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200. Do discipulado

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08.09.2025 | 5 minutos de leitura
Pe. Eduardo César Rodrigues Calil
Diversos
200. Do discipulado
Quando escutamos um evangelho que fala de exigências para o seguimento de Jesus, tais como desapegar da família, abraçar a cruz e renunciar a tudo, temos logo a impressão de que discipulado é deixar algo. Mas antes disso, antes de ser deixar algo, ser discípulo é ter encontrado alguém. E esse encontro rearticula a vida, remodela prioridades, redimensiona o coração. Um grande encontro, não é sem consequências. Uma grande experiência, nós não só a fazemos, mas ela também nos faz. 

E ser discípulo de Jesus, não é estar num ambiente escolar, num aprendizado de conteúdos, fórmulas, regras, técnicas, mas é estar numa relação em que somos convidados a dar passos no amor; é fazer o caminho da vida que se abre como dom. 

E para progredir no amor, por que interessa a Jesus que amemos menos os pais, os parceiros, os filhos, a própria família e a própria vida? Se se trata de alargar o coração, porque os primeiros próximos não caberiam, também? Amar menos os próximos para amar mais a Jesus, mesmo compreendendo que ele é o mais próximo, o mais íntimo, não seria pôr amores em competição, fazer do laço mais unitivo, uma afeição de divisões?  Mas pensar a família como lugar do amor e do acolhimento é ainda o melhor dos mundos. Às vezes, para honrar os pais, é preciso deixar para trás seus exemplos, é preciso frustrar suas expectativas e projeções. Para ser fiel ao que pulsa no mais íntimo em nós, é preciso muitas vezes desligar-se de culturas familiares extremamente fechadas, que arregimentam, inclusive, preconceitos; que castram sonhos; que eliminam singularidades. É preciso topar frustrar idealizações que alienam, romper com tradições que apequenam. Há amores que recebem esse nome, mas a preço de demandar dependências, apequenamentos; amores que entendem que amar é cortar as asas, dominar e fazer o outro servir como tampão de alguma falta. 

Seguir Jesus não é amar menos, mas amar sem chamar a qualquer coisa de amor. Carregar a cruz, também, não é resignação, submissão, idolatria da dor, masoquismo moral, gosto por sofrimento. É comprometer-se com a vida de tal modo, em toda a sua forma vária, a ponto de ser capaz de dar a vida pela vida. A lógica não é perder para ganhar, mas doar e doar-se, pois a doação é o ganho. A cruz é um símbolo de insubmissão, de maldição para os religiosos, um suplício para os judeus; e para os cristãos um símbolo de profetismo, de vida livre e comprometida, de vida doada. Convertida em dolorismo religioso pode fazer pensar que o importante é morrer, ou supliciar a existência; mas é exatamente o contrário. 

O par de  parábolas convida à perseverança e ao risco. As multidões podem estar desavisadas, então Jesus, que aos seus chama de pequenino rebanho, trata de dizer-lhes: viver comprometido com a vida não é sem consequências. Quem faz uma torre, quer chegar ao final da obra. É uma vergonha que pare no meio caminho. Se a torre já foi vista como sinal da arrogância humana, da ambição de chegar aos céus sem Deus, agora Jesus compara seu caminho a uma construção de uma torre, na qual é preciso perseverar… e todos que mexem com construção sabem o quanto uma obra é sem garantias, não há previsão de cálculo que não implique revisão, ora ou outra; é preciso empenhar inteligência e criatividade. Mas sobretudo é preciso desejo e relançá-lo. Sem isso, perde-se a força inovadora originária e a torre vira um prédio abandonado. Diferente de Babel, aqui, essa torre é o edifício da comunhão. 

A outra parábola lembra que nesse caminho é preciso desistir. Desistir de muita coisa para poder continuar. Não é um caminho de travar guerras, ainda que haja “muitos combates”. É um caminho de articulação da paz, de cessação de conflitos destrutivos. Para perseverar no amor, muitas vezes é preciso recuar, com a mesma inteligência e criatividade que uma construção exige. 

E por fim, Jesus aponta para a renúncia a tudo aquilo que se possui. Para Jesus pareceu fácil libertar as pessoas possuídas por espíritos impuros, mas não os ricos, quando possuídos pelo que tinham. Afinal, a coragem fica comprometida quando os bens estão ameaçados, fica impossível entrar na vida, e encontrar a própria vida como tesouro, arrastando os bens atrás de si.  Aquilo que se possui dá a falsa ilusão de poder, de ser algo… É impossível ser discípulo tendo de construir torres para proteger as posses, os bens, ou travando guerra para não perder nunca e para ter sempre mais.

E se esse encontro com Jesus, salutar, pudesse liberar a vida, essa vida muitas vezes cativa, dentro de nós?

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