No encalço da paz
Ler do Início
31.08.2026 | 3 minutos de leitura
Crônicas

“Bem-aventurados os pacificadores, porque serão chamados filhos de Deus” (Mt 5,9).
“Deve haver um lugar dentro do seu coração
Onde a paz brilhe mais que uma lembrança
Sem a luz que ela traz já nem se consegue mais
Encontrar o caminho da esperança”.
(Roupa Nova)
“Um gritava com o outro, cada qual querendo ter razão. E esmurravam-se e proferiam ofensas, que saíam de suas bocas como água que jorra da fonte, sem nenhum esforço para escolher as palavras. E eram dois atletas, cujo esporte se baseia na disciplina.”, contou-me a expectadora da cena.
Parece que estamos involuindo. Perdemos a capacidade de dialogar? Perdemos a civilidade? Não sabemos mais escutar o outro, ouvir sua versão, entender seus dramas, sentir suas dores? Está entrando em extinção a espécie humana que conserva o bom senso e a razão?
É verdade que sempre existiram guerras, desavenças, disputas e contendas. Mas, falemos a verdade, a brutalidade e a violência – apesar de persistirem – eram entendidas como algo a ser superado e não como virtude. Mas uma chave virou na sociedade e não percebemos exatamente quando foi.
O processo foi acontecendo lentamente. Vejamos alguns sinais da escalada do fascismo, não necessariamente nesta ordem cronológica. Primeiro vieram os apresentadores de telejornais que expunham a criminalidade e a violência urbana, fazendo escorrer sangue da TV. “Põe na tela”, diziam. E lá estavam o sangue e a morte estampados. Fizeram-nos crer que todos são inimigos, que ninguém é confiável, que o perigo se encontra em cada esquina.
E vieram os políticos que se aproveitaram desse caos e prometeram combater violência com mais violência ainda. E facilitaram a compra de armas para a população, ensinaram nossa gente a fazer arminha com a mão, fortaleceram os clubes de tiro, correram atrás de opositores com revólver em punho em plena luz do dia... Defenderam bandidos, pessoas definitivamente ligadas ao crime; condecoram presidiários violentos; fizeram do Estado um braço do crime organizado. E nossa gente, que antes se reprimia tentando conter a violência, tentando aprender o caminho da civilizade para a vida em comum, parece ter desistido da superação de suas próprias pulsões destrutivas. Afinal, os líderes da nação davam exemplo do caminho da barbárie. E, pouco a pouco, assistimos à escala da grosseria e da violência, que mostra seus sinais em todos os lugares, até nos esportes.
Nas redes sociais, o ódio escorre. Ofensas, xingamentos, discursos de misoginia, de lgbtfogia, de desprezo aos pobres... O fascismo cresce até entre os cristãos, um fenômeno preocupante aos meus olhos de teóloga. A fé cristã, antes entendida como caminho de superação de si e de luta pelo bem comum, se tornou mero meio para alcançar prosperidade e enriquecimento, ainda que às custas da exploração do outro e do ódio social. O mal escoa tranquilamente saindo do esgoto humano que estava subterrâneo, soterrado pelo princípio da civilidade e do bem viver. Parece bonito mostrar arrogância e agir com violência. Até nas igrejas cristãs esse princípio está presente.
Fico me perguntando o que os cristãos fizeram com os ensinamentos de Jesus, com inúmeros textos bíblicos que aconselham à paz em vez da discórdia. Será que ainda dá tempo de recuperar o bom senso, assentar o juízo, como dizia meu pai, e retomar o caminho da ajuda mútua, do zelo pelo outro, do cuidado com os mais fracos e da diplomacia entre os povos? Continua ecoando forte no meu coração a voz de Jesus na montanha: “Bem-aventurados os pacificadores, porque serão chamados filhos de Deus” (Mt 5,9).
-
Resistência esperançosa28.08.2026 | 1 minutos de leitura
-
Não te mantenhas junto ao insolente, para que não se ponha a armar laços à tua palavra (Eclo 8,14).25.08.2026 | 1 minutos de leitura
-
Dias melhores virão24.08.2026 | 5 minutos de leitura
-
Na corda bamba da esperança21.08.2026 | 1 minutos de leitura
-
“Não desprezes a fala de velhos sábios e sejam-te familiares os seus provérbios” (Eclo 8,9)18.08.2026 | 1 minutos de leitura
-
Experiência bendita14.08.2026 | 1 minutos de leitura
-
O dom da hospitalidade07.08.2026 | 1 minutos de leitura
-
Não te alegres com a morte do inimigo, lembra-te de que todos morreremos (Eclo 8,8).04.08.2026 | 2 minutos de leitura
-
Não despreze alguém na sua velhice, pois nós também ficaremos velhos (Eclo 8,7).28.07.2026 | 1 minutos de leitura
Dias melhores virão24.08.2026 | 5 minutos de leitura
Quando a mentira veste roupa de verdade25.06.2026 | 7 minutos de leitura
A vida humana na era da Inteligência Artificial11.06.2026 | 7 minutos de leitura
301. Contemplando o mistério21.07.2025 | 5 minutos de leitura
300. Incompletude14.07.2025 | 4 minutos de leitura
299. Nas tramas da poesia07.07.2025 | 4 minutos de leitura
298. Sem anistia30.06.2025 | 4 minutos de leitura
297. Seguir Jesus: uma resposta que nos recria25.06.2025 | 4 minutos de leitura
296. Cristãos de primavera22.07.2024 | 3 minutos de leitura
295. Dar um tempo15.07.2024 | 5 minutos de leitura

