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224. Advento: terceiro domingo, somos convidados a alegria

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08.01.2026 | 5 minutos de leitura
Pe. Eduardo César Rodrigues Calil
Diversos
224. Advento: terceiro domingo, somos convidados a alegria
No primeiro domingo, ouvimos o apelo da vigilância, da atenção; no segundo, o grito da conversão; e agora, neste terceiro domingo, somos convidados a alegria. O terceiro domingo é chamado de Gaudete, o domingo da alegria, não à toa. Porém, não se trata de uma alegria fácil, mas de uma alegria tecida na esperança, pela perseverança que insiste em criar e recriar novo ânimo, fortalecendo as mãos enfraquecidas e firmando os joelhos debilitados (Is 35,3).
 
E hoje, a liturgia nos apresenta uma alegria que nasce no avesso das expectativas que fazemos, ao nos mostrar que o Messias que Deus envia
é maior do que o Messias que esperávamos. Descobrimo-lo, quando acompanhamos a pergunta humana, ferida e luminosa de João Batista ser endereçada a Jesus e viajar até os seus ouvidos: “És tu aquele que há de vir, ou devemos esperar outro?”
 
João Batista, o maior entre os nascidos de mulher, não está mais às margens do Jordão, com o vento no rosto e a multidão diante de si. Agora está na prisão. É ali, no lugar onde o céu parece fechado, que ele envia seus discípulos a Jesus. Esse fechamento é, portanto, poroso. A pergunta perfura e atravessa o cárcere. São tantos os messianismos, tantas as esperanças: elas nos liberam, ou elas nos aprisionam?
 
A dúvida de João parece ser um discernimento necessário. Ele mesmo conhecia as Escrituras e esperava o Messias que viria com a pá na mão, separando o trigo da palha (Mt 3,12), lançando no fogo os que não produziam fruto. O machado já estava posto à raiz. Mas as notícias sobre Jesus eram outras: cura, misericórdia, acolhimento dos pobres, mesa partilhada. João faz essa pergunta, porque o Messias de Deus ultrapassa o Messias que ele imaginava. Mas pelo menos pergunta. É a dúvida furando certezas, rasgando delírios. 
 
E assim já aprendemos: a fé verdadeira não é ausência de perguntas, é fidelidade que pergunta na escuridão. Mas a resposta não vem com teorias, nem filosofemas. Ela vem como vida que pode ser escutada, vida que pode ser vista:  “Ide contar a João o que estais ouvindo e vendo.”, responde Jesus. 
 
Aqui ouvimos o eco profundo de Isaías (cf. Is 35,5-6; 61,1): cegos veem, paralíticos andam, leprosos são purificados, surdos ouvem, mortos se levantam, pobres recebem Evangelho. Cada gesto é um selo messiânico, um cumprimento vivo das promessas, sim, mas é também Jesus dizendo que O Reino chegou, mas de forma mansa, como levanta o dia; não pela força do machado, mas pela força do amor que cura, que ajuda a ver, a caminhar, que acolhe, que ajuda a ouvir, que dá novo respiro. 
 
E, de repente, o Evangelho fala de uma alegria, uma alegria estranha: “Feliz aquele que não se escandaliza por causa de mim.” Parece um convite ao estranhamento, um convite a acolher isso que é a diferença, e que não está fora apenas, mas também dentro de nós e que não pode ser reduzido ao igual, ao mesmo, mas que ultrapassa nossos modelos, esquemas. 
 
Por quê? Porque Deus, e Jesus, sempre nos desinstala. Ele não cabe nos esquemas religiosos, políticos ou emocionais que criamos.
 
Também nos escandalizamos de um Deus que não cabe nos nossos ideias, nas nossas idéias, que não age como esperamos: Devemos esperar outro?
 
— Um Messias que resolva tudo magicamente?
— Um que elimine todos os nossos conflitos?
— Um que imponha ordem e que elimine com força e impiedade o que julgamos errado?
— Um Messias que trabalhe por nós?
 
Parece que a alegria do Evangelho não está num Messias que vem para cumprir nossas expectativas, para confirmar nossas supostas certezas, mas neste que vem para ultrapassá-las, inaugurando com isso, a diferença como tangente da salvação. 
 
Depois que os discípulos partem, Jesus fala ao povo sobre João. João não é um “caniço agitado pelo vento”, porque não é um homem que vive ao sabor das conveniências. Tampouco é alguém de palácios: o profeta não veste seda, mas veste o deserto. Ele é o mensageiro prometido em Malaquias (Ml 3,1), aquele que prepara o caminho. João é ponte, é limiar, é o ponto onde o Antigo Testamento toca o Novo. Ele representa a grandeza de toda a revelação antiga: “Entre os nascidos de mulher, ninguém é maior do que João”.
 
Mas o que nasce do Cristo — mesmo que pequeno, o menor no Reino dos céus— participa de uma nova ordem, de uma filiação transformada pelo Espírito.
 
O Reino não se mede por mérito, não se mede por austeridade, não se mede por grandezas humanas: mede-se pela proximidade com Jesus.
 
É na proximidade com ele, que somos chamados a desencarcerar nossa fé. Muitas vezes ela também está aprisionada. E não é precisamente na dúvida que ela fica aprisionada, se a dúvida for o começo do desejo. Talvez muitos de nós estejamos, simbolicamente, no cárcere, com a fé cansada. O evangelho parece oferecer uma rota para superar essa cadeia: procurar e despertar para os lugares onde Jesus continua fazendo ver, ouvir, caminhar, viver.
 
Afinal, o precioso fruto da terra não vem quando decidimos, depende da chuva de outono ou da primavera...mas depende, sobretudo, da esperança.

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