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96. Teologia para os nossos dias

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30.06.2021 | 1 minutos de leitura
Tânia da Silva Mayer
Diversos
96. Teologia para os nossos dias
A teologia do fim ou da finalidade última de todas as coisas é considerada atualmente uma teologia da esperança. A fé ensina sobre um futuro no qual não haverá morte, luto, choro ou dor. Precisamente, os sofrimentos experimentados no presente não terão lugar quando formos imersos definitivamente na glória divina, quando nossa história for transformada em Reino de Deus e quando o mundo que conhecemos se realizar, uma vez por todas, como novos céus e terra. Como se pode perceber, a finalidade última de todo o criado é uma espécie de consumação de um chamamento originário, uma destinação afortunada muito diferente do tempo em que vivemos, porque é estado mais pleno da possibilidade da vida. Crer que somos encaminhados e que nos encaminhamos para um momento mais possível para a existência é um ato exigente da fé que se nutre de esperança.

Nesse aspecto, enquanto teologia da esperança, nutriu-se uma mística de que morrer é lucro. Assim, a morte é o fim não apenas esperado, mas também desejado, porque é a libertação do tempo de sofrimento e estada definitiva na graça de Deus. Mas essa perspectiva cristã merece ser vivida e cultivada quando podemos gozar, ainda que timidamente, de momentos nos quais a vida é mais abundante e plena. O morrer também adquire valor quando se trata de morrer pelo Reino e sua justa medida das relações e do mundo. Não sem medo, diversos homens e mulheres ao longo das épocas foram coroados mártires da fé e da caminhada do povo de Deus, porque tombaram pela maldade dos homens que sempre temeram e continuam temendo a revolução que o Reino significa para quem o acolhe ou não.

Mas no tempo em que vivemos, o morrer tem um sentido diferente. Embora experimentemos a avalanche de morte dos outros, cada vez mais conhecidos e próximos, sabemos que estamos vivos. E diante de tantas mortes que poderiam ter sido evitadas por meio de políticas públicas comprometidas com a promoção da vida, nossas consciências não podem se alienar do sentido da vida. Precisamente, saber que estamos vivos e que somos sobreviventes do genocídio brasileiro desta época nos interpela e nos convoca à luta cotidiana por essa mesma sobrevivência. Essa exigência feita a cada indivíduo só se torna possível quando damos um passo em direção ao coletivo. Esse passo é, precisamente, nosso ponto de resistência e esperança.

Precisamente, uma teologia possível para nossos dias não apenas reafirma nosso destino e vocação original para uma vida mais possível e plena, ela, nesse sentido, discerne os sinais de nosso tempo e, por meio de seus porta-vozes, não omite a dramática vivenciada pela humanidade neste tempo. Isso significa que, ainda mais quando somos massacrados e conduzidos, como ovelhas, ao matadouro cotidiano de práticas irrefletidas e irresponsáveis, a teologia precisa se vestir de profetismo, os teólogos(as) leigos(as) ou clérigos precisam, por dever de batismo e ofício, denunciar o que em nossos dias se revela contrário ao Reino e à vida plena que dele advém.

Nesse aspecto, nenhuma igreja deveria celebrar a eucaristia sem o pedido de perdão pelas mais de meio milhão de vidas dizimadas no Brasil e sem a denúncia dos altos telhados dos responsáveis por essa chacina, por esse genocídio. Uma eucaristia que não considere esses dois movimentos deixa de ser louvor e passa a ser magia. Assim, só devemos propor a oração pelas vítimas e por seus familiares se nosso discurso teológico sobre a esperança for alimentado pela resistência, única ação viável para nossa sobrevivência no presente.
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