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221. O Natal da esperança

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29.12.2025 | 10 minutos de leitura
Pe. Eduardo César Rodrigues Calil
Diversos
221. O Natal da esperança
A esperança é o arco-íris sobre o riacho íngreme da vida, engolida cem vezes pela espuma e sempre se recompondo de novo, e saltando por cima dele com bela e delicada audácia, onde ele brame de modo mais furioso e perigoso”. (Nietzsche)

Vivemos este Natal meus irmãos e irmãs, no Jubileu da encarnação de Jesus Cristo, no ano da Esperança, que bradou que somos peregrinos de Esperança e que nossa Esperança, que tem rosto, que é gente, não nos decepciona.

Mas o que é a esperança, para que não a confundamos com qualquer encantação, para que não nos deixemos levar por qualquer sedução? Seria ela o último dos males da caixa de Pandora, aquele que ela teria conseguido manter assegurado dentro da caixa e que se tornaria, ainda, o jeito de enfrentar os males que escaparam? Ou será a esperança um arco-íris sobre o riacho íngreme da vida, como diria Nietzsche? 

Inicialmente, a esperança não é uma simples ideia. Não é uma espécie de otimismo. O otimismo é o convencimento de que tudo ficará bem. O futuro como um espaço aberto de possibilidades é desconhecido para o otimista. Nada acontece. Nada o surpreende. Ele não conta com o incalculável. O otimista “está acorrentado à sua alegria, assim como o condenado das galés ao seu remo”(Eagleton). O otimista, para quem “tudo vai ficar bem”, carece de determinação, pois tudo para ele é massificado e o futuro é esvaziado em sua potência por uma alegria opaca, uma alegria que vela a realidade. Mas “rir de tudo é desespero”, diria o cantor.  A esperança, por outro lado, é um comprometimento, é um estar a caminho, avançando para o desconhecido, o não trilhado, o que ainda-não-é. Ou seja: a esperança não é tão autoevidente, ela precisa ser invocada, convocada.

O pessimista não é muito diferente do otimista. O tempo para ele também é fechado. Se o otimismo nega o imprevisível nivelando tudo com sua alegria indisposta, o pessimista não aspira a renovação nenhuma. Não há nenhum evento que poderia trazer uma virada surpreendente ao curso das coisas. Não há, no pessimista, a fantasia do novo, a paixão pelo jamais sido. 

A esperança também é outra coisa que a psicologia do bem-estar, que procura vender a felicidade em frascos para os sujeitos, ou amordaçá-los com pílulas encantadas... Aspectos negativos da vida, situações difíceis, lutos dolorosos, imprevistos que arruínam; tudo isso é desconsiderado e o mundo é apresentado como “um armazém, onde obtemos tudo o que pedimos” (Byung Chul-Han). Cada um é responsável pela sua própria felicidade e, portanto, culpado de seu próprio sofrimento. O sofrimento foi, assim, privatizado, ofuscando os contextos sociais que muitas vezes são seus causadores. Esse culto à positividade isola as pessoas, esvazia a nossa capacidade de compaixão. 

A esperança cristã não é culto à positividade nem psicologia positiva. É uma abertura ao futuro, ao ainda-não. Como nos diria Paulo na epístola aos Romanos: a esperança que se vê não é esperança; porque o que que alguém vê, como o esperará?” (Rm 8,24). Mas o futuro, esse ainda-não, diz respeito a quê? Ele pode se referir ao que acontecerá mais tarde, amanhã, no próximo ano, neste próximo instante, se quisermos. Sendo assim, de algum modo ele pode ser gerido, gestado, planejado, projetado. Por outro lado, há um futuro que podemos chamar de inesperado, que escapa ao cálculo, é o tempo da desmesura, do excesso. Ele anuncia a chegada do outro, que não é previsível. Tanto o pessimista quanto o otimista estão fechados para esse futuro. O esperançoso não. 

Mas onde domina o clima do medo, a esperança não desperta. Como crer e criar uma atmosfera de esperança contra o clima do medo? Como alcançar essa delicada audácia contra o regime do medo? 

O medo isola as pessoas. Não é possível ter medo conjuntamente; ele não cria comunidade, não traz um nós. Já a esperança significa, ao mesmo tempo, espalhar esperança, levar adiante a chama, nutrir a chama ao redor. Ela constitui laço, um nós. A esperança é o fermento do novo; o medo, por outro lado é submissão aos domínios. Mas vivemos numa sociedade do medo; crises globais, pandemias, guerras, catástrofes climáticas geram uma sensação constante de fim iminente e de sobrevivência constante. Vivemos essa ansiedade existencial, que os poderes religiosos e políticos, manipulam, administram. É o medo o espectro que domina nossa vida cultural e individual. 

A esperança é uma resposta possível. Porque, ao invés de ser uma ilusão de que ‘tudo acaba bem’, ela é uma força que reconfigura o sentido do presente e abre um horizonte para o futuro. Dito de outro modo: ela permite não tratar como definitivas as cercanias e cercaduras de nossa história. Ela não é, portanto, resignação com o que está posto e, tampouco, é fuga da realidade. É, ao contrário, aquela que motiva a ação, porque faz emergir novas possibilidades e inspira mudança. A esperança confronta o mundo e abre espaços de transformação concreta. 

O pensamento que prescinde e despreza qualquer tipo de esperança, não passa de um cálculo. O presente sem sonho, por exemplo, não produz nada novo. A noite sem alvorada, é apenas um definitivo véu de sombras. A paixão, sem futuro, não é possível. Teremos de chegar a dizer que o presente, esse que é para muitos um momento precioso; para outros um momento fastidioso; para tantos um momento de ruína... Esse presente que muitos idealizam como a única coisa que temos, mas que acaba reduzido a si mesmo, fechado, sem a possibilidade de ser ultrapassado, enfim... Esse presente: teremos de chegar a dizer que ele não existe? Talvez.  O que temos é um futuro se abrindo, se desenrolando... jamais um presente sem esperança, jamais um presente fixo, sem movimento. Por isso, sem nenhum horizonte significativo, nenhuma ação é possível. 

Com isso, abre-se a confiança de que a esperança não é espera passiva, mas é ativa – e não só: é também racional. Ela não é uma afetação, um sentimento bonito, uma ideia abstrata. Mas há quem pense que a razão só dá conta do já presente, que ela seja surda, e que a esperança seja a fantasia que ouve sobretons onde a razão não escuta música alguma. Contudo, se há razão até nos sonhos noturnos, o que dizer, então, dos sonhos diurnos, dos sonhos despertos? “Quem dorme está sozinho com seus tesouros... Já nos sonhos acordados, a amplitude humana se distingue; a vida se abre para os outros” (Ernest Bloch) 

Ao tratar a esperança como o mal da caixa de Pandora que cega os homens e a fé como uma virtude rara e desimportante para os assuntos políticos, os gregos, pais da razão clássica, negaram duas características essenciais da existência humana, como diria Hannah Arendt. A fé não é o oposto da razão, como a esperança não é o oposto da ação ou da reflexão. A razão precisa do horizonte aberto, do futuro, não só como cálculo, assim como a ação e a reflexão não existem sem a possiblidade. A esperança é essa atitude ativa que contempla o que ainda-não-é. É ela quem mantém nossa atitude desperta, pronta para agarrar o tempo bom, o tempo das boas oportunidades, sem perdê-lo. Ela tem algo de contemplativa também, de estar com os ouvidos bem abertos, com os olhos atentos, com os sentidos redespertos, com o coração à porta... Com o coração feito porta, abrindo-se para acolher a visita de Deus. É isso o que nossa esperança, ativa e contemplativa, ao mesmo passo, pode alcançar: uma abertura.

Hoje a noite foi rasgada pela luz: “o povo que andava nas trevas viu uma grande luz”, diz a primeira leitura. E o evangelho acrescenta que os pastores que passavam a noite nos campos foram envolvidos pela glória do Senhor, em luz. A luz dentro da noite, rasgando seu véu. Ela chega dispersando o medo, o medo que indisponibiliza, o medo que paralisa, o medo que impede a esperança de girar em nós os gonzos que abrem as portas que gostaríamos que finalmente estivessem abertas. A noite pode ser o que nos rodeia como essa atmosfera de desconfiança, como esse estado alarmado em relação a tudo e todos. A noite pode ser nossos laços deteriorados pelas manipulações ideológicas. Pode ser o estado de terrível desesperança, pessimismo e descomprometimento com a vida. Pode ser a desistência depois das desilusões. Há um excesso de sentido na palavra noite. Mas há uma particularidade na palavra luz: ela rasga o véu da noite. 

Hoje, a nossa esperança diz algo de fundamental e radical: uma criança nasceu para nós. Ele é a nossa luz. Uma luz que irradia de um lugar pobre, nas periferias do mundo, deitado numa manjedoura. O que vemos hoje é o futuro, sempre presente, de Deus: o futuro rasgando o presente fastidioso, cansativo, o presente fechado de nossas desilusões e decepções. E então o presente-aberto é inaugurado. Que Deus tenha nascido em nosso presente, a ponto de ser dito, pelos anjos: “hoje! Hoje nasceu para vós um Salvador, que é o Cristo Senhor!”, é a prova de que o hoje está prenhe de futuro, dá à luz o inesperado, o incalculável, de que o instante é capaz de eternidade. Esse hoje não é um instante que se fecha nele mesmo, mas é um rasgo na história; 2025 anos depois estamos dizendo: hoje! Porque o que se passou permanece aberto. Porque o futuro que Deus instaura com seu hoje é profusão, é o excesso, a abundância de seu dom, com um manancial atravessando a história. Essa esperança viva, pode nos alcançar agora e girar em nós os gonzos, as maçanetas, que nós insistimos em deixar imóveis, desanimados para o novo, o novo que podemos fazer juntos, se atravessados por esse Espírito. 

Esse nascimento do eterno no tempo, a encarnação do Filho de Deus, nos sensibiliza para possibilidades nas quais não fomos lançados, mas nas quais sonhamos entrar. Ele nos abre para o ainda-não-nascido em nós, mas que anda latente, desejoso de nascer. É a abertura dos possíveis, já que Deus fez a nossa condição humana, pobre, marginal, capaz de sua dignidade, sendo Ele mesmo capaz de abraçá-la. É a abertura do vindouro, pois aquele que ora nos visita, chega rompendo com o repetido da guerra, com o repetido da noite, com o repetido de uma promessa. Mesmo a morte não resiste a esse nascimento, mostrando que nossa condição mais humana não é a de sermos-no-mundo, seres-para-a-morte, mas seres para vir-ao-mundo. Em outras palavras: fomos feitos para nascer. E nascer é a fórmula básica da esperança. Esse vir-ao-mundo, eclodir, esse nascimento, é inclusive o que faz a esperança esperar para além da morte. 

A esperança nasceu, hoje. E você, já nasceu hoje?

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