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106. Feijão ou fuzil?

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10.09.2021 | 1 minutos de leitura
Tânia da Silva Mayer
Diversos
106. Feijão ou fuzil?
A fome é uma realidade cruel e devastadora para milhares de famílias brasileiras. Os dados de institutos de pesquisas e órgãos de impressa comprovam o que já pode ser percebido muito proximamente a nós a partir de relatos do cotidiano e das cenas que observamos atentamente pelas ruas de nossos bairros, sobretudo nas periferias. Uma realidade alarmante como essa, contudo, não pode ser tratada apenas como dados estatísticos, uma vez que a alimentação é, sabemos, fundamental para que qualquer pessoa possa continuar viva. Assim, não é demais recordar que ao falar da fome, no substrato, estamos falando do jogo entre a vida e a morte.

O ser humano sempre conviveu com a fome. A escassez de alimentos é uma realidade que ocorre de tempos em tempos. As condições climáticas e de cultivo e a agricultura, sem dúvidas, determinam sobremaneira o acesso dos seres humanos ao alimento, de modo que nem sempre a procura correspondeu à oferta. Obviamente, é compreensivo que ainda hoje esses fatores possam incidir sobre a mesa de milhares de pessoas em todo o mundo. No entanto, é preciso questionar o fato objetivo de que um país que se projeta internacionalmente como um exportador de alimentos apresente um número crescente de pessoas convivendo com a miséria, a pobreza e, consequentemente, com a fome.

O cristianismo rompeu com uma teologia retributiva que acreditava que os infortúnios e desgraças que se abatiam sobre uma pessoa eram frutos do pecado ou do afastamento do sofredor de Deus. Embora ainda possamos encontrar discursos alinhados a essa compreensão, o retorno às fontes da fé mostrou pelo exemplo de Jesus que o Deus da vida jamais interferia punitivamente no curso da história humana, a fim de subtrair de qualquer pessoa que seja sua dignidade intrínseca. Por isso mesmo, o horror da fome ou de qualquer outro mal acometido contra o ser humano não podem encontrar respaldo ou justificativa na teologia cristã, precisamente porque está posto que Deus não se compara aos juízes e aos carrascos ou a um jogador alienado e manipulador.

Posto isso, caem por terra dois possíveis argumentos no Brasil cristão de milhares de famintos e miseráveis. A fome não é castigo de Deus. Ademais, o Deus de Jesus é aquele que providencia o pão dos céus e é aquele que se faz pão, saciando nossas fomes no tempo. Além disso, é aquele que corrige a ética ordenando: dai-lhes vós mesmos de comer. Tampouco, a fome é provocada pela escassez de alimentos em nosso país, um grande produtor e exportador nesses nossos tempos. Então, o que faz com que milhares de pessoas estejam passando fome? Quais são as causas de tragédia tão grande? A injustiça, sem dúvidas. Tanto a pessoal, quanto a coletiva que é sistematizada numa economia que degrada e mata. Arroz e feijão, arroz ou feijão eram alternativas até então em nossas mesas. Feijão ou fuzil: mistura demasiadamente heterogênea, posto que impõe a derrota da vida frente a morte. Morre-se de fome ou de fuzil. Como José Américo de Almeida sentenciou em sua obra A bagaceira: "Há uma miséria maior do que morrer de fome no deserto: é não ter o que comer na terra de Canaã".
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