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220. Quarto domingo do Advento

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22.12.2025 | 5 minutos de leitura
Pe. Eduardo César Rodrigues Calil
Diversos
220. Quarto domingo do Advento
O Advento não é uma preparação sentimental para o Natal. A essa altura a gente já sabe que é um tempo de esperança, mas talvez devêssemos acrescentar: é também um tempo de crise da espera; ou porque há demora, ou porque o que vem não está de acordo com nossas previsões, com nossos preconceitos, e até mesmo não se adequa, não se identifica aos nossos ideais.  A crise da espera é uma depuração da esperança. Também o evangelho desse domingo nos põe diante de uma crise. Não mais a de João Batista, mas a de José. 

Maria aparece grávida. Antes de qualquer espiritualização, o texto nos coloca diante de um fato socialmente escandaloso. Para a comunidade de Mateus, isso não é detalhe: é o ponto onde a promessa entra em choque com a ordem estabelecida, afinal, o Messias era aguardado, mas era esperado que nascesse segundo os conformes, vindo da vontade do varão. Mas Maria está grávida, enquanto ainda é apenas uma jovem prometida, antes das núpcias. O texto não suaviza o impacto: o que vai nascer dela não vem da vontade do macho, da carne e do sangue. 

José, por sua vez, é apresentado como justo. Não no sentido de rigor moral, mas de fidelidade à Lei entendida como busca da vontade de Deus. No sentido estrito, a justiça da lei seria conveniente para manter sua honra diante da esposa grávida, antes da hora: entregaria a mulher, que seria apedrejada por adultério. Os linchamentos públicos agradam a fome de violência ontem e hoje; fazem os “juízes” de outrora e de agora se sentirem santos e irrepreensíveis enquanto condenam outros. Mas a decisão de José não é punir, mas conter o dano. 

Ele pensa em repudiar Maria em segredo, tentando salvar sua vida e dignidade. Para a lei existe um problema que se resolve com a morte, para José a lei não deve ser aplicada até o fim, contra a vida. Deus, assim deve pensar José, não age de modo legível, conforme uma lei que pede morte, mas sua justiça é promover a vida. Antes de Jesus, José já conhece o evangelho do Filho.

Sua justiça é crise de um sistema legalista e mesmo na incompreensão, não passa à violência. Ele se recusa ao caminho da violência como sanativo. Há cristãos, que não aprenderam nada com isso. Que querem colocar o mundo sob suas formas de justiça, com a bílis na garganta e cravando o punhal nas costas do irmão. 

Nessa noite de crise, aparentemente sem respostas, Deus, então, fala; não em praça pública, não no tribunal ou no templo, mas nesse território frágil onde os controles adormecem e desejos íntimos aparecem: no sonho. Em Mateus, o sonho é lugar de revelação porque ali o ser humano já não controla a narrativa. José, pai de Jesus, tem aqui um “parentesco” com o grande patriarca José, cujos sonhos eram reveladores dos caminhos de Deus.

O anjo, no sonho, começa com uma palavra essencial para este tempo litúrgico: “Não temas.” O medo é o grande inimigo da espera. Ele nos empurra para decisões apressadas, defensivas, fechadas. A crise da espera ajuda a depurar, e ainda movimenta. O medo, pelo contrário, paralisa. Às vezes, o medo até produz decisões corretas, mas quase sempre infieis ao Evangelho.

E a explicação do anjo não é técnica, é teológica: a origem da criança é o Espírito. Ou seja, o que está acontecendo ultrapassa os esquemas humanos. Advento é isso: aprender a reconhecer que Deus age ultrapassando nossos cronogramas, nossos programas. Onde muitas vezes vemos apenas o risco, Deus trabalha o futuro. 

José recebe então uma missão decisiva: dar o nome. Nomear, na Bíblia, é assumir responsabilidade histórica. Ele acolhe o Filho e, com isso, acolhe uma promessa que exige confiança antes de oferecer garantias. E porque o faz, também merece ser chamado de discípulo fiel. 

 O nome “Jesus” anuncia a salvação. O nome “Emanuel” revela o método: Deus salva estando conosco, não removendo a fragilidade, mas habitando-a.

O texto termina sem palavras, apenas com obediência. Com a escuta fiel desse discípulo que acorda e faz o que o anjo lhe ordenara. Não é o programa desse tempo do advento que encerra neste fim de semana: acordar e sonhar os sonhos de Deus?

O Advento não prepara apenas o nascimento de Jesus. Prepara em nós o espaço onde Deus pode habitar. Que aprendamos com José a vigiar sem medo, a esperar sem endurecer, e a obedecer mesmo quando a promessa ainda dorme no escuro. 

Porque Deus continua vindo assim: antes da luz, antes da certeza, antes do entendimento —muitas vezes dentro da noite escura das nossas dúvidas. Mas nunca fora ou longe da fé. Afinal, Deus entra na história não pelo controle, mas pela porta da confiança.
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