265. O martelo
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13.10.2022 | 1 minutos de leitura
Poesia

Você pode dizer que chegou lá,
Mas falta ainda um percurso,
Um itinerário,
Uma jornada inteira no escuro,
Estrada abaixo,
Ao vilarejo escondido,
De casebres velhos e de palha.
Falta ainda pisar o barro vivo da vida.
Sujar-se consigo,
Com essa malignidade que se quis
Expulsar,
E que se cria ter conseguido.
Você pode dizer que chegou lá,
E olhar repugnantemente para quem
Nunca pensou em chegar,
Mas ainda faltará atolar os pés
Até os calcanhares.
Faltará uivar na noite
Seus próprios demônios,
Encará-los como quem toca a loucura.
Tocar a loucura:
En-sã-de-ser.
Em são de-ser.
Deixar-de-ser.
Ir deixando de ser, os avós,
Os pais,
A cultura,
A religião,
O Outro,
E ser apenas esse sujeito,
No desamparo da noite.
Sozinho
E elo de mundos.
O martelo tinha razão:
Não produz estrela,
Quem não dançou com o caos.
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