209. Uma oração capaz de mudar-nos
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20.10.2025 | 5 minutos de leitura
Diversos

Por que é importante para o evangelista Lucas mostrar Jesus rezando tantas vezes? Porque assim, ele nos mostra que Jesus esteve em íntima relação com seu Pai. E esteve em constante discernimento sobre o projeto de Reino de Deus, ao qual procurou ser fiel. E mesmo que sua vida fosse um ninho para o Espírito de Deus, que desceu sobre ele, é a oração que permite essa abertura íntima (Lc 3,21-22). A oração de Jesus é a celebração de um encontro com Deus e seu Reinado. Nos momentos mais decisivos de sua vida, Jesus reza (não só no batismo, mas também na escolha dos apóstolos, na transfiguração e na cruz). A vida de Jesus é dialogante. E essa abertura, que gera encontro e intimidade, encanta os discípulos que querem, então, rezar como o mestre. E, para mostrar a importância de rezar sempre e nunca desistir, Jesus lhes conta uma parábola.
Já sabemos bem que toda parábola tem uma espécie de absurdo, tem um clímax que surpreende, um enigma que faz pensar, uma certa estranheza. E aqui não é diferente, pois Jesus conta a parábola de um juiz incomodado constantemente por uma viúva e que resolve, finalmente, fazer-lhe justiça para não ser agredido por ela, e não porque ele tema a Deus ou respeite a alguém. É instantâneo pensar: Será Deus um juiz indiferente à nossa oração e que se compraz apenas com nossa insistência, ao nos ver implorando sua clemência? Será a oração um método de convencimento de Deus, um modo de dobrá-lo à nossa vontade e, por isso mesmo, seria preciso não desistir nunca, e continuar a incomodá-lo até que ele faça o que queiramos? Pois Jesus mesmo trata de separar a imagem de Deus da desse juiz. “Deus faria os seus escolhidos esperar?”, pergunta Jesus. Ao contrário desse juiz impiedoso, diz Jesus, seu Pai fará justiça e bem depressa aos seus, que dia e noite gritam por ele.
Os ouvintes de Jesus, de ontem e de hoje, não se podem esquecer daquelas palavras do Eclesiástico, que, de certo modo, nos dão o sentido desse evangelho de hoje: “O Senhor é um juiz que não faz discriminação de pessoas. Ele não é parcial em prejuízo do pobre; mas escuta, sim, as súplicas dos oprimidos; jamais despreza a súplica do órfão, nem da viúva, quando desabafa suas mágoas. Quem serve a Deus como ele o quer será bem acolhido e suas súplicas subirão até as nuvens. A prece do humilde atravessa as nuvens: enquanto não chegar não terá repouso; e não descansará até que o Altíssimo intervenha, faça justiça aos justos e execute o julgamento” (Eclo 35,15b-17.20-22 a.)
E notem que o texto do Evangelho de Lucas diz: “fará justiça aos seus escolhidos”. Ora, o texto não nos está dizendo que toda intenção vai ser atendida nem que a oração vai conquistar tudo o que intende ou, tampouco, que a oração é uma espécie de negociação com Deus. Mas dizer que Deus fará justiça depressa aponta para o que Jesus mesmo veio realizar com sua vida: fazer a justiça de Deus. E ele a realiza anunciando a boa nova aos pobres, proclamando a libertação dos cativos, a vista aos cegos e o ano da graça do Senhor (Lc 4, 16-21). A justiça que o Pai vai fazer depressa é a salvação, da qual Jesus é agente. Essa justiça tão aguardada começa pelos pobres, órfãos e viúvas – esses esquecidos pela justiça humana, religiosa ou não. Esses esquecidos ficaram muitas vidas à espera; mas o Pai não fará ninguém esperar mais: em Jesus está a realização da espera. E, por isso, nele, é preciso perseverar; ou seja: em sua vida, em seu caminho. E perseverar individual e também comunitariamente – como escolhidos, não como preferidos ou donos de qualquer exclusividade. Vale lembrar que alguém é eleito, mas nunca para gozar sozinho de sua eleição, mas para fazer outros também se reconhecerem como tal.
A oração deve afinar nossa vida à vida de Jesus: ela põe a vida em abertura para Deus e para o outro, e para o próprio coração. Ela excita os ouvidos para que sejam capazes de ouvir a Deus que fala e que vem ao nosso encontro (Is 50,4). Ela nos torna capazes de acolher as visitas de Deus, inclusive nas pessoas mais vulneráveis, como as viúvas da época de Jesus. Se Deus mesmo defende a causa do órfão e da viúva, e ama o estrangeiro, dando-lhes alimento e roupa, como ensina o Deuteronômio (Dt 10,18), então, quem reza a Deus, autenticamente, torna-se mais disponível para agir como Ele mesmo age.
É por isso que Jesus pode perguntar: “o Filho do Homem, quando voltar, vai encontrar fé sobre a terra?”. Porque fé é uma relação, uma resposta ao amor salvífico de Deus, é comunhão. É a constatação de que fomos amados e encontrados, de que o Senhor nos fez justiça. E estar em relação com ele, pela fé e pela oração, é entrar na esteira da mesma prática, ajustando-se ao seu amor.
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