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64. Sacerdotes, em nome do amor

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12.01.2016 | 4 minutos de leitura
CID Sérgio Ferreira
Crônicas
64. Sacerdotes, em nome do amor

 “Fez de nós uma realeza e sacerdotes para Deus, seu Pai;

a ele pertence a glória e o domínio pelos séculos dos séculos.

Amém.” (Ap 1,6)



“Ao olhar a tua cruz, Senhor,

eu me sinto tão amado.

Sei também sou convidado

a viver a doação no amor.

Por isso nesse altar, Senhor,

quero oferecer o que há em mim.

Transforma meu desejo de ser melhor;

faz-me viver a doação.”

(Walter Jorge)



A Revelação de Jesus Cristo, a Palavra de Deus, faz-se ao longo da história da humanidade e da nossa história pessoal. Reconhecendo sua salvação na nossa vida, somos chamados a viver de forma celebrativa, de forma litúrgica, tendo como pano de fundo o louvor e a glória (doxologia) de Deus. Afinal, Cristo fez de nós “uma realeza, sacerdotes para Deus” e nossa vida toda deve então ser oferenda de louvor.


Conheci um padre da diocese de Belo Horizonte, Pe. João (nome fictício), com quem convivi pastoralmente durante vários anos, e que me ensinou a viver celebrativamente. Ensinou-me a viver esse sacerdócio para o qual fomos destinados; ajudou-me a compreender como fazer da vida uma oblação. Pe. João estava sempre pronto para servir a todos que o procuravam. Ele era presença marcante na vida de seu povo. Se era aniversário, ele estava lá na casa do paroquiano. Se era almoço, era só convidá-lo. Não era oferecido, mas sendo chamado não se fazia de rogado. Se era um caso de doença ou de falecimento, largava tudo para estar presente junto daquela família e consolá-la na sua dor, como a lembrar a Jerusalém celeste que “Deus enxugará toda a lágrima dos seus olhos” (Ap 21,4).


Pe. João era muito piedoso, pessoa orante que não escondia de seus fiéis seu gosto pela intimidade com o Senhor. Transbordava uma confiança inabalável em Deus. Alimentava-se diariamente da Palavra de Deus. Seu gosto pelas Escrituras Sagradas faz recordar as palavras do apocalipse: “tomou o livrinho da mão do anjo e o devorou” (Ap 10,8-9). Era assim que Pe. João vivia: alimentado pela Palavra, tinha sempre bondade e força para oferecer.


Pe. João conhecia as coisas boas e os sofrimentos de cada um da comunidade. Como bom mineiro do interior, gostava de ouvir e de contar causos. Perdia horas a fio em prosas intermináveis; conversas amanhecedoras em torno da mesa com os amigos e um bom copo de vinho. Não tinha pressa. Para ele, conviver, escutar, partilhar, acolher eram os verbos muito importantes.


Certa vez, uns evangélicos foram morar quase em frente à casa paroquial. Recém-chegados, os irmãos de outra denominação não sabiam quem era o padre da cidade. Movidos por proselitismo e anti-catolicismo, começaram a provocar. E, com alto-falante em volume máximo iniciaram as provocações. Eram aquelas discussões habituais sobre Maria, atacando a padroeira da paróquia, e coisas do gênero. Pe João não se deixou irritar. Com muita humildade, diálogo, benevolência, começou a fazer amizade com a família. Visitava-a em sua casa; estava sempre pronto pra servir. Certa vez o pastor viajou, e a esposa dele se sentiu mal. Não sei como, mas Pe. João foi quem socorreu e a amparou a pobre mulher até seu marido retornar. Foi como se “Babilônia, a grande”, tivesse caído (Ap 14,8). Romperam-se preconceitos e disputas! Caiu a Babilônia da rivalidade, da provocação, do não-diálogo. Ficaram de pé só o respeito e o amor, cujas bases não se abalam com qualquer terremoto. Nasceu daí bela amizade; surgiram grandes parcerias em favor do Reino.


As celebrações eucarísticas presididas por Pe. João tinham um ar místico, ritual, mas transcendente, cheias de uma presença que acalma, que pacifica os corações, sara as feridas mais doídas. Não havia gritaria, mas havia a alegria de um banquete, de “núpcias do Cordeiro” (Ap 17,7; 21-22), de encontro de amigos que se gostam e tem prazer de estar juntos. Era uma liturgia experiencial, provocadora, que, sabendo que mudava as vidas desde dentro...


Sou muito agradecido a esse irmão que me ensinou a viver o sacerdócio dos fiéis, a fazer da vida uma doação, a conhecer a urgência do amor. Sua vida, sempre posta a serviço, me fez entender o que diz o Apocalipse: “fez de nós uma realeza e sacerdote para Deus”. Seu ministério me ensinou que é verdadeira bem-aventurança crer no que disse Jesus: “Sim, venho muito em breve!”. (Ap 22,20). Só nos resta dizer: “Maranatha! Vem, Senhor Jesus” (Ap 22,21).





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