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284. Uma carta escrita por Deus

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22.04.2024 | 5 minutos de leitura
Yuri Lamounier Mombrini Lira
Crônicas
284. Uma carta escrita por Deus
“Sois uma carta de Deus, escrita não com tinta, 
mas com o Espirito de Deus vivo, 
não em tábuas de pedra, 
mas em tábuas de carne os corações”
 (2Cor 3,3).

Ainda ontem chorei de saudade,
relendo a carta, sentindo o perfume...
(Moacyr Franco) 

Noutro dia, enquanto celebrava a missa, vivi uma situação muito engraçada, mas tive que conter meu riso. De repente, no meio da celebração, o celular de uma pessoa tocou quatro ou cinco vezes. O problema não foi propriamente o fato de o celular ter tocado, mas sim a música que ele tocava: “Você me pede na carta que eu desapareça, que eu nunca mais te procure pra sempre te esqueça...” Versos da conhecida canção de Moacyr Franco e um dos clássicos da dupla João Mineiro e Marciano. Aquele não era o momento mais apropriado para essa música e, claro, muitos riram com essa situação inusitada. 
Terminada a missa, já em casa, fui escutar de novo a música e fiquei refletindo sobre a letra. Tentei encontrar algo além do óbvio que ela retrata, talvez fosse possível encontrar algo além daquela “sofrência” por causa da leitura de uma carta, que fez chorar de saudade e até sentir o perfume de sua amada.  
Foi então que comecei a pensar sobre o costume de escrever cartas, hábito que estamos perdendo. Recordei-me de uma amiga muito querida, que sempre teve muita facilidade com a língua portuguesa. Quando adolescente um amigo dela pediu-lhe para que o auxiliasse a escrever uma carta para uma pretendente; ela aceitou o desafio e foi ajudá-lo. Combinaram da seguinte forma: ela iria ditar as palavras e ele escreveria a carta. Afinal, a caligrafia do texto tinha que ser do rapaz.  O moço então, pegou papel e caneta e ficou à espera das primeiras palavras. Ela então disse – “Escreva assim: Querida, mil beijos sejam meus cumprimentos para ti”. O rapaz escutou aquelas palavras, mas, ao invés de escrevê-las, exclamou: “Começando assim, é claro ela vai desconfiar que não fui eu quem escrevi essa carta”. 
 Quantos casais trocaram cartas de amor! Meus pais, por exemplo, possuem algumas pastas, onde estão guardadas as cartas e postais que mandavam um para outro, durante o tempo de namoro. Moravam distantes geograficamente, pois meu pai é natural de Guarapari e minha mãe é de Candeias. As cartas encurtavam a saudade... O carteiro dizia pra minha mãe que aquele namoro não iria pra frente. Ela falava pra ele: “Vai sim, vai virar casamento e você vai ser um dos padrinhos”. Meus pais já completaram 35 anos de casados. No dia do casamento, o carteiro foi um dos padrinhos. (Caro leitor, esse é um assunto para outra crônica e – quem sabe? – até para um livro. Entretanto, não poderia, ao refletir sobre o costume de escrever cartas, não compartilhar essas duas histórias, que muito me encantam. Entretanto, por ora, deixemos de lado as cartas de amor...). 
Aprofundando um pouco sobre esse tema, recordaremos que a Bíblia possui também algumas Cartas, chamadas de epístolas, escritos dirigidos às primeiras comunidades cristãs. A maioria das Cartas do Novo Testamento foram escritas pelo apóstolo Paulo, mas, como sabemos, outros autores intitulados Tiago, Pedro, Judas e João também escreveram Cartas. De algum modo, é possível também compreender a bíblia inteira, como uma grande carta de Deus para a humanidade. 
Há um versículo da Segunda Carta de São Paulo aos Coríntios que merece destaque nesta nossa reflexão. Assim escreveu o apóstolo: “Sois uma carta de Deus, redigida por nosso intermédio, escrita não com tinta, mas com o Espirito de Deus vivo, não em tábuas de pedra, mas em tábuas de carne, os vossos corações” (2Cor 3,3).
Interessante essa analogia feita por Paulo. Cada pessoa é uma carta de Deus. Mistério fascinante! Que profundo perceber que outras pessoas possam reconhecer na nossa vida a caligrafia de Divino Escritor. 
É bonito pensar que Deus faz de nós uma carta, porém, é ainda mais lindo imaginar que também nós podemos escrever cartas para ele. Aliás, em um retiro espiritual do qual participei, o orientador sugeriu que escrevêssemos uma carta para Deus, abrindo nosso coração para ele, falando sobre nossos sonhos, alegrias, angústias e desafios, enfim, escrevendo sobre nossa vida. 
Um outro exercício interessante foi proposto por uma psicóloga. Num outro encontro, essa assessora pediu que fizéssemos uma carta para nós próprios, imaginando o que cada um gostaria dizer para si daqui a 10 anos. Foi fantástico. 
Talvez, caro leitor, você poderia também, aceitar uma dessas propostas, escrever uma carta para Deus ou uma carta para você mesmo. Pergunto: “O que você escreveria para Deus? Falaria sobre as coisas que está vivendo, as dificuldades que enfrenta, as alegrias vivenciadas? E, o que escreveria pra você mesmo?” Certamente, inúmeras são as palavras que gostaríamos de escrever para nós próprios. Imagine-se daqui alguns anos recebendo essa carta que escreveu para si. Talvez, como na canção, pode ser que chore de saudade ou de alegria relendo o que você escreveu. 
Antes de concluir essas linhas, fiquei admirado ao pensar que aquela música, motivo de riso durante a missa, tenha possibilitado esta reflexão. Agora compreendi porque dizem que Deus escreve direito por linhas tortas. Às vezes, olhamos para nossa vida e ficamos admirados com aquela caligrafia perfeita, mas, em outros trechos, nos deparamos com uma letra pouco legível. 
Por fim, ainda recordo do que Santa Teresa de Calcutá dizia: “Sou apenas um lápis na mão de Deus, é Ele que escreve”. É isso o mais importante, não nos esqueçamos, somos uma carta escrita por Deus.