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Manifesto de Amor em Tempos de Eleição

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16.10.2026 | 12 minutos de leitura
Anna Bárbara & Lucas
Diversos
Manifesto de Amor em Tempos de Eleição
 Que Deus seja misericordioso, nos livre de todas as formas de violência,
intolerância e perseguições, mas com coragem assim quisemos nos expressar
... 
 
A Fé que transborda — Doutrina Social e Vida em Comunidade 
A escolha de nossos representantes cívicos não é um ato neutro, mas uma expressão concreta do nosso compromisso de fé com o bem comum. Como cristãos somos chamados a ser Sal da Terra e Luz do Mundo. Essa metáfora utilizada por Jesus em seu Sermão da Montanha tem um rico significado. O Sal é aquele elemento que dá sentido e sabor à vida. Ou seja, é o que nos inspira a levar alegria em ambientes marcados pelo desânimo e vazio moral. O sal não chama atenção para si, ele se dissolve humilde para fazer o seu papel de forma silenciosa. O sal também é aquele elemento que impedia, na antiguidade, que os alimentos estragassem. Em outras palavras, ele tem a capacidade de conservar a essência daquilo que, sem o devido cuidado, se deterioraria rapidamente. Na sociedade, essa preservação se traduz na nossa persistência em sustentar a justiça e os valores do Evangelho mesmo em tempos difíceis. Ser Luz significa dissipar as trevas, trazer clareza moral e orientação em tempos de conflitos, divisão e injustiças. A luz do Cristão não é própria, é a Luz de Deus que ele carrega, ela exige posicionamento. Quando realizamos boas obras, é Deus quem age através de nós. Por isso, elas não podem servir à autopromoção individual, nem ser instrumentalizadas como atestado de superioridade ou ferramenta de falso moralismo. 
A ética secular estabelece as balizas legais para a convivência social, contudo a moral cristã exige de nós um compromisso ontológico e espiritual muito mais profundo. Não somos chamados a viver sob a régua do mero legalismo, mas a exercer uma responsabilidade ética pautada pela graça e pelo temor a Deus. Evitar o mal não deve ser uma resposta à imposição do Estado, mas a consequência natural de uma vida fundamentada no amor ao Criador e ao próximo. Portanto, é evidente que, como seguidores de Cristo e filhos de Maria Santíssima, precisamos buscar no Evangelho as respostas que nos capacitam a ser Sal da Terra e Luz do Mundo. Assim, poderemos agir como construtores do bem comum, permitindo que o verdadeiro amor de Cristo nos guie e transborde para o exercício da cidadania. 
Dito isso, algumas reflexões se fazem necessárias. Talvez a mais profunda delas envolva diretamente a Doutrina Social da Igreja Católica, à luz da perspectiva apresentada pelo Papa Leão XIV na Carta Encíclica Magnifica Humanitas. O documento reconhece o potencial do desenvolvimento tecnológico e da pesquisa científica, ao mesmo tempo que alerta para a necessidade de orientar o progresso por princípios éticos que salvaguardem a dignidade da pessoa humana, promovam a justiça social e fortaleçam o bem comum. Diante dos desafios de uma sociedade marcada por transformações tecnológicas aceleradas, desigualdades e fragilização das relações humanas, o Santo Padre nos convida a refletir sobre os fins a que servem nossas conquistas científicas e sobre as responsabilidades que delas decorrem. Nessa perspectiva, a grandeza da ciência e da tecnologia não se mede apenas por suas possibilidades de inovação, mas também por sua capacidade de contribuir para a dignidade humana, a inclusão e o bem comum. Cabe-nos, como seguidores de Cristo, cultivar uma relação responsável entre fé, razão e cidadania, colocando o conhecimento a serviço de uma sociedade mais justa e fraterna. 
Os princípios apresentados nessa visão da evolução da doutrina social entre os papados, retratadas particularmente desde o Papa Leão XIII, mostram que os novos tempos exigem olhares que encontram novas demandas, mas todos suportados pelo mesmo amor testemunhado por Cristo no Evangelho. São Paulo VI fala em “civilização do amor”. Papa Francisco apresenta em Laudato Si a importância do cuidar de nossa “Casa comum” e usa o termo “ecologia integral” também como um apelo ao desenvolvimento humano, especialmente que contempla os pobres, excluídos, migrantes e as vítimas das novas formas de escravidão. O próprio Jesus nos deixou o exemplo supremo dessa postura: Ele fez questão de sentar-se à mesa com os excluídos, cobradores de impostos e pecadores — aqueles que a sociedade da época descartava —, lembrando-nos de que não são os sadios que precisam de médico, mas sim os doentes (cf. Mt 9,12). Papa Francisco foi muito lúcido ao propor que o Cristão tem uma responsabilidade intrínseca com as 
minorias. Ele invoca uma Igreja capaz de buscar o bem comum, caminhos de reconciliação e um mundo que garanta terra, teto e trabalho para todos. Foi um defensor da construção de pontes e não de muros. Isso é muito simbólico para nossos dias atuais e principalmente para a promoção de nossas famílias, pois se queremos comunhão não há espaço para que defendamos políticas que promovem o individualismo, que não respeitam a pluralidade de nossa sociedade, e particularmente as diferenças sociais ou que aspiram enfraquecimento das instituições e poderes que são instituídos pelo Estado para a proteção de nossas próprias necessidades. 
Como autores deste manifesto, falamos aqui não apenas como cidadãos, mas como um casal cuja caminhada de fé é alimentada por nossa devoção à Virgem Maria e pelas Equipes de Nossa Senhora (ENS). Permitam-nos dedicar algumas palavras para contextualizar esse movimento. As ENS nascem de um anseio, um profundo desejo de acolhimento espiritual de quatro casais na França, em 1938, que procuram um jovem padre chamado Henri Caffarel para lhe solicitar orientações para a vida matrimonial cristã. Esse anseio, nascido da inquietação e da busca por um sentido maior, transforma-se a partir daquele encontro providencial. Por uma marcante ironia da história, é em meio a um cenário de guerra e opressão que nasce a primeira comunidade de casais cristãos do Movimento. Hoje espalhado por todo o planeta, o Movimento se estrutura em equipes batizadas com os mais diversos títulos de Nossa Senhora. Cada uma delas é formada por até sete casais e um conselheiro espiritual que, nessa caminhada de base, decidem viver sob o mesmo propósito, servindo uns aos outros. Através de reuniões regulares e da convivência fraterna, orientadas sistematicamente por um tema de estudo e um livro anual cuidadosamente curado para tais propósitos por uma Equipe Responsável Internacional (ERI), os casais são capacitados a aprofundar essa vivência de amor. Ali nos é proposta uma caminhada contínua para a santificação do casal e a edificação da família — nossa primeira Igreja —, convocando-nos a viver a experiência da ajuda mútua, da regra de vida, da coparticipação e da partilha. 
Ao olharmos com atenção para essa dinâmica, percebemos que todas essas exigências trazem em sua raiz a doação de si e o senso de comunidade. O agora Servo de Deus Padre Henri Caffarel foi brilhante ao propor essa premissa para cultivar a espiritualidade e o suporte à vida do casal. Contudo, essa espiritualidade jamais poderia se encerrar em si mesma, pois nenhuma virtude cristã foi dada para consumo próprio. Quando praticamos essa doação no dia a dia da equipe, estamos educando o nosso coração para a lógica do Reino: uma lógica em que a dor do outro nos importa e o bem de todos é a prioridade. O que vivemos na reunião de equipe é o ensaio geral para a nossa missão no mundo.

A Fé que Agiliza 
Este mesmo mundo encontra-se fragilizado pela busca incessante de conforto econômico, que acelera a degradação ambiental e aprofunda as desigualdades. O resultado é a crescente injustiça socioambiental, visível no desmatamento desenfreado, no consumo irresponsável e na contaminação das águas, do ar e da terra. A falta de responsabilidade com o meio ambiente é evidentemente uma falta de solidariedade, gerando graves danos à saúde humana e marcas sociais de difícil reparação. Vivenciamos hoje as duras consequências da crise climática global. Trata-se de uma realidade que afeta diretamente a saúde e o bem-estar da população, convergindo para um quadro cada vez mais grave de desastres ambientais sem precedentes, os quais já não podemos mais ignorar. Desde o surgimento do Holoceno, época geológica de estabilidade climática iniciada há cerca de 12 mil anos que permitiu o florescimento da agricultura e das sociedades humanas, o planeta desfrutou de um equilíbrio que agora se esgota. A comunidade científica alerta que já cruzamos a linha de segurança em 6 dos 9 limites planetários vitais1 (métricas biofísicas), aproximando o planeta de um ponto de não retorno. Como nos recorda a Doutrina Social da Igreja, cuidar da criação não é opção poética, mas urgência moral. O cientista Johan Rockström, idealizador do modelo dos limites planetários2, deixa evidente que atravessar esses limites não significa cair imediatamente num precipício, mas entrar em uma zona de perigo onde aumentamos drasticamente o risco de desestabilizar o planeta de forma irreversível. 
Nossa nação tem um papel central nesse contexto global, pois o Brasil, entre seus diversos biomas, abriga uma biodiversidade riquíssima, fundamental para a manutenção dos serviços ecossistêmicos — 
essenciais para a existência e o bem-estar humano —, como o fornecimento de ar puro e água limpa, condições climáticas favoráveis, alimentos e matéria-prima. É importante notar que a Plataforma Intergovernamental sobre Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (IPBES), plataforma vinculada a agências da ONU (como o PNUMA e a UNESCO), nos informa que mais de um bilhão de pessoas no mundo dependem diretamente dos bens e serviços da natureza para sua subsistência. Contudo, a preservação desse patrimônio e a nossa soberania nacional encontram-se hoje no centro de um intenso debate político. São pautas que estão diretamente em jogo neste ciclo eleitoral, em que as mudanças na representatividade ideológica decidem os rumos do país. Há planos de governo e debates parlamentares que ameaçam a proteção ambiental com pautas voltadas ao enfraquecimento de órgãos de fiscalização, à redução de Unidades de Conservação e à mercantilização de bens públicos, como no caso da PEC das praias (PEC 3/2022). No cenário internacional, as relações diplomáticas e a soberania nacional são postas à prova diante das pressões globais pelo acesso a recursos altamente estratégicos, como as nossas reservas de terras raras. É urgente compreender que a integridade desses solos é vital para a saúde de nossos biomas. No contexto global, esses bens essenciais não podem ser tratados como simples mercadorias de barganha econômica, mas como recursos estratégicos que exigem cuidado ético, responsabilidade socioambiental e defesa intransigente da nossa soberania. 
Está claro que o ser humano não é o dono do universo, mas faz parte dele, e a nossa Casa comum tem limites físicos que não podemos continuar a ignorar. É justamente diante dessa fratura que a solidariedade e a caridade assumem a sua função essencial: enquanto a solidariedade nos convoca à responsabilidade cívica de combater as injustiças e proteger os mais vulneráveis, a caridade insufla alma a essa missão, transformando a defesa da Casa Comum em um gesto concreto de amor a Deus e ao próximo. 
Diante de todo esse cenário, a escolha de nossos representantes torna-se mais clara quando questionamos objetivamente os projetos em disputa. Vale nos perguntar: o projeto político que decidimos apoiar compromete-se a defender a soberania nacional, salvaguardar a democracia, garantir direitos fundamentais como saúde, educação, moradia e trabalho digno, além de promover o respeito à vida em todas as suas etapas, o cultivo da paz e a proteção dos mais vulneráveis? As propostas assumem a justiça socioambiental, a defesa dos povos originários, populações tradicionais e o cuidado com a \'Casa Comum\' como prioridades, ou inclinam-se à redução do amparo social e ao descuido com a criação? 
Ao confrontar cada candidatura e seus planos de governo que são públicos com as exigências do Evangelho, qual caminho o seu voto ajudará a construir? As lideranças que apoiamos estarão compromissadas em construir pontes ou em erguer muros? O discernimento cabe a cada um de nós, mas a omissão não é uma opção diante das urgências da nossa Casa Comum. Lembro mais uma vez, como Cristãos somos chamados a ser Sal da Terra e Luz do Mundo também nas escolhas que fazemos para a vida em sociedade. O propósito desta reflexão é suscitar o despertar da consciência, buscando a intimidade com Cristo ao tomar essa decisão. Que Deus abençoe nossa nação e que todos seus cidadãos decidam ser construtores, e não meros inquilinos.

Referências científicas 
1. Richardson, K., Steffen, W., Lucht, W., Bendtsen, J., Cornell, S. E., Donges, J. F., ... & Rockström, J. (2023). Earth beyond six of nine planetary boundaries. Science advances, 9(37), eadh2458. 
2. Rockström, J., Donges, J. F., Fetzer, I., Martin, M. A., Wang-Erlandsson, L., & Richardson, K. (2024). Planetary Boundaries guide humanity’s future on Earth. Nature Reviews Earth & Environment, 5(11), 773- 788. 

*Nota de esclarecimento: Embora sejamos membros das Equipes de Nossa Senhora, as reflexões apresentadas neste texto são de nossa inteira responsabilidade e não representam necessariamente o posicionamento oficial do movimento.

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