras são insuficientes, Jesus não responde nada ao luto de Maria. Ora, palavras não são o bastante, mas sim experiências vitais.

E então Jesus pergunta: “Onde o colocastes?” Jesus está perguntando por Lázaro. Onde colocaram o irmão, as irmãs que estão envesgadas pela tristeza? Onde o colocaram, elas que estão dentro de um luto que ata, amarra, prende, sufoca? Onde o puseram, já que o amavam, e ele era também o coração do coração de uma comunidade? Mas todos pensam que Jesus estava falando do morto, que eles colocaram no sepulcro, já sem qualquer esperança.

“Tirai a pedra!”, ele ordena. E não se associa à tarefa, pois ele é a vida que chama, conclama; os que o escutam precisam deixar ir o morto. Marta se opõe, pois ela é irmã do morto. Jesus quer que ela seja a irmã de Lázaro, o vivo. Atados ao morto, estão também atados à morte e, portanto, estão impossibilitados de perceber que Lázaro não pode morrer, pois vive em Deus, e sua vida é eterna, porque ele é discípulo de Jesus. Acaso Jesus não havia dito que todos os que aderem a ele não morrerão jamais? Não disse que ninguém arrancará os seus de sua mão?

Jesus convida Marta a uma fé que verá a glória de Deus. Essa glória é exatamente a vida indestrutível que ele confere. A fé é o que permite ver. Só ela tira as escamas da morte dos olhos.

Ao tirarem a pedra, Jesus grita: “Lázaro, vem para fora!”. Jesus chama Lázaro, o vivo, por quê, se ele não pode morrer? Porque o colocaram inapropriadamente lá, dentro do túmulo. Jesus chama Lázaro, mas saiu o morto. Lázaro que, como discípulo escutou a voz do Filho de Deus, está vivo, está na plenitude do amor do Pai. Quando o morto sai amarrado por bandagens nas mãos e nos pés, jeito desconhecido de se sepultar alguém para os judeus, reconhecemos que, na verdade, o morto foi amarrado como um prisioneiro: prisioneiro da desesperança, capturado pela morte. E Jesus ordena: “desamarrai-o e deixai-o ir”. Notem como Jesus não o restitui às irmãs ou à comunidade: o morto precisa ir.  Deixai-o ir. O morto deve ir embora, para que as irmãs experimentem Lázaro vivo. Enquanto elas choravam Lázaro como morto, não podiam experimentá-lo como vivente.

É na vida de Jesus e em Jesus que podemos, então, finalmente, experimentar uma vida que não pode ser ameaçada, mesmo que os filhos das trevas queiram apagar a luz. Mesmo que planejem matar Jesus e até mesmo Lázaro outra vez. A ação de Deus atravessa noite que os filhos das trevas perpetram, para que a Vida tenha a palavra final. Essa é esperança que tira as escamas dos nossos olhos e permite liberar a nossa vida tantas vezes amarrada e atada, nas mãos e nos pés, pelo medo. Se a comunidade igreja puder ajudar a desamarrar o que está morto e deixa-lo ir, partir, para que a vida apareça, teremos começado a ressurreição, antes mesmo da morte.
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