42. Fascinações do mistério

Agora, conheço apenas em parte,
mas
conhecerei completamente... (1Cor 13,12)
“O entendimento não nos chega quando queremos.
O entendimento nos chega quando podemos”.
(Fábio de Melo)
O mistério não é um enigma nem tampouco um problema. Não é algo que precisa ser decifrado, explicado ou resolvido. Mas, sim, algo que precisa ser vivenciado. É algo que é maior que nós, que preenche todo nosso ser e faz com que nossa existência fique mais fascinante. Não conseguimos com nossas palavras expressar conceitualmente o que é o mistério; só podemos experimentá-lo.
Adélia Prado, em seu “Miserere”, resumiu poeticamente em versos a atitude de admiração provocada, ao nos deixarmos encantar pelo mistério de Deus: "Ao minuto de gozo do que chamamos Deus, fazer silêncio ainda é ruído".
Diante da beleza de Deus, até mesmo o silêncio é barulho. Não há o que dizer! Basta, apenas, saborear. Aliás, muitos místicos da Igreja já nos ensinaram isso. Santo Inácio de Loyola, por exemplo, dizia: “Não é o muito saber que sacia e satisfaz a alma, mas o saborear e o sentir”.
Penso que a imagem que melhor representa a fascinação existente no mistério é o horizonte. O horizonte também nos encanta, pois só vemos uma parte dele; o que está além do horizonte e nossos olhos não alcançam nos faz sonhar.
Para nós que nascemos em Minas, a metáfora do horizonte é traduzida geograficamente em nossas montanhas. Um grande amigo me disse uma vez que “Minas com suas montanhas nos faz ter saudades... Minas esconde tudo ali: (minas dos mistérios) atrás da serra. Bem pertinho”.
Roberto Carlos, juntamente com seu amigo de fé e irmão camarada, Erasmo Carlos, numa de suas mais belas e conhecidas canções descreve com poesia algumas coisas que estão escondidas logo ali, além do horizonte:
Além do horizonte deve ter
Algum lugar bonito pra viver em paz
Onde eu possa encontrar a natureza
Alegria e felicidade com certeza.
Lá nesse lugar o amanhecer é lindo
Com flores festejando mais um dia que vem vindo
Onde a gente pode se deitar no campo
Se amar na relva escutando o canto dos pássaros
Aproveitar a tarde sem pensar na vida
Andar despreocupado sem saber a hora de voltar...
O Papa Francisco, numa de suas homilias, recordou que, para mergulharmos no mistério, precisamos ter “capacidade de estupefação, de contemplação; capacidade de escutar o silêncio e ouvir o sussurro de um fio de silêncio sonoro em que Deus nos fala”.
Os sábios judeus dizem que existem quatro níveis de leitura das Escrituras Sagradas e o um desses níveis é chamado de Sod, é o momento do mistério, do silêncio reverente, ou seja, é quando o texto se transforma em oração. Além disso, há algo curioso que podemos aqui ressaltar: os sábios de Israel também deixavam espaços em branco em algumas passagens cheias de mistério, como a travessia do Mar Vermelho, por exemplo. Na bíblia hebraica, quando olhamos o texto há alguns espaços em branco. O branco é o lugar da luz, do mistério, do que não entendo, mas aceito.
Inspirados nos sábios judeus e nos poetas populares, que nós possamos ter a sensibilidade de nos deixar fascinar pelo mistério e que estejamos atentos aos sussurros de Deus em nossa história.
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