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47. A sorte está lançada

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25.02.2026 | 3 minutos de leitura
Solange Maria do Carmo
Curiosidades
47. A sorte está lançada
No livro dos Atos dos Apóstolos, há um trecho intrigante por ocasião da escolha de um apóstolo para compor o colégio dos Doze, anteriormente formado por Jesus, conforme relatado nos Evangelhos Sinóticos. A história é a seguinte. Segundo Lucas, que escreve o livro dos Atos, Judas, após trair Jesus, comprara um campo com o salário da injustiça, ou seja, a traição, e depois teria se arrebentado pelo meio, neste mesmo local.  Ficara vacante o lugar do traidor. Tendo a assembleia se reunido – aproximadamente 120 pessoas, número necessário para se eleger novo membro do Sinédrio, órgão de decisão do judaísmo –, Pedro se levanta no meio dos irmãos e fala acerca da necessidade da eleição. A assembleia propôs dois nomes: José, chamado Barsabás, que tinha o apelido de “Justo,” e Matias. Então rezaram e a sorte foi lançada e caiu o nome de Matias, que foi associado aos Onze apóstolos (At 1,15-26).

Alguns podem estranhar este costume de tirar a sorte para a eleição de um apóstolo para compor o grupo dos Doze. Uma pesquisa rápida na internet e a IA dá as pistas de onde vem esse costume: “O Urim e o Tumim eram objetos sagrados, possivelmente pedras ou sortes, usados no Antigo Testamento pelos sumos sacerdotes para discernir a vontade de Deus em decisões cruciais. Guardados no peitoral da veste sacerdotal (Êxodo 28,30), funcionavam como oráculo, indicando respostas (geralmente ‘sim/não’ ou ‘inocente/culpado’) para questões importantes da nação”. Apesar de não se saber ao certo que tipo de “pedras” eram essas e como eram lançadas, certo é que a experiência de tirar a sorte aparece na história bíblica.

Não é estranho que isso fosse praticado pelos sacerdotes levitas do Antigo Testamento, uma vez que fazia parte da cultura antiga esse tipo de prática. Mas como compreender esse costume ainda presente no meio dos apóstolos, na Igreja nascente? A narrativa de At 1,26 sinaliza dessa prática, de modo que o lançamento da sorte cede lugar à ação do Espírito. Em At 2,1-13, Lucas relata a primeira efusão do Espírito, ou Pentecostes, em Jerusalém, mas não para aí. Há outras efusões registadas, que podem ser encontradas em At 8,14-17; At 10,44-48; At 19,1-6. 

Em Atos, toda a ação evangelizadora dos apóstolos se encontra profundamente marcada pelo Espírito, que se manifesta, toma as rédeas das decisões, escolhe e envia os discípulos... O Espírito protagoniza as cenas, tomando a dianteira, decidindo e ordenando o que fazer... É o caso de At 8,29 (o Espírito disse a Filipe para se aproximar do carro do eunuco e acompanhá-lo); At 10,44 (Pedro ainda falava quando o Espírito Santo interrompeu o apóstolo e desceu sobre Cornélio e sua família, tomando a dianteira da ação entre os pagãos); At 13,2 (O Espírito Santo disse à comunidade de Antioquia para separar Paulo e Barnabé para a missão); At 16,7 (Depois de a comitiva missionária de Paulo passar em Trôade, o Espírito de Jesus impediu que ela fosse para a Bitínia) e assim vai. 

Desde então, a Igreja nascente não se encontra mais sujeita à sorte retirada nas pedras. Esse tempo já passou. Os seguidores de Jesus podem dizer: “Nunca foi sorte; sempre foi o Espírito”.

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