Um homem provado
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20.02.2026 | 7 minutos de leitura
Para celebrar

O evangelho que escutamos neste domingo não é um episódio isolado na vida de Jesus, mas retrata as dificuldades que Jesus, o filho de Deus na carne humana, encontrou em toda a sua vida. Não se trata de uma tentação isolada durante 40 dias exatos, até porque sabemos que este número é simbólico, como a maioria dos números na bíblia. As tentações de Jesus não aconteceram uma vez e pronto, ou foram vencidas de uma vez por todas, mas são insistentes, e estão presentes não só na vida dele, mas também na daqueles que seguem seu projeto de Reino dos céus.
E o diabo, o tentador, não se apresenta como um inimigo, nem é tampouco um ser terrível e amedrontador. Ele se apresenta, antes, como colaborador, querendo ajudar Jesus em sua missão, mas pretendendo desviá-lo de seu projeto. As tentações que Jesus sofre são tipicamente humanas, sobretudo quando diz respeito ao poder: usar suas próprias capacidades exclusivamente para si e ser indiferente aos outros; fazer e dizer aquilo que o povo espera; mostrar-se favorável sempre e submisso aos poderosos, para terminar mais poderoso ainda.
E o cenário é o deserto, imagem polivalente, cheia de sentidos. Primeiro porque o deserto é visto com o lugar onde o povo de Israel aprendeu a dura liberdade; que os Egitos são dentro da gente, e que nos submetemos deliberada e voluntariamente a muitos faraós. Depois, porque é o lugar insólito da solidão, mas também o lugar aonde Deus nos convoca a ir, para então nos falar ao coração, como diz o profeta Oséias. É, portanto, no deserto que Jesus vencerá as tentações como quem percorre o caminho de um povo todo; como quem faz um percurso de escuta atenta do Deus que pulsa em seu coração. E é aí que experimenta em sua humanidade, a liberdade difícil.
Mas o deserto é também o lugar em que os que queriam se assenhorar do poder se reuniam, como salteadores (At 21,38). Foi onde Davi, modelo do futuro Messias, se escondeu antes de apoderar-se do trono de Saul… Por isso, as tentações que Jesus sofre se dão nesse lugar, porque são tentações que desejam dissuadi-lo do tipo de Messias que ele admite ser, do seu projeto de Reino, já que o que esperavam que fosse um rei-forte, que triunfasse, como um filho de Davi, e este não era o modelo assumido por Jesus, que se fazia servidor de todos, o menor entre os irmãos.
A primeira tentação mostra o diabo querendo socorrer Jesus em sua fome. Sem colocar em dúvida a filiação divina de Jesus, mas justamente usando-a como grande vantagem, o diabo propõe que Jesus transforme pedras em pão. Ora, Moisés, um simples servo, fez chover pão do céu. E ao povo que teve fome no deserto, Deus assistiu; não fará o filho de Deus coisas muito mais espetaculares? Não é o livro da Sabedoria que ensina que “se o justo é filho de Deus, ele o assistirá”? Até pedras podem virar pão, já que o mesmo livro ensina que, com Deus, a criação adaptando-se a tudo, se punha a serviço da liberalidade divina, que alimenta a todos, segundo o desejo de quem passa necessidade… O diabo se revela como um grande rabino, um excelente teólogo, perito nas Escrituras, mas só para ler o que quer, onde lhe interessa, para enganar e ludibriar, porque o mesmo texto da sabedoria também ensina: “os teus filhos que amas, Senhor, aprenderam que… é tua palavra que conserva aqueles que creem em ti”. Por isso, Jesus responde: “não só de pão viverá o homem, mas de toda a palavra que sai da boca de Deus”. Não aceita, enfim, ser mágico, nem se valer de privilégios; seu Reino é pão repartido e o pão da palavra partilhado. É a palavra que sai da boca de Deus, inclusive, palavra criadora, viva, que não se reduz à letra, tampouco a um livro; ela não domina o homem, mas o liberta. A proposta de Jesus sofre a tentação de se tornar um “salve-se a si mesmo”, mas a obra de Jesus ensina que, para não faltar pão, é preciso usá-lo não apenas para a própria satisfação, mas partilhar o pão, a vida...
Na segunda tentação, o diabo mostra que conhece não apenas as Escrituras, como bom rabino, mas também conhece bem o lugar sagrado, o templo de Jerusalém, como um bom sacerdote. E levando Jesus no pináculo do templo, pede que se manifeste de forma espetacular, como caberia a um Messias. Deseja que ele alimente as expectativas populares, que não querem apenas pão, mas muitas vezes circo. E pede que se atire, afinal os anjos não o deixariam se ferir. Podem pedir que ele se jogue do alto, que ele ofereça um sinal do céu para comprovar seu mandato divino, ou que ele desça da cruz, se é o filho de Deus; todas essas tentações tem a mesma conotação ao longo da vida de Jesus; que o Pai confirme sua companhia com sinais extraordinários. Mas Jesus não flerta com as expectativas falsas do povo, nem com as tentações do diabo: “não tentarás o Senhor, teu Deus”, ele responde. Ele não se jogará do alto, mas será elevado no alto na cruz; não dará nenhum sinal dos céus, ele será o sinal visível do amor do Pai – não descerá da cruz, mas será elevado e será sinal do amor definitivo do Pai lá, na cruz.
Mas o diabo tem uma última carta na manga: a tentação do poder absoluto. A essa, homem algum consegue se furtar. Por isso, porque sabe que o poder é desejo de todo mortal, nem recorre mais ao argumento da filiação divina. E faz uma promessa a Jesus: “Todas essas coisas eu te darei”. Mas tem uma condição: “se me adorares”. E agora o diabo não é mais um rabino, que conhece as Escrituras, nem um sacerdote familiarizado com o templo. Ele é um falso deus que se pretende verdadeiro e como tal quer ser adorado. Jesus rejeita toda forma de idolatria, inclusive a do poder e expulsa o diabo dizendo: “Vai-te, satanás!” Expulsa-o chamando de adversário, pela razão óbvia de que se trata de um projeto completamente adversário ao seu. E ele mesmo denunciará que o que não vier do serviço, mas do desejo de domínio, não deve imperar entre os seus. Usar o poder sagrado para estabelecer-se sobre os outros, ainda que em nome de Deus, é um pecado que brada aos céus.
Curioso como as tentações aparecem na boca de um diabo rabino, sacerdote/religioso, falso-deus que julga ter todo poder. Não aparece em forma de mulher ou homem sensual, nem como quem atenta contra os bons costumes e a moral. Aparece como pessoa de dentro da religião, que conhece a Escritura, que conhece o templo... E mais interessante ainda é que Jesus vence as tentações não rezando mil devoções ou fazendo mil gestos de piedade, ou se adequando à lei religiosa da época, mas vence as tentações com a Palavra de Deus, que é pão e partilha, vence com a doação da vida como sinal dos céus, com o serviço como anti-poder. Ora, as tentações continuaram na vida de Jesus, pela boca dos doutores da lei, fariseus, saduceus e até pela boca dos seus discípulos. Ontem e hoje quão arriscado é seguir Jesus, pois sempre temos a tentação de perverter sua mensagem. E, infelizmente, quase sempre cedemos a elas.
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