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47. Traição e dor

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29.09.2015 | 5 minutos de leitura
Solange Maria do Carmo
Crônicas
47. Traição e dor

“Judas, com um beijo
tu entregas o Filho do Homem?” (Lc 22,48)



“Fiquei magoado não por me teres mentido,

mas por não poder voltar a acreditar-te.”

(Nietzsche)


 

Quem nunca foi traído por um colega de trabalho ou de escola, por um amado, por um amigo ou até por um parente? Quem nunca sentiu aquela apunhalada nas costas, aquela sensação de susto e, na hora da surpresa, arrancou de si a célebre expressão: “Até tu, Brutus?”?


Pois bem! Quem nunca viveu e chorou uma traição que erga as mãos para o céu e agradeça. Mas cuide-se: sua hora ainda pode chegar. A traição vem quando a gente menos espera e de quem a gente menos imagina; ou não seria traição, seria ataque do inimigo. Mas não! A traição é assim; ela só é traição porque veio de alguém que a gente julgava fiel, alguém em cujo amor a gente acreditava. Sabe aquela pessoa querida, em quem você confiava os seus segredos, as suas misérias? Sabe aquela pessoa com quem você tinha o direito de ser quem é, sem medo de ser feliz? Pois bem: traição é aquele golpe inesperado vindo de alguém assim.


Graças a Deus, nem todo mundo é traidor. Tem muito amigo fiel e generoso, capaz não só de sofrer com a gente, mas também capaz de se alegrar com nosso sucesso, de torcer por nossa vitória e até dar um empurrãozinho pra que isso aconteça. Tem muito amado fiel, capaz de se dedicar ao amante sem reservas. Tem muita gente boa capaz de se rejubilar com o bem alheio. Mas tem também muita gente perigosamente íntima, pronta para abocanhar o calcanhar (cf. Sl 41,10).


Quando Jesus estava nos seus últimos momentos, viveu essa dolorosa experiência da traição. Foi surpreendido por um beijo: o beijo do traidor. O evangelista, para realçar a traição, coloca o beijo como seu sinal. Mas por que o beijo? Bom, até onde sei, a gente não sai beijando qualquer um, um desconhecido, um qualquer que encontramos por acaso, ou vão nos chamar de loucos. Beijamos quem amamos ou, pelo menos, deveria ser assim. O beijo é troca de prazer, de intimidade, de presença. É gesto de carinho, de ternura, de cuidado. O namorado beija a namorada para demonstrar seu carinho. A mãe beija o braço machucado do filho no desejo de curá-lo. A esposa beija a carta que chega ou o retrato do marido ausente. A criança beija a mãe pedindo desculpas. O presbítero beija a bíblia depois da proclamação do Evangelho. O beijo é sinal de amor e intimidade. E Judas, o traidor, beijou Jesus. Beijou porque era íntimo; beijou porque era um “com-Jesus”, um dos doze, um dos companheiros de jornada, um daqueles que vivia ao seu redor, ouvindo sua palavra, aprendendo os ensinamentos do Mestre de Nazaré. Mas foi justamente ele, aquele de dentro da cozinha, que o traiu. E o traiu com um sinal de amor, traindo não só Jesus mas o próprio sinal usado para trair.


E como disse Nietzsche, aí dói muito. Dói porque cresce uma desconfiança; surge uma suspeita sobre todo sinal de amor e ternura, deixando no ar um quê de desconfiança; enraíza-se no coração uma certeza de não poder mais confiar. Começamos a entender que o que é sinal de amor pode também se converter em sinal de desprezo, de ódio, de ira, de traição. E é isso que magoa. Porque a gente não tem bola de cristal, não sabe quem vai trair. As pessoas vão chegando, se avizinhando, se aproximando, até comerem na nossa mesa, fazerem parte da nossa vida E, quando chegam, não trazem uma tatuagem na testa dizendo: “confiável” ou “não confiável”. Seria bem fácil se fosse assim. Mas não é. Elas vêm por acaso. Simplesmente chegam trazidas pelo destino, pela vida, pelas circunstâncias impostas. E, muitas vezes, nos pegam fragilizadas, sem defesas, desarmadas... Vão chegando de mansinho, se aninhando em nossos corações, fazendo morada nele, sem a gente pedir e, até, sem a gente permitir. Quando vemos, já fazem parte da vida da gente. É assim a vida e não dá pra ser de outra forma.


Mas por que dói tanto essa experiência, se ela é tão humana e de alguma forma tão previsível? Como disse Jeremias: “maldito o homem que confia em outro homem!”. Se não somos mesmos dignos de confiança, pois todos têm potencial traidor (Jr 17,9: “nada há de mais ardiloso e mau que o coração humano”) por que ainda nos surpreendemos tanto com a traição e demoramos tanto tempo para digeri-la? Por causa do desencantamento. Nietzsche tinha razão. Não dói só a surpresa; dói não poder mais ter o que se tinha. Dói ficar sem o amor e a capacidade confiar de novo. Perder um amor é sempre algo muito doloroso; perder a confiança é lastimável..


Então, o que fazer a não ser tentar ser mais prudente e aprender a viver com essas desilusões? Foi o que fez Jesus. E o evangelista João foi quem melhor expressou isso. Relatou a entrega de Jesus sem o beijo de Judas. Pra ele, Jesus mesmo tomou as rédeas da vida e se entregou. Não esperou ninguém fazê-lo. O evangelista João nos ensina que até da traição dá pra fazer algo bom. Jesus inverteu o jogo: não esperou a entrega; entregou-se. Ou melhor, na entrega de Judas, ele mesmo deu jeito de entregar-se, transformando aquele ato vil e abominável em libertação para muitos. Deu a volta por cima. E saiu vencedor, ressuscitando ao terceiro dia, pois amor e fidelidade não conhecem a morte. E Judas, o traidor? Foi enforcar-se. Traidor e traição não duram muito tempo. Têm seus dias contados.





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