139. (In)justificação do mal

“Não pagueis o mal com o mal,
antes vence o mal com o bem” (Rm 12,17)
“Se Deus vier, que venha armado"
(Guimarães Rosa)
Tenho ficado escandalizada com o crescimento do moralismo hipócrita de nossa sociedade. Por todo lado nas redes sociais, jovens, adolescentes e tantos outros defendem a barbárie, a famosa lei do “dente por dente, olho por olho” em nome do bem. Símbolo dessa corrente integrista que deseja banir o mal da terra é a imagem que circula a internet de um adolescente infrator, tatuado na testa por um torturador implacável e cruel que teria sido sua vítima. Em vez de educação, cultura, esporte, lazer, direitos humanos em geral, oferecemos àqueles que a vida já puniu com pobreza, discriminação, exclusão e sofrimentos mil, uma tatuagem na testa: “Eu sou ladrão e vacilão”. Uma imagem degradante, reflexo da maldade humana e da síndrome que acomete muita falsa gente boa hoje: um puritanismo farisaico e ridículo que lhes permite estar acima do bem e do mal, fazendo “justiça” com as próprias mãos.
Para completar nosso escândalo – meu e de qualquer pessoa de bom senso –, as redes sociais multiplicaram as justificativas para a atitude do pretenso tatuador. Não faltou quem concordasse e desse seu apoio a esse criminoso em nome da honestidade, da moralidade e da boa ordem social. Um horror! Para quem professa a genuína fé cristã, o escândalo ganha salto exponencial quando esse apoio vem de pessoas que se dizem cristãs. Alguns frequentam igreja, participam do culto católico e usam camiseta com os dizeres “se Deus é por nós, quem será contra nós?”. Vi até ex-seminaristas se posicionarem favoravelmente a essa crueldade, instrumentalizando a moral cristã para justificar uma faxina social de extermínio dos delinquentes, coisa que daria inveja a Hitler.
A lei de Talião – famosa por permitir vingança – tornou-se “fichinha” para essa gente. O famoso “dente por dente; olho por olho” (Ex 21,23) ficou humilhado diante da crueldade do tal tatuador que, de tatuador, não tem nada, mas, de marginal, tem muito mais que o adolescente assaltante. Convém explicar que a lei de Talião existia exatamente para evitar a barbárie e a vingança desproporcional a um mal recebido. Se uma pessoa furasse o olho da outra, só era permitido ao agredido furar o olho do agressor. Nada mais! Não valia espancá-lo, torturá-lo ou matá-lo. Se alguém quebrasse o dente da outra, não era permitido outra punição a não ser quebrar o dente daquele que o atacou. Nada de violência desproporcional àquela que o feriu. Com a lei de Talião, os povos antigos conseguiram uma ordem mínima para garantir a convivência. Ao olhar, porém, para o adolescente tatuado, salta aos olhos a desproporcionalidade doa desforra. A crueldade humana está estampada em cada letra que foi registrada naquela testa juvenil.
A respeito de pagar o mal com o mal, Jesus, no Evangelho de Mateus, ensina a superação desse princípio de retribuição por meio do perdão e do amor: “Ouvistes o que foi dito ‘dente por dente; olho por olho’. Eu, porém, vos digo: Se alguém te bater numa face, oferece também a outra...” (Mt 5,38). Certamente, o evangelista Mateus não está ensinando sua comunidade a ficar passiva e a sofrer os horrores do opressor sem tentar salvaguardar a própria vida. Não é isso! Ao colocar essas palavras na boca de Jesus no famoso sermão da montanha, Mateus deseja ensinar sua comunidade que o mal só pode ser interrompido com o bem, que a violência só cessará com gestos de paz, que o ódio só terá derrota quando nocauteado pelo amor gratuito e generoso. Assim, quem conhece minimamente o evangelho e se diz cristão não pode apoiar uma crueldade como a citada acima.
Mas não é preciso ser cristão para perceber o absurdo desses grupos integristas, que, em nome da moral, praticam exatamente a imoralidade. Basta ter um coração dentro do peito, em vez de uma pedra, e um pingo de vergonha na cara para admitir as próprias debilidades e infrações. Lamento dizer, mas a tatuagem na testa do adolescente diz mais sobre o pretenso tatuador do que sobre o menor infrator; as postagens de apoio a essa barbárie dizem mais sobre a índole de quem postou que sobre a infância delinquente de nosso país. E confesso: tenho mais medo desse louco justiceiro que do menino delinquente e sinto mais horror dos cristãos que apoiaram essa barbaridade que de muitos menores infratores fazendo arrastão pela cidade. Como disse Guimarães Rosa, a situação não está boa. “Se Deus vier, que venha armado”, não contra os menores infratores certamente (pois desses ele é o advogado), mas contra os maiores não-infratores, aqueles que nunca praticaram uma mínima corrupção, mas são incapazes de amar, a não ser a si mesmos – é claro!
-
Resiliência em tempos maus02.10.2026 | 1 minutos de leitura
-
Não abandones o velho amigo, o novo não será semelhante a ele (Eclo 9,14).29.09.2026 | 1 minutos de leitura
-
Resistência esperançosa25.09.2026 | 1 minutos de leitura
-
Não abras teu coração a qualquer um, para que não venhas a afastar de ti a felicidade (Eclo 8,22).22.09.2026 | 1 minutos de leitura
-
“Não te aconselhes com os estultos, pois não poderão ocultar o teu segredo” (Eclo 8,20).15.09.2026 | 1 minutos de leitura
-
Não partas em viagem com um fanfarrão, para que não agraves os teus males (Eclo 8,18).01.09.2026 | 1 minutos de leitura
-
No encalço da paz31.08.2026 | 3 minutos de leitura
-
Resistência esperançosa28.08.2026 | 1 minutos de leitura
-
Não te mantenhas junto ao insolente, para que não se ponha a armar laços à tua palavra (Eclo 8,14).25.08.2026 | 1 minutos de leitura
-
Dias melhores virão24.08.2026 | 5 minutos de leitura
No encalço da paz31.08.2026 | 3 minutos de leitura
Dias melhores virão24.08.2026 | 5 minutos de leitura
Quando a mentira veste roupa de verdade25.06.2026 | 7 minutos de leitura
A vida humana na era da Inteligência Artificial11.06.2026 | 7 minutos de leitura
301. Contemplando o mistério21.07.2025 | 5 minutos de leitura
300. Incompletude14.07.2025 | 4 minutos de leitura
299. Nas tramas da poesia07.07.2025 | 4 minutos de leitura
298. Sem anistia30.06.2025 | 4 minutos de leitura
297. Seguir Jesus: uma resposta que nos recria25.06.2025 | 4 minutos de leitura
296. Cristãos de primavera22.07.2024 | 3 minutos de leitura

