Dias melhores virão
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24.08.2026 | 5 minutos de leitura
Crônicas

“Disseste: ‘Quem é esse que obscurece o meu projeto sem nada entender?’
– Pois eu falei, sem nada entender, de maravilhas que ultrapassam meu conhecimento. (Jó 42, 3)
“Vivemos esperando dias melhores
Dias de paz, dias a mais, dias que não deixaremos para trás.
Vivemos esperando o dia em que seremos melhores.
Melhores no amor, melhores na dor, melhores em tudo”.
(Jota Quest)
Vivemos uma onda de pessimismo e desalento, que parecem marca de nossos dias. Gastamos energias imensas para conservar o otimismo e manter a chama da esperança acesa. A internet, que visibiliza uma enxurrada de notícias ruins, não favorece o bom humor e a sanidade mental. Todo dia a gente mata um leão – ou muito mais – para continuar crendo, esperando e amando, sem desistir dos bons princípios que nos trouxeram até aqui.
O advento da Inteligência Artificial favoreceu avanços na história, mas criou um universo paralelo de vídeos falsos, que até aos mais avisados parece difícil discernir entre a verdade e a mentira, entre o fato acontecido e a mera montagem envolvendo pessoas, cenários e narrativas. Seria necessária muita energia – além de tempo – para verificar cada mensagem recebida, para saber se ela é digna de credibilidade mínima. Assim, na correria em busca da sobrevivência – afinal os pobres mortais precisam trabalhar numa jornada exaustiva na escala 6x1 para pagar boletos –, muitos acabam acreditando no “conhecimento” veiculado no whatsapp ou resolvem se alienar de tudo para sobreviver ao caos.
Não é possível culpar o trabalhador por seu desinteresse pelas questões sociais, nem botar nas costas dos pobres assalariados a conta da alienação política. Há uma máquina poderosa trabalhando diuturnamente para nos cansar, nos exaurir, nos deixar completamente fadigados e sem vontade de viver. Caminham de mãos dadas a indústria da mentira e as elites dominantes nos crucificando com baixos salários, jornadas exaustivas e muita desinformação, mas muita desinformação mesmo.
Não tem psiquê que aguente isso. Não tem inteligência emocional que dê conta de tanta pressão. Não tem saúde mental que resista a essa perversão. Ninguém é de ferro! Todo mundo precisa de um respiro, de um pouco de paz, de tempo para gerir as notícias, de recursos financeiros mínimos para ser uma pessoa conectada com a realidade. Quando a gente tem de vender o almoço para comprar a janta, quem promete merenda de graça no intervalo das refeições ganha nosso afeto.
Quem tem uma tendência a crer procura uma igreja do mercado, daquele tipo que promete curas e milagres, prosperidade e bem estar. Muitos abdicam da capacidade de pensar e entram de cabeça num mundo obscuro de manipulação espiritual – e até financeira – que estraga o resto do bom senso que sobrava. Esse mundo mágico-pentecostal que se descortina parece a única tábua de salvação para os mais pobres e sem maiores possibilidades culturais.
Outros se jogam na bebida, nas drogas, no sexo, na estética do corpo perfeito. Não entendem que a bebida ou o sexo, ou qualquer outra dessas alternativas, devem ser um plus, um mais, um acréscimo... Refugiar-se em qualquer dessas opções sem compreender esse princípio parece temerário e compromete a vida toda.
Tem gente que, no desespero, se atola no jogo, como é o caso das bets. Um caminho muitas vezes sem volta. Uma vez feito o primeiro lance, a pessoa se vê tragada pelo vício das apostas, na esperança de dinheiro fácil para superar as crises financeiras e até existenciais. E quanto mais ela se debate, mais a areia movediça da dívida vai fazendo-a afundar. Triste realidade que já se tornou problema de saúde pública no Brasil e que exige uma decisão corajosa dos governantes para por fim a essa farra do enriquecimento de uns em detrimento do empobrecimento e da morte de tantos.
Há aqueles que se encontram nos esportes, na ginástica, na arte, na dança, na música, na literatura... Um caminho que dá prazer e não compromete a sanidade, ao contrário, devolve-a. Mas este itinerário não se encontra acessível a todos, infelizmente. Esporte, lazer e cultura custam caro e quem mal consegue pagar as contas não pode se dar a esse luxo.
Então, os dias vão ficando cinzentos, sombrios, carregados e o desalento vai tomando conta da gente até ao ponto de faltar vigor para recomeçar a cada manhã.
Diante desse cenário, é preciso continuar crendo com fé lúcida e esperançosa. Não a fé alienada e subserviente dos dominados, mas a fé revolucionária de Jesus de Nazaré. É preciso gritar bem alto: “Dias melhores virão” ou cantar bem bonito: “Amanhã vai ser outro dia”. Não podemos dar a nossos algozes o direito de nos aniquilar, de destruir em nós o que temos de mais sagrado: a capacidade de ver o amanhã com bons olhos.
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