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52. Como migrantes...

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27.10.2015 | 4 minutos de leitura
CID Sérgio Ferreira
Crônicas
52. Como migrantes...

“Pedro apóstolo de Jesus Cristo,

aos eleitos que vivem como ­migrantes dispersos no mundo” (1Pd 1,1).



“Todos os dias é um vai-e-vem


A vida se repete na estação

Tem gente que chega pra ficar


Tem gente que vai pra nunca mais

Tem gente que vem e quer voltar

Tem gente que vai e quer ficar

Tem gente que veio só olhar

Tem gente a sorrir e a chorar

E assim, chegar e partir

São dois lados da mesma viagem...”


(Milton Nascimento e Fernando Brant)



Abraão ouviu a voz de Deus “sai da tua terra”. Os apóstolos e discípulos ouviram a ordem e a missão de Jesus: “Ide”. O papa Francisco diz: “Saiam das sacristias”. Cada batizado, discípulo missionário, ouve sempre “saia da sua terra, da sua zona de conforto, da sua segurança, da casa dos seus pais, da sua cidade, do seu país”.


Sou filho de emigrante sírio, de uma cidade chamada Malula, onde o aramaico ainda é cultivado e tem São Sérgio como padroeiro. Meu pai, meu avô, avó e dois tios sentiram-se muito bem acolhidos no Brasil e fizeram um propósito de assumir a nova pátria como suas e naturalizam-se, trocaram (traduziram) os seus nomes. Meu pai, Sarkis, passou a se chamar Sérgio. Tendo chegado ao Brasil e aqui encontrado um lar, nenhum deles voltou à terra natal. Assumiram nova identidade, nova vida em terras distantes, como nossos antepassados na fé: Abraão, os apóstolos e outros.


Talvez por causa de minhas origens, o drama dos refugiados sírios tem me comovido, me doído de compaixão. Mas não só eu. O mundo também sentiu a dor ao ver o menino Aylan Kurdi numa fotografia que correu a mídia. Sua posição prostrada, junto ás águas, como que dormindo, como anjo, chegando aos braços do Pai. Meu avô era da cidade de Homs, que foi totalmente destruída pelo Estado Islâmico: não ficou “pedra sobre pedra”. Dá para sentir como e por que as pessoas, os refugiados saem, às vezes, apenas com a roupa do corpo e sem um centavo. Só com o desejo de viver, contam apenas com a misericórdia do Pai, são verdadeiros anawin, os mais empobrecidos e martirizados de hoje.


Quando vejo esses irmãos sendo afrontados e até espancados na Hungria, fico pensando na admoestação da Primeira Carta de Pedro: “Sede todos unânimes, compassivos, fraternos, misericordiosos e humildes. Não pagueis o mal com o mal, nem ofensa com ofensa. Ao contrário, abençoai porque para isto fostes chamados: para serdes herdeiros da bênção” (1Pd 3,8-9). O povo brasileiro, de modo especial o mineiro, tem sabido atender a esta admoestação. As doações feitas aos refugiados e o acolhimento em terras mineiras têm mostrado o tamanho da generosidade de nossa gente. É gratificante ver mãos generosas estendidas àqueles que nem conhecem, não são parentes, nem amigos, apenas irmãos de mesma natureza frágil, irmanados pela esperança de dias melhores. Outras palavras da Escritura, também da Primeira Carta de Pedro, ganham mais sentido para mim, depois de conhecer o drama desses irmãos sírios refugiados: “Depois de terdes sofrido um pouco, o Deus de toda a graça, no Cristo Jesus, vos restabelecerá e vos tornará firmes, fortes e seguros” (1Pd 5,10-11). É essa a esperança que a nós todos move: não sofremos sozinhos; não sofremos em vão. O Deus de toda graça está conosco nos fortalecendo na peleja da vida!


Permaneçamos, pois, unidos na esperança e no amor! Somos todos migrantes, estrangeiros nesta vida. Como cantou Maria Rita: “A plataforma dessa estação é a vida desse meu lugar, é a vida desse meu lugar, é a vida”.





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