204. Use o dinheiro injusto para fazer amigos
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22.09.2025 | 4 minutos de leitura
Diversos

Usai o dinheiro injusto para fazer amigos, pois, quando acabar, eles vos receberão nas moradas eternas”, é o que diz Jesus, no evangelho estranho desse fim de semana. Parece esquisito, a começar por chamar o dinheiro de injusto, já que ele é um instrumento abstrato de valor usado como meio de troca. Mais estranho ainda quando a gente leva em conta que tem gente que ganha dinheiro de forma honesta, como fruto de seu trabalho e esforço, resultado de seu suor, e às vezes do seu sangue. Mas o dinheiro é injusto, para Jesus, porque faz parte de um sistema injusto. Faz parte de um sistema que põe o lucro acima de tudo, que desconsidera a pobre e suas necessidades; que explora o trabalho e não paga o que ele vale, de fato; que não distribui equitativamente a renda e não é usado para servir — ou fazer amigos —, mas para adquirir mais, para alimentar cobiças, para retroalimentar uma busca infindável por ter e ter sempre mais. O dinheiro é injusto, porque gira nesse sistema simbólico de exploração, competição, anulação do outro, justificando tudo com a falsa ideia de mérito, como se todos partissem das mesmas condições sociais, educacionais, econômicas. Mas dá pra fazer dele um meio, não um fim. Um instrumento a serviço dos outros, não um fim— pondo os outros a nosso serviço.
Não se pode servir a Deus e ao dinheiro. Servir ao dinheiro é quando o dinheiro vira um fim absoluto. E por causa dele se mata e morre-se. Cercado de ritos, cerimônias; muitas vezes cultuado como a solução de todos os problemas, como capaz de comprar a vida, a paz, a saúde, o dinheiro vira uma divindade na qual pomos a confiança. É claro que o dinheiro pode comprar condições de vida melhor, pode comprar serviços que ajudem a dar dignidade à vida e a situações da vida, e pode comprar até momentos de satisfação. Mas em última instância, a paz, a alegria e a vida ainda são outra coisa, estão em outro lugar. Servir a Deus parece implicar até o que a gente tem, colocando o que possuímos a serviço dos mais pobres, na caridade e na luta pela justiça. Na luta para que o dinheiro seja apenas um meio, não um fim em si mesmo. E para que as pessoas tenham vida digna, alegria e paz. O dinheiro, quando serve à caridade, vira pão na mesa do pobre, vira remédio para quem precisa, vira dignidade para quem foi esquecido. É isso que Jesus pede: que sejamos espertos para transformar até o injusto em instrumento de vida.
Para isso, é preciso que o cristão seja esperto, e saiba ser fiel, com o pouco ou com o muito. Sim, os que servem ao dinheiro, os “filhos das trevas” sabem ser espertos com seus negócios: sabem diminuir medidas, aumentar pesos, e adulterar balanças, dominar os pobres com dinheiro e os humildes com um par de sandálias. Ou sabem corromper, para se safar, quando “não têm forças para trabalhar ou vergonha de mendigar”. Mas e os filhos da luz? Como usam sua esperteza, como usam sua inteligência? Deixando-se enganar? Deixando-se levar pelas ideias dominantes e dominadoras de que o dinheiro salva? O dinheiro salvará o mundo?
O elogio do evangelho não é à administração infiel, por mais que ela tire de quem muito tem, beneficiando quem deve. O administrador infiel é elogiado em sua esperteza e parece ser justamente o que falta aos filhos da luz, muitas vezes. Usar a inteligência para fazer o bem, já que para cuidar do próprio umbigo, já tem muita gente esperta.
Este evangelho nos convida a colocar a serviço tudo o que temos — seja pouco, seja muito. Mas também a colocar a serviço tudo o que somos, os dons que recebemos de graça, em favor da vida e da justiça. Porque, até para servir a Deus, é preciso ser esperto.
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