300. Incompletude
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14.07.2025 | 4 minutos de leitura
Crônicas

“Sede perfeitos, como vosso Pai é perfeito” (Mt 5,48)
“Porque perfeição
É o outro nome para o fim
Somos perene incompletude
Na ânsia de não acabar”.
(Fernando Placides)
A bíblia nos mostra continuamente nossa incompletude e nos convence a olhar com benevolência para nós mesmos, pois Deus sabe dos limites e possibilidades que nos constituem. É o caso do Sl 51, a famosa oração atribuída a Davi: “Eu fui gerado na iniquidade e minha mãe concebeu-me pecador. Mas tu amas a verdade no coração e no íntimo me manifestaste tua sabedoria” (vv. 7-8).
Muitos poderiam apelar para contradizer essa afirmação, lembrando o versículo de Mateus: “Sede perfeitos, como vosso Pai celeste é perfeito”, mas qualquer leitor minimamente habilitado no texto da Escritura sabe que a perfeição dita por Mateus não significa ausência de erros ou pecados, mas perfeição no amor, como busca incessante do bem.
O evangelista Lucas, bem mais realista que Mateus, preferiu escrever: “Sede misericordiosos como vosso Pai é misericordioso”. Aliás, a misericórdia se mostra carro-chefe da teologia lucana e o escritor dos gentios não perde a chance de exaltar essa virtude, seja em Deus ou no ser humano. É só ler seu Evangelho que veremos como a misericórdia deixa sua marca em seus registros: a pecadora que lava os pés de Jesus, o bom samaritano, o perdão ao ladrão arrependido etc. E ainda a palavra misericórdia se faz presente nos Cânticos de Maria (Lc 1,78) e de Zacarias (Lc 1,78), e em muitos outros versículos da obra lucana (Lucas e Atos).
O poeta Fernando Placides escreveu no livro O moinho, publicado pela editora Fique Firme (2025), que “perfeição é o outro nome para o fim”. Desde que li esses versos, fiquei intrigada: Seria o fim da imperfeição? Ou o fim da existência humana? Ou as duas coisas? Sei lá! Mas a segunda parte de seu verso me faz pensar que a segunda hipótese é válida, pois afirma, “somos perene incompletude, na ânsia de não acabar”. Coisa de poeta-filósofo ou de filósofo-poeta, sempre a vasculhar a vida humana e suas mais profundas reentrâncias.
Essa temática da incompletude está sempre nos poemas, nas músicas, nos registros que se eternizam como a Escritura Sagrada. Oswaldo Montenegro escreveu uma bela canção com versos que fazem pensar: “metade de mim é o que eu grito, mas a outra metade é silêncio”; “metade de mim é a lembrança do que fui, mas a outra metade eu não sei”. Tanta incompletude esperando outra metade sempre incompleta, num jogo absurdo de encontros e desencontros, que nunca finalizam num inteiro, mas em incompletudes infindas.
No meu livro Na terra do sol mordido, coloco em pauta essa questão da falta que nos constitui. Trata-se uma obra infanto-juvenil, publicada pela editora Fique Firme (2021), escrita em parceria com o querido Eduardo Calil, com ilustrações do genial Rubem Filho. A constitutividade humana da falta deve ser visibilizada desde cedo e conversada com crianças e jovens, para evitar transtornos psíquicos e psicológicos futuros. A aceitação de nossos limites e finitudes só pode contribuir com nossa plenificação. Quanto mais negamos nossas faltas, não só no sentido moral e ético, mas no sentido existencial, mais nos desumanizamos e perdemos o horizonte de sentido da vida humana: a plenificação em Deus, que nos chama em Cristo a ser um com ele.
Adriana Calcanhoto canta outra belezura de nome Metade:
Eu perco o freio.Estou em milhares de cacos.Eu estou ao meio.Onde seráQue você está agora?Eu perco o chão.Eu não acho as palavras.Eu ando tão triste.Eu ando pela sala.Eu perco a hora.Eu chego no fim.Onde seráQue você está agora?
A canção romântica faz pensar que a pessoa se parte quando perde o amado. Mas não seria a perda do amado apenas uma ocasião para mostrar nossas próprias quebraduras? Certamente todo amor nos reconstitui, nos faz menos quebradiços, mas o outro nunca completa nossas partes. Aquela história da metade das laranjas, cantada por Fábio Júnior, só fica bonita na canção. Na realidade, já entendemos que isso é pura ilusão. Lidar com as quebraduras, com as vagas mais profundas, com os limites, com a finitudes, com as incompletudes é tarefa para a vida toda, pois “somos perene incompletude”.
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