Evangelho DominicalVersículos Bíblicos
 
 
 
 
 

Redenção

Ler do Início
20.04.2026 | 2 minutos de leitura
Diego Lelis Cmf
Poesia
Redenção
Amanheci para dentro de mim. 
Um sol fechado, e o dia feito de nuvens cinzas, sem alarde, pedindo silêncios. 
Não quis ir ao encontro de nada, nem de ninguém, que não fosse eu mesmo. 
Havia uma estranha sensação de que o mundo me enganara — de que tudo lá fora era promessa vazia, incapaz de saciar o desejo de infinito que arde em mim ou de retirar da minha boca o gosto agridoce da indigência humana. 
Sentei no chão frio do quarto. 
O cheiro do café não me comovia. 
Os livros, os compromissos, o relógio que insistia em dizer “Tempus fugit” - nada disso era capaz de oferecer consolo. 
As mãos tremiam, o estômago apertava. Mas não era fome. Era tanto, que não cabia em uma palavra, um rosto, um papel. 
Pensei no sofrimento. E me dei conta: não era o presente que doía. 
Era o passado — esse morto que não consente ser enterrado, esquecido, renegado. Era também o que ainda não veio, o que espero sem forma, sem dia, sem cor, um desejo cravado no incerto povir – aquilo que não domino e me desafia a construir. Entre o já vivido e o ainda não, sou um ser em trânsito, sem lugar, inacabado habitado por ecos e presságios, uma mistura de saudade e mistério. 
Carrego uma herança que não posso abdicar, e um futuro que não sei nomear. E, mesmo assim, escrevo. 
Porque há em mim alguma lucidez cansada, e nela, talvez, uma redenção.

PUBLICIDADE
  •  
  •  
  •  
  •  
  •