Filho do Deus Vivo
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27.03.2026 | 5 minutos de leitura
Para celebrar

A doutrina dos escribas e fariseus, contaminada pelo desejo de punição às gentes pagãs, esperava um messias que viesse realizar a vingança entre os povos e dar a vitória aos judeus. Também a multidão que acolhe Jesus em Jerusalém, clamando “Hosana, Filho de Davi” mostra-nos que eles são incapazes de ver Jesus como o Filho do Deus vivo. As expectativas messiânicas que cercam Jesus são a de alguém que tenha Davi por modelo de liberador e rei. Contudo, não nos cansamos de ver o quanto esse rei era ambíguo, chegando muitas vezes a uma série de assassinatos para livrar-se de todo aquele que pudesse representar obstáculo ao trono, como testemunha o livro de Samuel (1Sm 27,9.11).
É de Deus mesmo que ouviremos uma reprovação que mostra as feições sanguinolentas de Davi: “Tu não construirás o templo em meu nome, porque derramaste muito sangue na terra à minha frente” (1Cr 22,8; 28,3). Ou podemos ler no livro de Samuel: “A espada nunca se afastará de tua casa” (2Sm 12,10). Ora, era esse o libertador esperado pelo povo: alguém que, com violência, restaurasse a monarquia e o Reino de Israel e, assim, fizesse Israel dominar sobre todas as nações e subjugar todos povos pagãos. Não parece, portanto, que a tentação de possuir todos os reinos da terra apareça só vinda de Satanás, mas do próprio povo que se acreditava único povo eleito.
Mas Jesus faz de tudo para mostrar-se como um libertador não violento. Depois de entrar aclamado em Jerusalém, tendo chegado ao monte das oliveiras, pede aos discípulos que desamarrem uma “jumenta e, com ela, um jumentinho”. Isso faz lembrar o que uma vez Jacó profetizou quando abençoou seus doze filhos e fez de Judá cabeça de seus irmãos: “O cetro não se arredará de Judá até que venha aquele ao qual pertence e ao qual a obediência dos povos é devida. Ele amarrará sua jumenta à videira, e o jumentinho à videira melhor” (Gn 49,1012). Portanto, Jesus é esse que chegou. Também se realiza aí a profecia de Zacarias que dizia: “Exulta muito, ó filha de Sião, grita de alegria, ó filha de Jerusalém; o teu rei vem a ti; ele é justo e vitorioso, humilde, nos lombos de um asno, num jumento, cria de jumenta” (Zc 9,9). Mas é impossível não notar as diferenças que Mateus introduz.
Jerusalém é cidade que assassina profetas e, portanto, ela não grita de alegria. Antes, ela é apenas informada: “Dizei à filha de Sião”... O Rei de Zacarias é introduzido como justo e vitorioso. Mateus não usa esses termos, porque o justo é aquele que observa criteriosa e perfeitamente a Lei, e o evangelista já tratou de mostrar o justo José, esposo de Maria, não como observante da letra da Lei. Ele já deixou claro que Jesus, muitas vezes, transgride a Lei, para levá-la à plenitude. Também não é vitorioso, aos moldes do que se imaginava: ele não veio para cumprir as esperanças da restauração da monarquia. Essa teologia do domínio cai por terra.
Jesus não veio reinstaurar o Reino de Israel, mas inaugurar o Reino de Deus. Não é um rei cumpridor da Lei e que vai julgar e punir aqueles que a transgridem. Ele é o enviado por um Deus que a todos, bons e maus, faz brilhar o sol e faz cair a chuva de seu amor. E em vez de uma montaria real, ele monta um meio de transporte de pessoas comuns. E até Zacarias, em sua profecia, já o sabia: o messias fará desaparecer os carros de Efraim e os cavalos de Jerusalém e o arco de guerra será quebrado. É um messias da paz, portanto.
Ao colocar seus mantos na jumenta e no jumentinho, os discípulos demonstram identificação com a missão de Cristo. O contraste vem da multidão, que, ao estender ramos na estrada ou os próprios mantos pelo caminho, sinalizam submissão ao Messias poderoso, que punham a vida sob o domínio desse Rei poderoso, com o qual identificavam Jeus. Afinal, os ramos lembram a festa das Cabanas, festa judaica importante, quando se produziam ramalhetes feitos de palma e se cantavam Hosanas, que quer dizer: “Salvai-nos, por favor”. Essa expressão manifestava a espera da manifestação do libertador de Israel. O que esse povo quer é triunfo e sucesso, como o tentador.
A cidade fica abalada com a entrada de Jesus, que se assemelha, nos termos do evangelho, a um terremoto. Essa cidade não só não reconhece o Deus conosco, mas seus planos ficam abalados. O povo não queria ser libertado, queria passar de um domínio pagão a um domínio judaico: o que muda no fim é quem domina, não o domínio. Quando se fala de um Cristo que liberta do domínio, seja do que for, isso é como um terremoto que provoca medo e parece inaceitável. E quando os habitantes de Jerusalém perguntam sobre a identidade de Jesus, as multidões só conseguem dizer que é galileu, e, vindo da Galileia, terra dos revoltosos, parecerá satisfazer essa expectativa de revolução que eles tanto aguardam, para não mudar nada. Jesus vai lhes frustrar, totalmente.
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