214. Em memória dos que amamos
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03.11.2025 | 3 minutos de leitura
Diversos

A vida é um brevíssimo instante; é como a planta que de dia viceja e à noite resseca (Sl 90,6). Também o tempo escorre pelas mãos; não o possuímos; é ele quem nos tem. E procuramos a todo custo ignorar nossa brevidade, escamotear nossa finitude, negar nossa condição passageira. Apesar de tentar a todo custo negar nossa única certeza, podemos na contramão disso, atestar: “quem foi que assim nos fascinou para que tivesse um olhar de despedida em tudo o que fazemos?”, escreveu o poeta Rilke. Pois assim é, estamos nos despedindo, de tudo e de todos, a cada instante.
Se a vida é, pois, um momento, um fugidio instante, e se também o fim chega sempre supreendentemente, inesperadamente, como um ladrão que nos assalta, mesmo quando estamos advertidos, o que fazer dela, como empenhá-la, em que gastar a vida?
Para a fé, esse instante basta: é suficiente para cingir os rins e acender lâmpadas. Para estar presente, para estar vivo, pronto a caminhar, a fazer a viagem, essa jornada, a travessia do rio, a terceira margem, como disse Guimarães Rosa. Basta esse instante breve, para se pôr em prontidão, na disposição de amar. Amar é esse jeito de cultivar atenção, de trocar despedidas por esperanças de reencontro… De fazer o caminho mais vivo… É desencantar a morte e acordar as capacidades de viver.
Para a fé, esse instante é suficiente para que possamos amar e servir; não como uma obrigação, uma exigência, mas como uma experiência com aquele mesmo que, ao nos visitar, nos amou e serviu no seu Jesus. Deus é aquele que chega e surpreende, porque não é um Deus de pompas, mas é o Deus das coisas miúdas, pequenas e, no entanto, inestimáveis. Ele mesmo põe a mesa, ele mesmo se cinge… Ele mesmo serve… Será preciso arrebentar as cascas das horas, despertar da sonolência, para achar essas eternidades, essas visitas de Deus, em meio à vida breve e fugidia…
Tanta coisa acontece quando menos esperamos. Às vezes é a beleza, às vezes é a vida sendo inaugurada; e sem atenção, ela se perderá. Às vezes é o terrível, às vezes é o fim. Mas “se em um instante se nasce, e se morre em um instante, um instante é bastante para a vida inteira" (Clarice).
Nesse dia, dedicado à memória dos fiéis defuntos, que a vida inteira vivida ao lado daqueles que amamos, vivida num instante que seja, seja lembrada como aquilo que jamais pode descer à cova, como aquilo que a morte jamais terá força de silenciar.
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