Trabalhadores da última hora
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18.03.2026 | 3 minutos de leitura
Curiosidades

Se tem um texto intrigante nos Evangelhos é o texto dos trabalhadores de última hora, que só se encontra no Evangelho de Mateus (Mt 20,1-16). O patrão contrata empregados quase que o dia todo e, ao final, todo mundo recebe o mesmo salário: um denário – pagamento correspondente ao trabalho de um dia de prestação de serviços.
Primeiro, trata-se de uma parábola, ou seja, uma história que o evangelista cria a partir da sua realidade e põe na boca de Jesus para transmitir a mensagem da fé. Começa como tantas outras parábolas: “O reino dos céus é como... “. Não se trata de leis trabalhistas, nem de direitos humanos, muito menos de meritocracia, que premia os melhores e despreza os menos bons. A parábola fala do reino dos céus, expressão típica de Mateus.
O patrão chamou uns trabalhadores logo cedo. Estes pegaram na lida quando o sol começava a brilhar. Mas teve gente que pegou trabalho bem mais tarde, quase na hora do serviço terminar, não porque não quisesse trabalhar, mas porque foi a hora em que ouviu o chamado.
No final do dia, o patrão pagou todo mundo a mesma quantidade, para mostrar a largueza de sua generosidade. Só que esta generosidade foi feita à luz do dia; os empregados que começaram bem cedo foram os últimos a receber criando uma expectativa de maior salário, fora do combinado. Qual não foi a decepção desses quando viram que receberam o mesmo denário, antes combinado, exatamente como os trabalhadores da última hora.
As perguntas são: primeiro, por que pagar a todos a mesma quantidade e não pagar mais aos que trabalharam o dia todo? Porque, na parábola, o proprietário da vinha representa Deus e ele só tem um salário a oferecer: seu amor desmedido por todos, sua bondade excessiva, sua misericórdia grandiosa, sua salvação. Não há como salvar pela metade, nem amar menos. É assim que Deus ama e salva. A segunda pergunta é: por que ele não pagou os trabalhadores do dia inteiro primeiro e só depois pagou os da última hora? Isso não teria evitado descontentamentos? Os trabalhadores da primeira hora nem precisavam ficar sabendo do pagamento dos outros. Ora a salvação de Deus é dada publicamente a todos que se abrem para o seu reino e isso deve ser sabido por todos. Onde há fraternidade, não há espaço para ciúmes e inveja.
No caso da parábola, se o proprietário representa Deus, sempre bom e generoso, os trabalhadores da primeira hora representam os cristãos-judeus, que achavam que tinham parte no reino prometido por seguirem de longa data numa aliança com o Senhor. Achavam-se dignos de maior consideração. Mas os pagãos, os trabalhadores da última hora, recebem o mesmo salário, ou seja, não são cristãos de segunda categoria, uma espécie de casta abaixo dos cristãos de origem judaica. Para Jesus, todos fazem parte do reino; todos são irmãos, sem importar quando cada um aderiu à fé.
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