196. A porta estreita
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25.08.2025 | 4 minutos de leitura
Diversos

Há uma historinha, conhecida no meio popular, que diz bem assim: havia um peixinho que vivia tranquilo num tanque. A água era suficiente, o alimento chegava, nada lhe faltava, mas algo dentro dele dizia que aquele espaço não era tudo. O tanque tinha paredes que o protegiam, mas também o limitavam. Um dia, ele percebeu uma fenda no fundo do tanque. Não era mais que um estreito canal, tão apertado que parecia impossível atravessá-lo. E, no entanto, o peixinho sentia uma corrente sutil de água que vinha de lá. Havia um chamado, uma promessa silenciosa: “há algo maior do outro lado”.
Ele hesitou: ficar no tanque era seguro, mas o desejo de mergulhar no mistério foi mais forte. Com esforço, comprimindo o corpo, raspando as escamas, o peixinho atravessou o canal estreito. E, do outro lado, encontrou o mar. O que ele pressentira era verdade: nascera para algo maior que o tanque.
Passemos ao Evangelho. Hoje nossa base é Lc 13,22-30, uma narrativa muito intrigante. Ao ser interrogado sobre a possibilidade da salvação, Jesus disse: “Esforçai-vos para entrar pela porta estreita”. Parece uma exigência de esforço e empenho pessoal para ser salvo, de alcançar méritos suficientes para passar por essa abertura. Não parece que a porta está escancarada, mas sim que ela seria seletiva.
Mas é importante não esquecer: a salvação para Jesus é entrar no Reino. E o Reino não é a vida depois dessa vida, mas a redescoberta dessa vida, dos tesouros que ela guarda, como a alegria de um banquete, onde há a justiça da partilha. Para chegar ao mar do Reino de Deus, é preciso a decisão de deixar para trás o tanque confortável da indiferença e do egoísmo, do orgulho e também o tanque pequeno de nossas estreitezas. Sem interrogar essa vida e sem redespertar as delicadezas, sem treinar de novo os sentidos e a abertura, a vida vira um tanque estreito. A passagem estreita, em direção ao mar, é a decisão. O ato, corajoso, de seguir aquela corrente que chama, desde dentro, e que, certamente, implica perdas, mas também o encontro com a Vida dentro da vida.
E ainda será preciso dizer: O que passa pela porta estreita da salvação é a vida de Cristo. Ele mesmo, dando a sua vida como dom excessivo de sua misericórdia, faz de si mesmo a porta. Ela é estreita não porque não se abra a todos, mas justamente porque encontrar a vida como dom não é sem responsabilidade, sem consequências. Aliás, nada que é sério é sem responsabilidade. Ela é estreita não por arbitrariedade, mas porque é preciso se fazer pequeno pra entrar no Reino (Lc 18,15-17).
Por isso, os que vêm com suas mãos cheias de méritos religiosos, podem estar inflados demais com sua própria justiça; os que se acham perfeitos cumpridores da lei, podem estar inchados de tanto legalismo; os que se acham perfeitos e santos, podem estar inflamadas de tanto orgulho… e, então, com ego inflado assim não será possível passar pela passagem estreita. É a prática da justiça que nos afina com o Reino, a doação nos põe na lógica de Jesus e é isso que nos faz passar pela porta que é ele mesmo. A salvação não é um negócio: fazer o bem pra conquistar o além. Mas é cuidar dessa vida, fazendo dela o banquete da justiça. Aí sim, terá começado o Reino.
E como nossas lógicas nunca são a de Deus, em seu Reino, cabem todos, vindos de todos os cantos; todos aqueles que fizeram essa vida ser mais vida, não porque a negaram para serem salvos depois, mas porque a abraçaram, como gente, e a partilharam, como irmãos. Nessa lógica, mesmo os últimos, podem ser os primeiros.
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