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100. Colocar a pessoa no centro

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28.07.2021 | 2 minutos de leitura
Tânia da Silva Mayer
Diversos
100. Colocar a pessoa no centro
O tempo em que vivemos é simplesmente assombroso. Perguntamo-nos qual valor a vida possui, qual valor possui a vida de cada pessoa cuja dignidade é vilipendiada em diferentes instâncias e de diferentes formas. O convite para contemplar a realidade que nos cerca deve ser aceito a partir do exercício do princípio da resignação. Porque a lama na qual estamos mergulhados é tão densa que corremos o risco de nos deixarmos enterrar, seja de tristeza, revolta contida ou mesmo de depressão própria dos tempos caóticos. Para não sucumbir, é preciso ver-se a si mesmo compartilhando com outras pessoas e grupos os espaços da luta incansável pela dignidade humana e por um mundo melhor para todas as pessoas, no qual é possível o cultivo de uma ética do bem viver. Mas isso só se torna possível se formos capazes de romper com o sistema social que atua a partir do centro criando periferias de negação à vida e sua inalienável dignidade.
Há algo na práxis histórica de Jesus Cristo que não pode ser negado: trata-se do fato de que ele trazia todas as pessoas com as quais se encontrava para o centro, mesmo sem ocupá-lo. Esse movimento, para além de sua força simbólica, sinaliza uma mudança de paradigma. Ao trazer a pessoa para o centro, Jesus provoca uma ruptura cósmica social, abala as periferias reconhecendo-lhes valores até então negados pelos poderes e forças centrífugas atuantes na sociedade em vistas da manutenção do status quo radicado em relações assimétricas e injustas. Por isso, tal movimento, que vai aos poucos se configurando como uma ética para Jesus, é decisivo na sua práxis que se realiza em vistas de uma transformação mais potente da realidade e da história. Logicamente, essa transformação objetiva a efetivação do Reino de Deus no aqui e agora da história humana. Precisamente, a chegada do Reino pelas palavras e atitudes de Jesus inaugura na vida do mundo e das pessoas um complexo de relações nas quais nenhuma pessoa vê-se impedida de se realizar humanamente no mundo ou em disposição de impedir que outros se realizem.
Toda essa práxis é bastante significativa, porque ela é ressonância de um modo de olhar para o mundo e para as relações, apostando na dignidade humana. Num momento em que observamos diversos crimes praticados contra a dignidade e os direitos inalienáveis do ser humano, a práxis de Jesus interpela seus seguidores e seguidoras a darem um passo em direção ao humano (local) e à humanidade (global). Trata-se de percorrer o mesmo caminho de Deus, que abnega sua condição para assumir integralmente a fragilidade de nossa existência. Nesse sentido, é urgente, no nosso tempo, um olhar antropo-teológico para cada pessoa, isto é, um olhar de misericórdia. Isso significa cultivar uma práxis que parte do coração que discerne a realidade e age imbuído das reais necessidades das pessoas, de modo a devolver-lhes a dignidade que lhes foi negada ou a que lhes foi roubada criminosamente. Ainda nessa esteira, agindo assim, promove-se a dignidade de cada pessoa a partir da mesma lógica jesuânica de trazer para o centro de nossas atenções e ações aqueles que cotidianamente são postos à margem, repelidos para as periferias existenciais, porque de lá servem aos que fazem a roda girar a partir do centro de poder e de privilégios.
O tempo em que vivemos é decisivo para o ser cristão. Ou de fato assumimos o nome que carregamos ou podemos nos encerrar no limbo dos covardes que se omitem diante da urgência da defesa da dignidade da vida de cada pessoa num momento em que a humanidade é atacada, não apenas por um vírus mortal, mas pelos poderosos que dele se apropriaram com a finalidade de enlouquecer, empobrecer e matar quantas pessoas forem possíveis. Nesse sentido, é imprescindível retomarmos a ética de colocar a pessoa no centro e lutar por seu protagonismo e vida. O contrário dessa práxis é o fracasso humano e cristão, é a devastação integral, o fim da espécie.