87. A grandeza da pequenez

“Quem quiser ser o maior deve ser o menor de todos” (Mt 20,27)
“Fizeste-me passagem
Da folha ao voo do pássaro
Do sol à doçura do fruto.
Para me encontrares, me deste
A pequenez"
(Daniel Faria)
O complexo de superioridade é coisa irritante. Aqueles cujo ego é maior que o Himalaia se tornam pedra de tropeço na vida da gente. Por toda parte onde andamos, esbarramos em sua prepotência. Por onde vamos, lá está o grande ego, todo inflado, se exibindo, se mostrando mais que manequim em vitrine, parecendo uma árvore de natal, majestosa, pomposa, atraindo os olhares.
Tenho percebido que, com o passar dos anos, minha intolerância a esse tipo de comportamento cresce; minha paciência com exibicionismos se reduz drasticamente. Aumenta meu desprezo a essa opção de vida e agiganta-se minha certeza de que a pequenez humana é universal.
Estou convicta que todo complexo de superioridade esconde o seu avesso. Afinal, todo muro tem dois lados; toda moeda tem duas faces. Por trás do ar de grandeza que às vezes ostentamos, há pequeninices que a gente quer esconder. A grandeza nem sempre é tão grande quando parece. Quanto maior o ego, menor a identidade e mais diminuta a interioridade. Quanto maior a superioridade, maior o abandono e menor a possibilidade de relações fraternas. Grandeza pode ser empecilho para crescimento; impedimento para vida plena de sentido e de boas relações. Ao contrário, a pequenez pode ser gigante. Há pessoas que se mostram pequenas, mas são de envergadura admirável. E, na capacidade de se fazerem pequenas, mostram sua grandeza de alma. Assumir a pequenez pode ser o primeiro passo para começar a crescer: um trabalho árduo e fatigoso que costuma durar nossa vida inteira. Afinal, como disse Charles Chaplin em Luzes da Ribalta, “somos todos aprendizes; não vivemos o suficiente para ser outra coisa”.
O relato do encontro de Jesus com Zaqueu, descrito no Evangelho de Lucas, mostra as vantagens da pequenez e as desvantagens da superioridade. Zaqueu era grande em esperteza – não nega ter defraudado alguém. Era bem saído nos negócios, homem de posses, conhecido publicano... Sua grandeza, porém, não lhe foi suficiente para aproximá-lo de Jesus. Estranho, porque, sendo ele publicano, tinha acesso ao Mestre Nazaré, que vivia cercado desse tipo de gente nada bem vista por outros grandes de seu tempo, os fariseus. Mas toda grandeza de Zaqueu não gerou proximidade com o amigo dos pecadores. Foi sua pequenez quem o fez alçar voos e voar bem mais alto.
Quando Zaqueu assumiu sua pequenez e decidiu subir numa árvore para ver Jesus, admitiu que não podia fazê-lo sem ajuda de algo externo a ele. Seu ego tão grande não o elevava. Não criava pontes para encontros, nem abria portas para diálogos. Erigia muros entre ele e o Pregador de Nazaré, o menor dos homens, o servo de todos. Não que para ver Jesus precisemos de alguma grandeza ou de algum pressuposto anterior ao próprio encontro, pois é ele quem vem a nós e nos encontra na nossa pequenez e nos ergue, nos eleva à condição de irmãos dele, filhos do mesmo Pai do Céu. Entretanto, subir na árvore significa admitir a própria impotência e abrir-se para acolher a oferta generosa de Deus em Jesus Cristo. Como escreveu Daniel Faria (poeta português, noviço beneditino falecido em 1999), assumindo o lugar de Zaqueu: “Fizeste-me passagem da folha ao voo do pássaro... para me encontrares, deste-me a pequenez”. Parece que o jovenzinho noviço, apesar de sua juventude, pode desfrutar de sabedoria elevada. Admitir as próprias carências, demarcar as próprias faltas e assumir a própria pequenez são atitudes libertadoras. Enquanto que esconder-se por trás de um superego é escravizante. Não nos faltem árvores frondosas que nos revelem nossa pequena estatura e nos convidem a sair de nós mesmos para ser encontrados pelo Mestre!
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