298. Sem anistia
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30.06.2025 | 4 minutos de leitura
Crônicas

“Retribuí-lhes segundo suas obras
e segundo a maldade de suas maquinações” (Sl 28/27,4)
“É quando o vosso espírito vagueia pelo vento que vós,
solitários e indefesos, fazeis mal aos outros e também a vós mesmos.
E pelo mal que fazeis devereis bater à porta dos abençoados e esperar”.
(Kalil Gibran)
Não é de hoje que a religião cristã insiste que Deus é amor, conforme ensinou Jesus e ficou consignados nos escritos do Novo Testamento. A misericórdia de Deus ultrapassa sua justiça e ela é a própria justiça divina, pois nada pode ser mais justo que amar e perdoar sempre. A carta de Tiago (1,12-14) ensina que de Deus só pode vir coisa boa e que ninguém diga, quando for castigado, que é Deus quem castiga. Uma clara menção à superação do medo imposto pela religião em nome de Deus.
Então, como compreender os inúmeros textos do Antigo Testamento que falam da ira e da vingança divina, de extermínio de povos em nome da justiça de Deus, em maldições e castigos que vão até a terceira ou quarta geração? Primeiro, será necessário entender a linguagem bíblia, povoada de antropomorfismo. Deus ganha sentimentos e formas humanas, age como um de nós, se encoleriza, sente ciúmes e vinga. Esse é um modo próprio de dizer que Deus sente e sofre conosco nossas agruras. Na verdade, não é Deus quem vinga ou castiga, mas tais atos e procedimentos são dignos de reprovação, de ira, de indignação e de punição, inclusive. Segundo, é importante entender o contexto. Esta era a linguagem do povo daquele tempo: linguagem de violência e de revide, de punição e de maldições. É só lembra do Código de Hamurabi, famosos pelo “dente por dente e olho por olho”.
O fato de a fé cristã proclamar alto e em bom som que Deus é amor, não significa que ela elimina a necessidade de punir os atos maus e convidar os malvados à conversão. Deus ama e perdoa sempre, mas o convívio social seria impossível sem órgãos legisladores, que investigam os fatos, julgam os envolvidos e punem o que forem considerados transgressores da lei. Mas não é Deus quem castiga. É a sociedade que, para funcionar minimamente, precisa de punir os atos de transgressão da lei.
Vivemos tempos em que a democracia se viu muito ameaça por um golpe ao estado democrático de direito. Uma verdadeira orcrim, organização criminosa usou o próprio Estado, seus recursos financeiros e humanos, que deveriam estar à serviço dos mais fracos e da constituição brasileira, para se manter no poder e explorar cada vez mais os já tão enfraquecidos. A justiça brasileira tem se empenhado em investigar o caso, elucidar os fatos, descobrir os verdadeiros mentores de tal absurdo, para punir devidamente a quem merece ser punido.
A esta altura do campeonato, alguns falam em anistia, ou seja, em perdão para essa gente que cometeu crimes gravíssimos contra a democracia e contra cada um de nós, contra nossa sanidade e integridade física. Seria possível tal coisa? Sim, se se tratasse de perseguição política, por pura ideologia, mas não por se tratar de crimes tão horrendos contra toda nossa gente. Uma pessoa que assassina outra é julgada e condenada; uma pessoa que comete assalto e rouba um banco, por exemplo, é julgada e condenada. Elas devem pagar com a liberdade. Infelizmente esse é o sistema punitivo vigente, por mais que seja questionável, especialmente por quem, como eu, sonha com um mundo sem cárcere. No entanto, não é possível pensar uma sociedade sem algum tipo de punição para os delitos. Como escreveu Kalil Gibran, os que cometeram delitos devem bater à porta do ofendido e esperar. Isso significa – sabendo é claro que ninguém é santo – que os malfeitores devem se humilhar diante dos que ele humilhou e esperar por redenção.
O golpe de estado orquestrado por essa gente que agora pede anistia não ofendeu apenas os três poderes constituídos que regem nossa nação. Ofendeu e lesou cada um dos brasileiros, pois roubou nossa paz, nossa saúde mental e nossos recursos da saúde, da educação, da moradia etc. para fins escusos, para se manter no poder e manipular as consciências e cercear a liberdade. Não é possível aceitar o argumento da anistia nessas condições. Quem tramou o golpe deve pagar, deve ser julgado, condenado e pagar por seus erros. Por isso, repetimos: sem anistia!
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