03. A luz do Transfigurado
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27.02.2026 | 5 minutos de leitura
Para celebrar

(Mt 17,1-9)
Em Introdução à arte das montanhas, o poeta Leonardo Fróes escreve: “um animal passeia nas montanhas. Arranca a cara nos espinhos do mato, perde o fôlego mas não desiste de chegar ao ponto mais alto. De tanto andar fazendo esforço se torna um organismo em movimento reagindo a passadas, e só. Não sente fome nem saudade nem sede, confia apenas nos instintos que o destino conduz. Puxado sempre para cima o animal é um ímã, numa escala de formiga, que as montanhas atraem. Conhece alguma liberdade, quando chega ao cume. Sente-se disperso entre as nuvens, acha que reconheceu seus limites. Mas não sabe, ainda, que agora tem de aprender a descer”.
Somos atraídos, no evangelho deste fim de semana, para o alto da montanha sem nome, junto com Pedro, Tiago e João. Ela é sem nome, porque interessa mais que entendamos a montanha como lugar de encontro, de revelação, quase como se, do pico dessas estruturas, pudéssemos tocar mais facilmente os céus. Como se nos déssemos conta do nosso tamanho só lá no alto e como se fôssemos convidados a obter um olhar mais amplo, mais largo, que alcance melhor o tamanho do horizonte. Não à toa, Jesus revela sua verdadeira condição lá onde os olhos podem enxergar mais longe. E sua verdadeira condição é a de um ser humano radicalmente humano, e por isso, divino. Nesse relato que escutamos, o evangelista quer nos mostrar que não somos só o pó da terra, mas há também desejo de infinito em nós; que essa vida tão cheia e limites, estreita como o pico de um monte, está cercada do que não tem nome e pode ser visitada, não raras vezes, pelo eterno, por algo que ultrapassa a morte.
Por isso, aprendamos a subir, a subir para dentro, porque o lugar do encontro com Deus, antes de tudo, não são as montanhas, mas é o coração. Lá, Jesus fica cheio da vida que ele transmite, da vida que o excede, que o enviou, que o receberá. Fica cheio daquela vida que parece o sol que dissipa a escuridão da noite, que aquece no frio. De uma vida que tem a brancura que nenhuma lavadeira pode produzir: a brancura da luz, que permite todas as cores, que permite ver. Fica cheio da luz que possibilita caminhar, que rasga as escuridões. Essa vida nos chega por Jesus, nos alcança por ele. Viver é mais que existir. Exige transfiguração: costurar feridas com as linhas da vida, não ceder à força da morte e seus instrumentos, achar em meio às nossas labutas e noites, as montanhas que nos permitem ver melhor, ver mais longe, ver diferente. Achar aqueles pontos de luz que, irradiados, fazem a vida mesma se mostrar com sua potência.
Numa bela metáfora, vemos Moisés e Elias, que aparecem ao lado de Jesus como aquela história que Jesus realizou. Nós viemos de outros, Jesus também. Mas o que é a transfiguração, senão trazer ao brilho, à luz, o que de fato somos? Moisés representa a Lei dos judeus e Elias a profecia. Jesus realiza a lei, levando-a a uma completude, que a supera. Jesus realiza a profecia, em palavras e gestos, como um tempo que encontra realização. Mas Moisés pode passar porque a lei-maior-que-a-lei será escrita em corações, não mais em pedras. Elias pode passar, porque o zelo não se fará com espada, mas com vida entregue. A transfiguração acontece quando a história não é a promessa apenas, nem mais simplesmente o que se espera de alguém, mas o que essa pessoa transmuta em si, transforma em si, toma para si e faz se realizar.
Podemos querer permanecer aí, mas, como tudo o que nos excede não pode ser retido, também a vida não pode ser guardada, escondida sob tendas. A tenda mesmo guarda algo dessa simbologia de não-fixidez, de mobilidade. Mas Pedro quer reter para si, o que não é seu. Quer guardar para si o que a todos é dado. Quer conservar a luz sob o alqueire, a vasilha, de uma tenda qualquer. Quer manter o passado sob as tendas da imobilidade; não quer fazer o movimento de abrir-se ao novo, o passado transfigurado. Pedro pede para fazer três tendas: uma para Jesus, outra para Moisés, outra para Elias. Ele põe no centro, na tenda do meio, a Moisés que supõe ser mais importante. O apego a Moisés, ou seja à lei, à lei e sua segurança, são jeitos de não se deixar transfigurar pela novidade e pela liberdade da vida que Jesus confere. Um vinho novo, como Jesus, só funciona em odres novos.
Será preciso uma testemunha irrecusável, uma testemunha que o interrompa enquanto Pedro ainda estava falando: é o Pai mesmo quem dirá a esse Pedro amarrado à lei: “Este é Filho amado, no qual eu pus todo meu agrado. Escutai-o!”. É Jesus, portanto, quem precisamos escutar! Escutando-o vamos descobrir que a vida não pode estar do lado do medo. Por isso, ele diz: “Levantai-vos e não tenhais medo˜.
O discípulo que foi chamado de Satanás, mandado para trás, duro como uma pedra, servindo também de pedra de tropeço (Mt 16,21-23), agora escutou o próprio Pai dando testemunho do Filho. Poderá ele descer a montanha de sua vontade de triunfo e, finalmente, seguir o mestre? Parece que os outros dois discípulos também não se deixaram atravessar pela luz do Cristo; continuarão, isso sim, a querer o poder e os lugares de honra, em vez da vida. E, se subimos a montanha acompanhando os três discípulos, a questão mais grave é a de saber como é que também nós a descemos… de que modo fomos transformados por aquela luz, ou se permanecemos opacos a ela.
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