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219. Evangelho para viver

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11.12.2025 | 7 minutos de leitura
Yuri Lamounier Mombrini Lira
Diversos
219. Evangelho para viver
  • Como lembra o apóstolo Paulo: “O amor de Cristo nos impele” (2Cor 5,14). Algumas traduções da Bíblia utilizam nesse versículo o verbo “constranger” no lugar do verbo “impelir”. Aparentemente, esses dois verbos são contraditórios, mas não é bem assim. O amor de Cristo nos deixa envergonhados ou constrangidos, porque percebemos que não somos capazes de amar como Ele amou, tão grande é seu amor por nós: amor incondicional, desmedido. Por outro lado, o amor de Cristo também nos impele, isto é, nos impulsiona, nos ajuda a avançar e a progredir. Compreendemos que, apesar de nossas limitações, somos chamados a amar com a mesma intensidade que Jesus. E é o próprio amor de Cristo que nos impulsiona a trilhar este caminho. O amor de Cristo nos ensina como amar e nos dá forças para amar também.

  • Chiara Luce dizia: “Assim como foi fácil para mim aprender o alfabeto, deve ser também viver o Evangelho”1. Sabemos que para aprender o alfabeto não se leva muito tempo, mas para aprender o evangelho de Cristo pode se levar uma vida inteira. Aprender o evangelho é mais que guardar de cor os trechos narrados pelos evangelistas; é vivê-lo em nosso cotidiano. Contemplando a vida e os ensinamentos de Jesus, podemos refletir sobre a nossa vida e repensar as nossas atitudes e podemos nos perguntar: “O que ainda precisamos aprender do evangelho? Como posso viver ainda mais autenticamente os ensinamentos de Jesus?”.

Jesus ensinou não só através de palavras, mas principalmente através de gestos. Ensinou que a vida só tem sentido se tiver amor. De todos os seus ensinamentos, o amor é o que tem primazia, o mais importante, o mais urgente. Nosso Mestre disse: “Este é o meu mandamento: que vos ameis uns aos outros, assim como eu vos amei. Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida por seus amigos” (Jo 15,12-13). 


  • Amar contempla perdoar. Por isso, Jesus insistiu muito no valor do perdão. Um dia, Pedro lhe perguntou quantas vezes era preciso perdoar o irmão. Será que bastaria perdoar sete vezes? Sete indica perfeição. Perdoar sete vezes já parecia suficiente. Jesus, porém, lhe respondeu: “Digo-te, não até sete vezes, mas até setenta vezes sete” (Mt 18,21-22). Nosso Mestre nos mostra que é preciso perdoar quantas vezes for preciso. 

  • Para perdoar é preciso ser humilde e reconhecer as próprias fraquezas. Só quem reconhece suas limitações pode ter paciência com a limitação dos outros. Daí a importância da humildade. Uma virtude mais que necessária para a boa convivência e para a nossa saúde mental. O evangelista Marcos escreveu: “Se alguém quiser ser o primeiro, seja o último de todos, o servo de todos” (Mc 9,35). Ser o último não por desprezo a si mesmo ou por falta de autoestima. Mas ser o último como aquele que reconhece o rosto do outro que o interpela; como aquele que não arroga para si a melhor parte, mas sabe que todos são dignos e têm direito à vida plena. Jesus nos ensina a não julgarmos e a sermos mais misericordiosos: “Sede misericordiosos como vosso Pai é misericordioso. Não julgueis e não sereis julgados; não condeneis e não sereis condenados; perdoai e sereis perdoados” (Lc 6,36-37).

  • A humildade é prima da simplicidade, virtude também exaltada por Jesus: “Eu te louvo, Pai, Senhor do Céu e da Terra, porque escondestes estas coisas aos sábios e entendidos e as revelastes aos pequeninos” (Mt 11,25). 

  • A simplicidade de coração nos leva a confiarmos em Deus: “Não se perturbe o vosso coração. Credes em Deus, crede em mim também” (Jo 14,1). Se confiamos Nele, não precisamos temer as tempestades da vida: “Coragem! Não tenhais medo!” (Mc 6, 50), foi o que Ele disse a seus discípulos quando o mar estava revolto.

  • Poderíamos recordar ainda muitos outros ensinamentos de Jesus, todos eles muito importantes. Mas listando apenas alguns aqui, podemos refletir sobre o quanto ainda precisamos aprender do evangelho. Chiara Luce, escreveu em 1985: 

                                            • Redescobri o Evangelho sob uma nova luz. Entendi que eu não era uma cristã autêntica, porque não vivia o Evangelho profundamente. Agora, quero fazer desse magnífico livro o meu único objetivo de vida. Não quero e não posso permanecer analfabeta de uma mensagem tão extraordinária como essa. Assim como foi fácil para mim aprender o alfabeto, deve ser também viver o Evangelho2.  


  • Do mesmo modo que Chiara Luce se deixou iluminar pelo evangelho de Cristo, nós também temos a oportunidade de redescobrir os seus ensinamentos e de nos colocar no seu discipulado. Nós também não queremos e não podemos permanecer analfabetos do evangelho de Jesus. Queremos assumir o compromisso de procurar conhecer mais e melhor a Jesus Cristo e a sua Palavra. Daí a importância de ler os Evangelhos diariamente, meditá-los e transformá-los em nossas palavras e gestos. É claro que teremos dificuldades, mas o próprio Jesus com seu amor nos impele.

  • O jesuíta Willian Barry escreveu: “Ninguém mais pode fazer no mundo de Deus o que sou chamado a fazer em meu pedacinho. Deus depende de cada um de nós para realizar o pleno florescimento dos novos céus e da nova terra que Jesus inaugurou”3. Viver o evangelho de Jesus é assumir concretamente a tarefa de fazer, em nosso pedacinho de chão, a missão que temos de fazer. Somos capazes de mudar o mundo e nos mudar, o que é ainda mais importante. “O ser humano é capaz de mudar o mundo para melhor, se possível, e de mudar a si mesmo para melhor, se necessário”4 À luz do evangelho de Jesus, essa mudança é possível. O evangelho é um alfabeto a ser aprendido e vivido. 

  • Charles de Foucauld, místico do século XX, dizia que devemos “gritar o Evangelho com a pró-pria vida”. Desse modo, ao aprendermos o alfabeto de Jesus e do evangelho, devemos anunciar a Palavra de Jesus através de nossa vida, não só através de nossas palavras, mas principalmente, com nossas atitudes. A nossa vida será um evangelho vivo. 

    • Toda nossa existência, todo nosso ser deve gritar o Evangelho de cima dos telhados. Toda a nossa pessoa deve respirar Jesus, todos os nossos atos, toda a nossa vida deve gritar que somos de Jesus, devem apresentar uma imagem da vida evangélica. Todo o nosso ser deve ser uma pregação viva, um reflexo de Jesus, um perfume de Jesus, algo que proclame Jesus, que faça ver Jesus, que brilhe como ícone dele5.

  • Ser um evangelho vivo, proclamar o Evangelho através de nossos atos e de nossas palavras, ser reflexo da vida de Jesus, exalar o perfume de Cristo, eis nossos maiores desafios como discípulas e discípulos de Jesus. 

  • É atribuída a São Francisco de Assis a seguinte expressão: “Presta atenção na tua vida, pois, tu podes ser o único evangelho que muitas pessoas irão ler”. Independentemente, de Francisco ter dito isso ou não, sabemos que a vida dele foi verdadeiramente um evangelho vivo. E podemos também fazer de nossa vida um evangelho vivo. 

  • Recentemente, escutei de um frade franciscano a seguinte história acerca do Pobrezinho de Assis. No leito de sua morte, Francisco teria dito: “Vamos começar de novo, irmãos! Pois até agora, muito pouco ou quase nada fizemos”. Portanto, vamos começar de novo, a cada dia, e aprender a viver como Jesus viveu e, assim, redescobrir nele o sentido de nossa vida.
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1 FUNDAÇÃO CHIARA BADANO. O sorriso que venceu a dor: a trajetó¬ria de Chiara Luce Badano. Tradução de Gustavo Monteiro. Vargem Grande Paulista: Cidade Nova, 2023. p. 25.
2 Idem.
3 BARRY, William A. Mudar o coração, transformar o mundo: a liber¬dade transformadora da amizade com Deus. Tradução de Barbara Theoto Lambert. São Paulo: Loyola, 2016. p. 37.
4 FRANKL, Viktor E. Em busca de sentido. 58. ed. Petrópolis: Vozes, 2023. p. 153.
5 DAMIAN, Edson T. Espiritualidade para nosso tempo com Carlos de Foucauld. São Paulo: Paulinas, 2007. p. 53-54.


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