299. Nas tramas da poesia
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07.07.2025 | 4 minutos de leitura
Crônicas

“Antes que se obscureça o sol, a luz, a lua e as estrelas
e voltem as nuvens depois da chuva [...], antes que voltes ao pó de onde veio
e o espírito retorne a Deus, que o concedeu” (Ecl 12,2.7)
“A poesia me pega com sua roda dentada,
me força a escutar imóvel
o seu discurso esdrúxulo.
Me abraça detrás do muro, levanta
a saia pra eu ver, amorosa e doida”.
(Adélia Prado)
A modernidade com sua obsessão pela razão parecia ameaçar a poesia. Era preciso separar, dissecar, analisar cada parte do cadáver do texto, para que ele fizesse algum sentido. A poesia ficou quieta e silenciosa gestando sua linguagem simbólica, bem mais sensível e capaz de produzir sentido que qualquer outra.
A pós-modernidade com a tecnologia de informação e comunicação deu outro duro golpe. A linguagem numérica, digital, dos algoritmos, fazia crer que a poesia se despedia desse mundo, deixando apenas alguns apaixonados cheios de saudades. Mas ela resistiu e de novo e mostrou que não somos apenas ser pensante, mas também ser que sente, entra em relação, se emociona e busca algo mais.
Desde muito tempo, os poetas são saudados como geniais. A poesia de Horácio, do século I aC – Roma, fez história. E Camões, do séc. XVI dC, de Portugal? Quem é da língua portuguesa e nunca ouviu falar deste nome? E aquele outro português, do século XIX dC, que, com diversos pseudônimos, deixou um legado sem conta à humanidade inteira?
No Brasil, a lista é sem fim. Uma infinidade de aventureiros ainda se arrisca a crer na poesia. Paulo Autran, fazendo um passeio pela poesia brasileira, gravou um CD precioso: “4 séculos de poesia brasileira”, uma lindeza!
Em meio a tantas feiuras e feíces, é preciso achar boniteza e belezura nas coisas mais singelas. Como disse Adélia Prado, é preciso olhar para uma flor e ver bem mais que uma flor. É preciso ver além do objeto, das coisas em si, e falar de forma sutil e delicada, com suave beleza, até das tragédias mais dolorosas. É preciso deixar que a poesia com sua roda dentada nos esmague com sua delicadeza. É preciso ve ro que ela mostra por debaixo de sua saia!
Quando perdemos a capacidade de nos encantar, de nos deixar dominar pelo belo, pelo bom, pelo sublime... Quando olhamos para uma formiga e só vemos um inseto e nada além disso... Quando vemos a dor humana e não nos comovemos, nem nos tocamos a fazer o mínimo para amenizá-la... então morreu a poesia e, com ela, o que o ser humano tem de mais confiável e autêntico: sua interioridade.
Desde muito, o povo que escreveu a bíblia percebeu a importância da poesia como consolo para as almas aflitas e alimento para a esperança. O livro do Eclesiastes ou Qohélet é uma clara expressão disso. No seu capítulo final, para falar da morte, descreve os momentos finais com tal beleza, que chegamos a esquecer a sua dor e vemos atenuado o medo de sua chegada. Mas a poesia bíblica não se encontra restrita neste livro. Um bom leitor da Sagrada Escritura sabe que ela explode em beleza poética. O que dizer dos Salmos? E dos Evangelhos? Quem não conhece a encantadora beleza das bem-aventuranças de Mateus, que, no Brasil, ficou eternizada na voz de Cid Moreira? O teólogo José Pagola, no seu livro Jesus histórico, dá ao Carpinteiro de Nazaré o título de poeta da Galileia. E as Cartas de Paulo e as de João? Por que não falar também da poesia do Apocalipse? A revelação é dita de forma poética, pois Deus mesmo, o eterno poeta, se diz e se mostra nas Escrituras. Aliás, este é o título do poema de Warley Thomaz:
No princípio era a palavra
E a Palavra estava junto de Deus,
e a Palavra era Deus.
Por fim, Deus se fez poesia,
exaltando o amor na compaixão
à vida humana.
Ele, o eterno poeta, acendeu a luz,
multiplicou o pão,
carregou a cruz.
E seus versos ecoaram pelo espaço.
Lá, onde os limites do universo
incomodam a inteligência.
Poeta do amor eterno,
dos enamorados, da musa Criação;
inesgotável sublime simplicidade,
dos Homens é a salvação.
Em tempos de tanta desumanidade das guerras, de tantas fake news espalhadas pelas redes sociais, de tanta ameaça à democracia com o avanço da extrema direita no país, resta-nos o consola da poesia. Que a Escritura Sagrada nos ensine a manter o coração sensível para tudo que é belo, bom e agradável, e a poesia está no topo da lista!
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