Nós, os poucos, os felizes poucos!
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28.10.2026 | 10 minutos de leitura

Diversos

O discurso da vitória do povo brasileiro - Uma paráfrase livre do discurso de Henrique V no dia de São Crispim, de William Shakespeare
Quem é que ainda deseja mais gente?
Meus amigos, meus companheiros, meus irmãos de luta, não!
Se estávamos destinados a perder, éramos nós que perderíamos a esperança de um país inteiro. Mas, se estávamos destinados a vencer, quanto menor fosse o nosso exército, maior seria a nossa glória!
E nós vencemos!
Não porque tivéssemos as maiores armas, o dinheiro mais farto, os algoritmos mais poderosos ou os jornais mais influentes. Vencemos porque havia algo que eles não conseguiram comprar, manipular ou destruir: a esperança de um povo que se recusou a entregar o próprio destino.
Não, meus amigos, não desejem que tivéssemos sido mais poderosos. Não desejem que tivéssemos tido mais dinheiro, mais propaganda, mais máquinas, mais influência. Não desejem que tivéssemos contado com a simpatia dos donos do mundo. Porque, se tivéssemos tudo isso, talvez não soubéssemos do que somos capazes quando só nos resta a coragem.
Se é pecado desejar a honra de ter estado ao lado do povo quando o povo mais precisou, então que eu seja o maior dos pecadores! Porque eu não trocaria por fortuna alguma a honra de ter caminhado ao lado daqueles que não se renderam.
Olhem ao redor!
Olhem para aqueles que enfrentaram as grandes empresas de tecnologia, as máquinas de manipulação digital, os exércitos de mentiras fabricadas e os algoritmos que tentaram transformar o ódio em verdade; para aqueles que resistiram às milícias, às ameaças, à violência política e aos poderosos que imaginavam poder comprar até a consciência de uma nação; para aqueles que enfrentaram a influência de Donald Trump, as pressões internacionais e a arrogância dos que acreditam que os povos devem obedecer às ordens de quem se julga dono do mundo.
Olhem para aqueles que denunciaram as bets que transformam o desespero em negócio e a esperança dos mais pobres em mercadoria; para aqueles que desafiaram a mídia hegemônica, os discursos fabricados, as manchetes seletivas e as vozes que anunciaram a derrota antes mesmo de a batalha começar; e, sobretudo, olhem para aqueles que fizeram tudo isso sem aparecer nas telas, sem receber aplausos, sem ganhar dinheiro e sem esperar recompensa, movidos apenas pela coragem de quem se recusa a entregar o destino de seu país aos donos do poder!
Foram eles que carregaram esta vitória nos ombros.
Não! Não desejem que tivéssemos sido mais numerosos entre os poderosos. Orgulhem-se de termos sido tantos entre os que nunca tiveram poder algum!
E, se alguém não teve estômago para esta luta, se alguém preferiu o conforto à resistência, se alguém teve medo de perder amigos, seguidores, emprego ou reputação, que não seja agora obrigado a vestir a camisa dos que lutaram.
Não queremos heróis de última hora.
Que venham os que estiveram conosco desde o começo, os que chegaram depois, os que tiveram dúvidas, os que erraram e aprenderam, os que um dia tiveram medo e, mesmo assim, decidiram continuar. Porque a democracia não exige que sejamos destemidos. Exige apenas que não deixemos o medo decidir por nós.
Mas que ninguém se engane: esta vitória não nasceu nos palácios e reuniões de cúpulas.
Ela nasceu nas universidades, nas escolas, nos bairros populares, nas igrejas que não se ajoelharam diante do autoritarismo, nas rodas de conversa, nas cozinhas, nas calçadas e nas pequenas salas onde alguém, diante de um celular, decidiu dizer a verdade quando mentir parecia muito mais vantajoso.
Lembrem-se dos estudantes da UFF! Lembrem-se dos jovens que ocuparam as ruas por todo o Brasil, que ergueram cartazes, cantaram, marcharam e descobriram que a política não é propriedade dos políticos, mas um instrumento nas mãos de quem não aceita viver de cabeça baixa.
Lembrem-se das mídias alternativas, dos jornalistas independentes, dos comunicadores populares, dos blogueiros, dos youtubers, dos que fizeram transmissões ao vivo, dos que gravaram vídeos, dos que compartilharam informações e dos que, mesmo com poucos seguidores, alcançaram milhares de consciências.
Lembrem-se do exército de André Janones, dessa gente que entrou na batalha das redes, que aprendeu a disputar a narrativa, a enfrentar as máquinas de propaganda e a responder ao ódio sem entregar aos adversários o monopólio da palavra e que fizeram da internet uma trincheira democrática, mesmo quando as grandes plataformas pareciam favorecer os que tinham mais dinheiro, mais influência e menos compromisso com a verdade.
E lembrem-se, sobretudo, dos nossos velhinhos e das nossas velhinhas!
Ah, os nossos velhinhos e as nossas velhinhas!
Aqueles que já tinham trabalhado a vida inteira, criado seus filhos, enterrado seus mortos e enfrentado tantas dificuldades, mas que, mesmo quando o corpo já pedia descanso, encontraram forças para defender a democracia que ajudaram a conquistar. Aqueles que sabem, porque viveram, que a liberdade não cai do céu pronta e acabada.
Aqueles que conheceram o medo, que ouviram falar das prisões, das perseguições, da censura e da violência de um tempo em que discordar podia custar a própria vida. Aqueles que não queriam passar os últimos anos de suas vidas vendo seus netos crescerem sob a sombra do autoritarismo. Eles também foram para a luta.
E ninguém poderá dizer que esta vitória foi apenas de um partido, de um candidato ou de um punhado de dirigentes. Esta vitória foi de um povo que se recusou a desaparecer da própria história!
E, se algum dia alguém perguntar quem esteve aqui, neste momento decisivo, que se conte sobre todos os que lutaram.
Que se fale de Lula, sim, porque sua trajetória se confunde com a história de milhões de brasileiros que nunca desistiram de sonhar com um país mais justo.
Mas que também se fale dos anônimos! Dos que não tiveram seus nomes publicados, dos que não apareceram nas fotografias, dos que não receberam convites para as celebrações e dos que talvez nem sequer saibam que, em algum momento, sua coragem mudou o rumo desta história.
Que se fale das mulheres que enfrentaram o machismo e a violência política.
Dos negros e negras que se recusaram a virar uma caricatura violentamente acorrentada por mais um homem branco.
Dos trabalhadores que, depois de um dia inteiro de serviço, ainda encontraram disposição para defender seus direitos.
Dos professores que ensinaram que a liberdade exige pensamento crítico.
Dos artistas que transformaram a indignação em música, poesia, teatro e riso.
Dos pastores, padres, mães de santo e lideranças religiosas que compreenderam que a fé não pode ser instrumento de opressão e que Deus não precisa da mentira para defender a verdade.
Dos jovens que não aceitaram herdar um país governado pelo medo.
E dos velhos que se recusaram a deixar como herança um país sem liberdade.
Quando o tempo passar, muita coisa será esquecida. Esqueceremos algumas discussões, algumas palavras, algumas provocações e até mesmo os nomes de certos adversários.
Mas quem esteve nesta batalha jamais esquecerá o que sentiu quando parecia que tudo estava perdido e, ainda assim, alguém apareceu, estendeu a mão e disse: Vamos continuar. Ainda não acabou.
E nós continuamos!
Quando nossos filhos e netos perguntarem onde estávamos quando o Brasil precisou de nós, não teremos de inventar histórias. Poderemos olhar nos olhos deles e dizer:
Estávamos lá!
Estávamos nas ruas, nas escolas, nas universidades, nas igrejas, nas redes, nos bairros, nas pequenas cidades e nas grandes capitais.
Estávamos onde a democracia precisava de defensores.
Estávamos onde o ódio tentava expulsar a esperança.
Estávamos onde a mentira tentava ocupar o lugar da verdade.
Estávamos lá quando os poderosos acreditaram que já haviam vencido.
E estávamos lá quando o povo mostrou que ainda era capaz de decidir seu próprio destino!
Por isso, meus irmãos e minhas irmãs de luta, este dia não será lembrado apenas pelo resultado de uma eleição. Será lembrado como o dia em que tanta gente diferente descobriu que podia caminhar na mesma direção sem precisar pensar exatamente da mesma maneira.
O dia em que o povo mostrou que a democracia não pertence aos donos do dinheiro, aos donos das armas, aos donos das plataformas digitais ou aos donos dos meios de comunicação.
A democracia pertence ao povo!
E aqueles que hoje se sentem orgulhosos por terem participado desta vitória terão o dever de transmitir sua história aos que vierem depois.
Contem a história dos estudantes da UFF e dos jovens que ocuparam as ruas.
Contem a história das mídias alternativas.
Contem a história do exército de Janones.
Contem a história dos velhinhos e das velhinhas que não aceitaram ver desaparecer a liberdade conquistada a tanto custo.
Contem a história de cada pessoa que, mesmo correndo riscos, decidiu não abandonar a democracia.
E, quando contarem essa história, não digam que foram os grandes que salvaram o Brasil.
Digam que foram muitos pequenos, juntos, que impediram os grandes e poderosos de tomarem o Brasil para si.
Digam que fomos diferentes, imperfeitos, contraditórios, por vezes desorganizados, mas que encontramos um propósito comum quando a história nos convocou.
Digam que não tínhamos todas as respostas, mas sabíamos qual era o perigo.
Digam que não tínhamos todas as armas, mas tínhamos nossas vozes.
Digam que não tínhamos todo o dinheiro, mas tínhamos nossas mãos.
Digam que não controlávamos os algoritmos, mas ainda éramos capazes de pensar.
Digam que não éramos donos da verdade, mas não aceitamos viver de mentiras.
E digam que, quando nos perguntaram se ainda acreditávamos no Brasil, respondemos com nossos votos, nossos corpos, nossas palavras e nossa coragem.
Nós, os poucos! Nós, os felizes poucos! Nós, o povo brasileiro!
E agora, quando a festa começar, quando as bandeiras forem erguidas e quando os nossos corações finalmente puderem descansar um pouco, que ninguém se esqueça de que a batalha da democracia não termina na urna.
A vitória não nos dá o direito de humilhar os derrotados, nem de abandonar os que ainda não compreenderam o que estava em jogo.
Dá-nos, isso sim, a responsabilidade de reconstruir o que foi destruído, de proteger os direitos conquistados e de provar que a esperança pode produzir resultados concretos na vida das pessoas. Porque o Brasil não é nosso. O Brasil é de todos os brasileiros.
E esta vitória só terá valido a pena se for capaz de tornar a vida de nosso povo mais digna, mais livre e mais feliz.
Agora, meus amigos, vamos em frente!
Que os nossos passos sejam firmes, mas que nossos corações permaneçam humildes.
Que celebremos a vitória sem esquecer os que ficaram pelo caminho.
Que honremos os que lutaram sem transformar a luta em vaidade.
E que jamais percamos de vista o motivo pelo qual começamos tudo isso.
Vinde, tomemos novamente as ruas!
E que se proclame, por todo o nosso exército, a pena de morte política para a vaidade de quem se vangloriar desta vitória como se ela lhe pertencesse, ou ousar roubar do povo a honra que somente a ele pertence!
* Texto publicado em https://revistaforum.com.br/opiniao/nos-os-poucos-os-felizes-poucos-por-pastor-ze-barbosa-jr/
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