20. Abandonado por Deus

“Meu Deus, meu Deus,
por que me abandonaste?.” (Mc 15,34a)
“Ando tão à flor da pele;
meu desejo se confunde
com a vontade de não ser.
Ando tão à flor da pele,
que a minha pele
tem o fogo do juízo final.”
(Zeca Balero)
Quem nunca andou com os nervos à flor da pele, com aquela sensação que sua epiderme pega fogo e sua cabeça solta fagulhas a cada pensamento? Quem nunca desejou sumir, desaparecer, diluir-se como pó em meio à poeira da vida, sem deixar marcas? Quem nunca experimentou o desejo de não ser ou quem não sentiu arder em si o fogo do juízo final? Quem nunca se sentiu sozinho, no fundo do poço, na noite escura, onde nem mesmo, ao final do túnel, uma única luzinha parece brilhar? São João da Cruz que o diga, na sua noite escura, treva gigante, onde o próprio Deus se ocultava a abandoná-lo sozinho em suas angústias e mazelas. Eis, pois, a universal experiência da solidão. Genuinamente humana; experimentada também por Jesus, o filho de Deus feito homem.
Jesus na cruz lamenta: “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?” (Mc 15,34a), uma clara referência ao salmo 22,2, no qual o salmista ainda interroga o Senhor: “Ficas longe apesar do meu grito e das palavras do meu lamento?”. No auge de sua entrega, Jesus experimenta a solidão humana, dilacerante, cortante. O fato de ser o Filho amado, em quem o Pai colocou todo seu agrado (cf. Mc 1,11), não o poupa das experiências humanas ou não seria verdadeiramente homem como nós. Lá no Gólgota, ele é o Jó do novo tempo, abandonado por todos, inclusive pelos seus amados.
No Antigo Testamento, o livro de Jó conta história curiosa. Aquele que outrora fora exaltado como justo, cuja retidão e fidelidade foram atestadas por Deus e pelo povo, tem agora sua integridade posta em xeque, pois – atirado na lama da vida – mais parece um ultrajado por Deus, um maldito. Jó experimenta o abandono, a dor, a solidão, a angústia. Sua vida está por um fio; seus nervos à flor da pele; sua carne entre seus dentes como uma presa na boca de uma fera poderosa. Perdeu sua fortuna: ovelhas, camelos, terras, plantações inteiras... Perdeu sua família: sete filhos mortos; três filhas que se foram... Restou-lhe a mulher, ultrajando-o ainda mais e insultando-o quando mais precisava de um consolo. E ainda três amigos, que mais parecem amigos da onça. Quando até para o diabo a fidelidade de Deus está provada, seus amigos duvidam de sua justiça e se desdobram para convencê-lo do contrário. Jó permanece irredutível. Sabe que sua solidão, seu sofrimento e seu abandono são coisas da vida, não um castigo de Deus. E segue fiel seu caminho, sem se deixar abater por argumentação contrária.
Entre insultos, desprezos e abandonos, segue a vida humana, a de Jó, a de Jesus, a nossa. A vida, sempre um dom, mesmo na dor dilacerante, permanece sem perder seu brilho ou sua beleza por causa das intempéries que a assolam. Bem dizia Gonzaguinha: “Eu sei que a vida devia ser bem melhor e será, mas isso não impede que eu repita: é bonita, é bonita e é bonita”. E passo a passo caminhamos como Jó ou como Jesus. Ao final da tormenta, Jó experimenta a presença de Deus, a quem chamou para um pleito. Põe a mão na boca e admite: “Eu te conhecia de ouvir falar; agora te vejo!”. Jesus, no abandono da cruz, abandona-se nas mãos do Pai e não fica desiludido. Deus o ressuscita dentre os mortos. Sigamos em frente, com a carne de nossa vida entre os dentes. No abandono dilacerante que a vida nos faz sentir, a solidão não é a única companheira. Deus mesmo é se faz presente como a solidão que nos envolve.
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