275. O fogo divino
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22.05.2023 | 3 minutos de leitura
Crônicas

“Apareceram, então, línguas como de fogo” (At 2,3)
"Não é o modo como uma pessoa fala de Deus
que me permite saber se ela mora no fogo do amor divino,
mas o modo como fala das coisas terrenas"
(Simone Weil).
O fogo sempre foi um elemento que intrigou o ser humano. Desde os raios ziguezagueando nos ares, cortando os céus em horas de tempestades, até a pequena chama que ainda fumega no fogão à lenha, ambos despertam curiosidades nas crianças. Os mais velhos – a quem cabe o cuidado dos pequenos – recomendam: “não brinquem com fogo!”. E na minha terra, para ameaçar os meninos-machos desobedientes, a sabedoria popular dizia: “Quem brinca com fogo, amanhece mijado”. Nunca entendi o dito, mas sempre soube de sua eficácia de controle.
Sem o fogo não há vida, assim como sem a água. Sem sol, que é uma bola incandescente, pereceríamos; assim como somos ameaçados por seu excesso especialmente em tempos de aquecimento global. Além disso, o fogo é um dos quarto elementos fundamentais juntamente com a água, o ar e a terra. Pelo fogo vivemos; por ele perecemos…
Sabendo do valor desse arquétipo, o povo da bíblia não o deixou de fora de seus escritos. Desde o começo, no Gênesis, no primeiro relato da criação, o fogo aparece como luzeiros, que iluminam o dia e fazem contraste às trevas (Gn 1,14).
Depois, o fogo segue junto ao povo hebreu, como uma sombra que nos persegue. Moisés viu a sarça arder; o fogo sobre o mato iluminava tudo mas não o consumia. Curioso, se aproximou e foi questionado acerca de sua alienação. Seu povo sofria e ele tranquilamente pastoreava as ovelhas de seu sogro. Sua consciência ardente resolveu tomar partido dos oprimidos e contribuir com a libertação de sua gente das garras afiadas da exploração do Egito. É o que nos conta o livro do Êxodo (Ex 3,1-4). Mais tarde, já no deserto, quando Deus firmou a aliança com seu povo por meio de Moisés, conta o autor, que um fogo desceu do céu para demarcar a manifestação divina, o que denominamos de teofania (Ex 19,18).
Noutra narrativa bíblica, é a vez de Elias experimentar o poder do fogo. Numa disputa com os sacerdotes de Baal, deus dos cananeus, no Reino do Norte, capital Samaria, Elias fez fogo descer do céu e consumir sua oferenda, numa espécie de gincana pra ver que deus tinha mais poder: o deus de Elias (YHWH) ou o deus dos cananeus (Baal). Na juventude, o Grupo de Jovens da paróquia cantava: “Elias orou e o fogo desceu; dá glória a Deus”. Por desse relato da disputa envolvendo o fogo, o próprio Elias foi denominado como profeta do zelo devorador.
Quando o povo do Reino do Sul, capital Jerusalém, foi deportado para a Babilônia, por Nabucodonosor, encheu-se de tristezas por motivos tantos, mas um deles era porque, na Babilônia, reinava o deus Marduque e o Deus dos hebreus já estava preso ao Templo, em Jerusalém desde os anos do rei Salomão. Ezequiel, profeta que acompanhou o povo ao exílio, foi aquele que derrubou este mito da “prisão de Deus” a uma instituição. E descreveu ter visto uma carruagem de fogo acompanhando a procissão dos deportados, ou seja, Deus mesmo partiu com sua gente para o labor do exílio.
No Novo Testamento, o fogo também marca presença. Jesus batizará com fogo e não com água, promete o batista no Evangelho de Marcos (1,8). Lucas e Mateus seguem na mesma esteira marcana dando continuidade a essa ideia.
Segundo Lucas, quando Jesus procurou abrigo na Samaria e não encontrou, dois de seus discípulos, cujo apelido era filhos do trovão, queriam fazer descer fogo sobre a cidade e destruí-la. Como Jesus é da paz, repreendeu seus seguidores e seguiu em frente rumo a Jerusalém (Lc 9,54-56).
Nos Atos dos Apóstolos, obra também lucana, o fogo tem papel importante. Está no pentecostes de Atos 2 em forma de línguas, que significa comunicação; uma comunicação ardente do evangelho de tal modo que todos os ouvintes não só escutavam o que diziam os seguidores do Nazareno, mas podiam compreender perfeitamente o que era dito. O Espírito Santo é comparado ao fogo. Consome por dentro, devora, mas purifica para gerar maior comunhão com aquele que dá o Espírito.
O poeta Gibram escreveu: “Quando o amor acenar, siga-o […] e submete ao fogo para transformar em pão para alimentar o corpo e o coração”. Os grandes místicos sempre entenderam o amor, especialmente o divino, como um fogo, capaz de transformar tudo. Para Simone Weil, o que permite saber se alguém está vivendo consumido pelo fogo do amor de Deus não é tanto o que ela fala sobre o próprio Deus, mas o modo como ela compreende o humano.
Nesses tempos litúrgicos, em que celebramos Pentecostes, talvez seja bom toda a ecclesia fazer um revisão sobre esse fogo devorador do Espírito, que mostra sua ação na vida concreta daqueles que creem. Pois, afinal, não é quem diz “Senhor, Senhor que entrará no Reino” (Mt 7,21), mas aquele que vive os valores do evangelho pela força do Espírito.
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