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70. Mortificações e penitências mil

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13.11.2015 | 4 minutos de leitura
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70. Mortificações e penitências mil

Já foi o tempo em que penitências e mortificações eram símbolo de santidade. Quanto mais abstêmio o católico, mais genuína parecia sua fé. Ainda bem que esses tempos viraram quimera. Certamente que não defendemos a vida desregrada, a ostensão e as riquezas. Não faz parte do modo de vida do cristão o carpe diem (expressão do latim que significa aproveite o dia)! Apesar de o Livro do Eclesiastes (conhecido também como Qohélet) aconselhar viver cada dia sem se preocupar demais com o amanhã, como também Jesus aconselhou (cf. Mt 6,33-34), não ousamos a manipular os textos para defender a vida fácil e sem compromisso com o Reino. Não se trata disso. Mas uma coisa é certa: aquela fé sisuda e cheia de mortificações – outrora defendida – não encontra mais espaço no mundo cristão. Já compreendemos que o evangelho é boa-nova e como boa-nova deve trazer alegria e força para viver.


As penitências foram altamente estimuladas num tempo quando se entendia que o mundo era regido por espíritos: bons e maus, anjos e demônios... por meio das mortificações do corpo, forjava-se um espírito de fé, capaz de vencer as tentações da carne, pensavam alguns. Cada penitência, cada sacrifício, cada oração era uma espécie de amuleto da fé, que espantava os espíritos maus com os quais se estava sempre em combate. E além disso, angariava-se a simpatia dos santos e dos anjos, que uma vez agradados, se tornavam aliados na luta contra os diabos e suas tentações.


Ora, parece estranho que uma cosmologia repleta de anjos e demônios tenha se dissolvido desde o advento da modernidade e alguns católicos continuem com o mesmo imaginário de antes. E, por isso, se mortificam em nome da Virgem e dos santos todos. Alguns até prendem correntes nos braços, nos pés, simbolizando sua escravidão a Maria e sua vida mortificada por esse amor. Meu Deus! Onde vamos parar com isso?


Bom, comecemos pelo que disse Paulo: “É para a liberdade que Cristo vos libertou!”. (Gl 5,14). E Paulo fala isso num contexto bem próprio: adverte os cristãos de origem judaica, cujas prescrições legais eram muito rigorosas exigindo uma vida penitente em vistas da purificação ritual. O apóstolo dos gentios lembra aos gálatas que, uma vez libertados por Jesus, não faz nenhum sentido viver escravos de novo. Nem penitencias exageradas, nem jejuns, nem ritos religiosos... Nada disso deve orientar nossa fé, a não ser o amor apaixonado por Jesus e seu reino.


Mas não foi só Paulo quem empreendeu palavras contra essas coisas. O Salmo 51, tão antigo, já advertia que não são ritos religiosos, holocaustos, ofertas, penitências que nos aproximam de Deus, mas um coração contrito, humilde, verdadeiro...


Os profetas também não se cansaram de falar desse tema. É só lembrar os famosos textos de Isaías criticando o jejum e as festas religiosas de seu povo (cf. Is 58), O verdadeiro jejum é fazer o bem, amar o próximo, cuidar daqueles que se encontram fragilizados.


Alguns podem apelar dizendo que esses argumentos são a arma do diabo contra a fé. E que, porque alguns são fracos e não se mortificam, estes acabam justificando sua fraqueza com argumentos bíblicos. Mas não é de hoje que os penitentes cobram que os demais crentes vivam seu modo acético de vida. Não foi isso que alguns fizeram quando viram Jesus comendo e bebendo, feliz da vida com seus companheiros? Jesus e seus discípulos foram criticados por não jejuar. E, quando questionado sobre isso, Jesus disse que a vida com ele é uma festa de casamento e não um velório.


Sabemos que a vida já tem seu peso e nos impõe mortificações obrigatórias. Doenças, dores, abandonos, perdas... Tudo isso não deve ser ignorado; ao contrário, deve ser abraçado com a força da fé. Mas, convenhamos, multiplicar penitências em nome da fé cristã para si e para os demais não aparece mais legítimo, nem razoável. Fica aí a dica: nossa tarefa é tornar a vida mais leve e mais significativa. Para nos aproximar de Deus não precisamos de toda essa ascese de alguns grupos neoconservadores. Não vivemos mais num mundo mágico repleto de anjos e demônios a serem combatidos. Ao contrário, sabemos que vivemos na presença do Deus amoroso e bom que caminha conosco, nos ajudando a carregar a cruz de cada dia.







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